Dizer que o ambiente político do Ocidente está degradado é um eufemismo. Do crescimento de movimentos e partidos ultranacionalistas, com laivos de racismo e xenofobia, ao reaparecimento de partidos da extrema-esquerda, o que se passa afinal com a política dos países que nos habituámos a ver como democratas e moderados?

Em qualquer canal noticioso “do cabo” podemos encontrar infindáveis horas de análises, sobre como os partidos moderados não estão a saber responder às ânsias do eleitorado. Eu pergunto-me, será esta a causa? Penso que que não será a única, e o recente caso Spinumviva pode dar-nos algumas pistas; nomeadamente o que se passou na discussão da Moção de Confiança apresentada pelo Governo da Aliança Democrática.

É verdade que os partidos tradicionais têm andado um pouco desligados da realidade que os circunda, mas não tenho a certeza de que esse seja o principal motivo da sua queda eleitoral. Arrisco até, dizer que os grandes líderes políticos da nossa História não foram aqueles que melhor souberam escutar os seus eleitorados, mas antes aqueles que melhor souberam explicar aos seus concidadãos quais os temas e as problemáticas nas quais se deviam focar. Penso que o problema estará menos no conteúdo e mais na forma da política actual.

Em 1956, no livro Profiles in Courage, o então Senador John F. Kennedy rejeitava a ideia de que a sua função fosse de mero espelho da vontade popular: “Tal ponto de vista pressupõe que a população de Massachusetts me mandou para Washington para servir apenas de sismógrafo com a função de registar as mudanças de opinião pública”. Já Churchill, quando lhe aconselharam que estivesse “com um ouvido no chão”, como quem escuta o zumbido dos carris para prever a chegada de um comboio, respondeu: “A nação britânica terá alguma dificuldade em olhar de frente para líderes que sejam apanhados nessa posição”.

Escolhemos, no Ocidente, uma forma de governo em que o povo delega o seu poder em governantes eleitos, a democracia representativa. É, até prova em contrário, a forma menos imperfeita de governo, no entanto é também a mais frágil, porque depende de um contracto tácito entre governador e governado. A democracia representativa pressupõe que o governante decida, de acordo com as crenças e os princípios anunciado antes da eleição, nunca esquecendo o maior interesse de quem é governado e do país que se governa, e que, no fim do seu mandato, seja escrutinado e avaliado pelo mesmo povo em função do seu desempenho.

Não obstante os governantes só poderem ser legitimados pelo povo que os elege, isto não pode significar que se transformem em meros megafones, que amplificam as vozes de quem muitas vezes não sabe bem, nem tem de saber, o que quer. Infelizmente vejo esta a ser cada vez mais a realidade em que os governos procuram embarcar, com receio da perda de votos e de poder.

Vejamos o caso da fundação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, precursora da União Europeia. Se Schumann, Monnet, Adenauer e de Gasperi se tivessem limitado a auscultar a vontade da população francesa, alemã e italiana, certamente que a vontade dominante não seria a de firmar acordos entre países que, até há pouco tempo, eram inimigos no palco da II Guerra Mundial. A capacidade destes líderes de se sentarem em torno de uma mesa, colocando o ruído da vontade popular em segundo plano, permitiu a criação de uma instituição que, melhor ou pior, foi um dos garantes de paz numa das regiões do globo mais propensas ao conflito armado.

Voltando ao início, e ao que se passou na Assembleia da República no dia 11 de Março, pergunto-me: será que Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos têm vontade de se sentar numa sala, colocar de lado as diferenças políticas e os interesses pessoais e partidários, e chegar a uma solução que beneficie o país? Não tenho a certeza.

Um dos principais danos que os partidos dos extremos causaram ao sistema político não foi o de introduzir ideias abjectas no debate público. Essas sempre existiram e são facilmente rebatidas com um pouco de bom senso. Na minha opinião, o maior dano desta onda de populismos é o de ter convencido os partidos tradicionais de que também eles devem participar neste combate acirrado e entrincheirado, não percebendo que o aprendiz nunca vai superar o mestre. Se o objectivo é o combate feroz aos adversários políticos e ao sistema, o voto nunca vai tender para quem, no passado ou no presente, fez parte de soluções de compromisso.

Contra os populismos, não obstante as suas lutas interpartidárias normais, os partidos “do sistema” sempre tiveram um grande trunfo: no momento da verdade eram capazes de dialogar e chegar a uma solução de meio-termo. É verdade que, normalmente, nenhum conseguia exactamente o que queria, mas conseguia-se, melhor ou pior, que o país fosse andando para a frente e que fosse governável.

No debate de 11 de Março, vimos como a ideia de que os líderes dos dois maiores partidos se pudessem sentar, à porta fechada, para chegar a uma solução que pudesse beneficiar os portugueses, foi imediatamente vista como inaceitável e uma enorme falta de transparência. Claro que não era naqueles moldes que o encontro deveria ter sido proposto. Não sei tampouco se houve propostas, de alguma das partes, para que esse encontro pudesse ter acontecido em tempo próprio; se não houve, o caso é ainda mais grave.

De qualquer forma, parece-me um pouco esquizofrénico que no dia 28 de Fevereiro uma reunião pública entre Trump e Zelensky fosse vista como indesejável, mas que, 11 dias depois, a negociação entre AD e PS só pudesse ser feita em frente às câmaras da ARTV, reproduzidas, em directo, em pelo menos meia dúzia de canais televisivos.

A Política sempre foi, no âmago, um desporto de cavalheiros orgulhosos. Se retiramos o cavalheirismo da equação, ou se coartarmos a capacidade de o exercer sem perder a face, resta-nos a baixa política que nada mais gera do que discórdia, cisão, atraso, e vá, de vez em quando, uns bons momentos de televisão, mas pouco edificantes para quem quer ver Portugal crescer.

Parece que longe vão os tempos em que os políticos se conheciam pessoalmente, em que eram capazes de reconhecer humanidade nos adversários, em que tentavam ver bondade nas suas propostas, e em que podiam conversar sem isso pôr em causa a sua legitimidade enquanto líderes de facções opostas. Hoje parece que o diálogo é usado apenas como um argumento que soa a falso, para legitimar opções que são tomadas ainda antes de se partir para as negociações. Este sim é o verdadeiro sintoma da polarização. Será que os nossos políticos ainda conversam quando as câmaras estão desligadas? Se não o fazem, deviam…