Chamem-lhes monstros, chamem-lhes milagres. Os novos fármacos para a obesidade têm nomes de código tão evocativos quanto a sua promessa: o T-Rex (semaglutida, Wegovy®), que reduziu, grosso modo, 15% do peso corporal em ensaios clínicos; o King Kong (tirzepatida, Mounjaro®), que chegou aos 22%; e o Godzilla (retatrutida), ainda em aprovação, que ensombra tudo o que veio antes com reduções que tocam os 25%. Três moléculas. Uma nova era.
Mas falar apenas de quilos perdidos é subvalorizar uma revolução que vai muito além da balança. Comecemos pelo SNS, esse doente crónico que consome por volta de 8 mil milhões de euros por ano. A obesidade é o motor silencioso de diabetes tipo 2, da doença cardiovascular, de vários cancros, da apneia do sono, artroses, depressão, infertilidade, entre muitas mais. Cada pessoa com obesidade custa ao sistema, em média, o dobro de um cidadão com peso saudável. Recordamos que, em Portugal, mais de 50% das pessoas têm excesso de peso / obesidade – a poupança anual pode superar a linha dos milhões de euros, quer em cirurgias evitadas, internamentos cancelados, insulina e outros tratamentos que nunca foram prescritos, consultas que não foram precisas, tempo médico e tempo de listas de espera que foi eliminado.
O ganho económico estende-se ao tecido produtivo. Menos absentismo, mais produtividade, trabalhadores com mais anos de vida activa, mais felizes e saudáveis. Os estudos norte-americanos calculam que cada dólar investido nestes fármacos gera 3 a 5 dólares de retorno económico. No plano social, a obesidade é ainda um estigma que exclui, envergonha e mata devagar – o fim do estigma é também um ganho civilizacional e um direito social de equidade e acesso ao tratamento.
Mas o argumento mais surpreendente – e o mais perturbador para os céticos – é o ganho ambiental. Menos comida significa menos pecuária intensiva, menos metano, menos desflorestação para pastagens. Um Boeing 737 mais leve gasta menos combustível por passageiro – e as companhias aéreas já quantificam o impacto do peso no custo operacional. Somem tudo e percebam: estes monstros farmacológicos podem ser aliados inesperados do Acordo de Paris.
O desafio é garantir que cheguem a todos – e não apenas aos que podem pagar 200 euros ou mais por mês, dependendo das doses que façam. É aqui que o SNS tem de ser corajoso. O custo dos fármacos cai sempre com o uso em larga escala e com os genéricos (que estão para chegar num piscar de olhos). O custo de não os usar já o estamos a pagar – há décadas. Quanto mais tempo precisamos para entender isto?!
Nota: Os medicamentos referidos requerem prescrição médica. Os dados económicos e ambientais são baseados em projeções de estudos publicados. “T-Rex”, “King Kong” e “Godzilla” são denominações informais utilizadas na comunidade científica e na imprensa especializada internacional.