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Nesta última semana confesso que fui assaltada amiúde de desconfianças fundamentadas sobre as capacidades cognitivas dos felizes habitantes de Portugal. Joana Vasconcelos disse que se fosse refugiada levaria na mochila joias, óculos de sol e ipad e meio Portugal enlouqueceu. Ah, onde já se viu, que falta de noção da senhora, deve pensar que vai para um fim de semana num resort de luxo, uma alienada das agruras da vida enquanto refugiada (que os críticos de Joana Vasconcelos conhecem desde pequeninos, evidentemente), ai a sorte de já se ter dado descanso à guilhotina vai para mais de duzentos anos.

Pois bem, eu declaro que levaria as mesmas coisas que Joana Vasconcelos na mochila. Os óculos de sol, porque sofro de grande sensibilidade à luz e não prevejo que uma eventual temporada como refugiada me curasse essa condição. Na verdade, se virem alguém por Lisboa a guiar de óculos escuros mesmo no inverno, às vezes até a chover, quando o céu não está mesmo, mesmo cinzento e desmaiado, sou eu.

O ipad também levaria, desde logo porque padeço de uma certa adicção ao objeto e já há muitos sítios por essa Europa com wifi gratuito. Claro que houve uns pomposos hipócritas que proclamaram recusar as tecnologias e declararam levar livros, se não mesmo vários volumes de enciclopédias, para a sua vida de refugiados. Ora eu também gostaria de levar muitos dos meus livros, mas os diabinhos literários têm a mania de serem pesados. Transtorna-me separar-me, até porque sou um dos seres que se afeiçoa aos livros, dos meus romances da Jane Austen forrados a tecido da Penguin, por exemplo. Mas reconheço que gosto mais de viajar livre de contraturas na cervical, e sem necessidade de emplastros anti-inflamatórios, do que dos livros. Na verdade – e porque também sou uma junkie da leitura – se fosse refugiada era bem provável que me sentisse à vontade para desrespeitar os direitos de autor e demais legalidades e descarregasse livros pirateados para o meu ipad, onde depois os leria confortavelmente.

E levaria as joias, claro. São objetos valiosos facilmente transportáveis que qualquer pessoa sem maleitas cognitivas perceberia dever transportar nesta situação. Se a viagem corresse bem, seriam valores que eu manteria. Se não corresse bem, as joias são razoavelmente fáceis de vender, ou um bom meio de pagamento, pelo que são muito úteis quando há necessidade de fundos. Mais. Como sou uma capitalista impenitente e uma reacionária de direita, evidentemente valorizo bens como joias. Além de serem bonitas (as minhas, pelo menos), há algumas que me partiria o coração perder. O anel que os meus pais me deram quando eu fiz trinta anos. O anel (eu sou uma pessoa de anéis, preferencialmente grandes e originais) que me deram quando fiz quarenta anos. O anel (já disse) que recebi quando o meu filho mais velho nasceu e os brincos com que me brindou o mais novo. E por aí adiante.

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A minha futilidade (ou, diria eu, prudência) vai ao ponto de só as contraturas (outra vez) me dissuadirem de carregar talheres de prata caso me calhasse a sorte de refugiada.

Mas este episódio da Joana Vasconcelos pôs-me a pensar nos moralistas modernos, que são tão parecidos com os moralistas católicos de sempre. O horror – pelo menos o proclamado – aos bens materiais é igual. Uns porque a salvação é dificultada pelos apegos materiais, outros porque só são relevantes os intangíveis bens culturais e desprezam o vil metal. Uns querem menos consumo porque é mais difícil um camelo passar num buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus, outros porque o consumo esgota os recursos do planeta, gera poluição, explora povoações subdesenvolvidas, blablablablá.

Logo a seguir, no entanto, os moralistas modernos descansaram-me. As escolhas prudentes de Joana Vasconcelos para a sua hipotética viagem de refugiada levaram aparentemente, tal a indignação, uns tantos à gaveta dos ansiolíticos e outros tantos às garrafas de gin. Mas veio a seguir a notícia de que o menino querido da esquerda radical europeia – Varoufakis, o próprio – recebe os pagamentos das conferências que faz através do paraíso fiscal de Oman e já não ocorreu nem ultraje nem, sequer, reação de outro género. É inteiramente normal e moral, para estes moralistas modernos, Varoufakis não pagar impostos no seu país, que por acaso tem um ou dois problemas de finanças públicas. Como se vê, a hipocrisia é deste reino.

(Tal como é legítimo Lula receber presentes indevidos de fontes obscuras, que a bolsa família e a ‘minha casa, minha vida’ e etc., afinal tanto bem que fez aos descamisados brasileiros. Mas estas são outras conversas.)

Isto dito, sabem porque os paraísos fiscais nunca vão deixar de existir? (E ainda bem, afirmo eu. Um país decidir não taxar rendimentos é perfeitamente legítimo.) Porque as pessoas de esquerda também precisam de locais onde por a salvo o seu dinheiro, inclusive se obtido legalmente, da fiscalidade obscenamente alta dos países europeus. E sem causar nenhum achaque aos moralistas modernos.