Há momentos na História em que o silêncio é cumplicidade e a inércia, traição. A Europa vive, neste início de século, um desses instantes limítrofes, em que a grande promessa de unidade e prosperidade que animou os povos desde o pós-guerra parece dissolver se num nevoeiro de tecnocracia estéril, desagregação moral e impotência estratégica. Já o disse Charles de Gaulle: “A Europa não pode ser apenas um mercado; deve ser também uma alma”. Pois essa alma, que outrora se traduziu em ideais civilizacionais capazes de iluminar o mundo, agoniza hoje nos corredores de Bruxelas, sufocada por uma retórica de união que não une, por tratados que se cumprem mais no papel do que no espírito e por lideranças que confundem consenso com mediocridade.
É neste quadro que a velha chama da Paneuropa — o mais antigo movimento de unificação do continente — deve ser convocada de novo, não como relíquia histórica para embelezar discursos, mas como projeto vivo, urgente e mobilizador. A sua génese, no entre-guerras, não foi fruto de um romantismo inocente, mas de uma lucidez estratégica: compreender que apenas uma Europa coesa, politicamente articulada e espiritualmente consciente da sua identidade poderia enfrentar e derrotar os monstros ideológicos que então emergiam — o nazismo e o comunismo. O conde Richard von Coudenhove-Kalergi, seu fundador, sabia que sem essa coesão, o continente seria fragmentado, manipulado e, por fim, subjugado. O tempo deu-lhe razão.
Mas se ontem foi necessário erguer a bandeira de Paneuropa contra a tirania de Hitler ou de Estaline, hoje essa necessidade é ainda mais premente. Não enfrentamos apenas um inimigo externo identificável, mas uma dupla ameaça: por fora, regimes autoritários e revisionistas que, como o de Vladimir Putin e os seus aliados, pretendem redesenhar fronteiras e subjugar povos pela força; e por dentro, uma União Europeia que se tornou incapaz de falar a uma só voz, enredada numa teia de interesses nacionais que desvirtuam qualquer noção de soberania partilhada. A isto soma-se a ameaça transatlântica de uma América que, sob a sombra do trumpismo, já não hesita em abandonar compromissos históricos e em reduzir alianças seculares a meros cálculos eleitorais.
É precisamente neste vazio de liderança e propósito que a herança da Paneuropa adquire sentido renovado. Porque este movimento nunca se limitou a uma arquitetura institucional: ele assenta na convicção de que a Europa é, antes de tudo, uma civilização, um património espiritual e cultural, um ideal que sobreviveu a séculos de guerras, reformas e revoluções, capaz de exportar — como exportou — modelos de direito, de governo, de educação e de ciência que moldaram o mundo moderno. O próprio Winston Churchill, em Zurique, exortou: “Temos de construir uma espécie de Estados Unidos da Europa”. Não o disse por lirismo, mas por pragmatismo visionário.
Reviver a Paneuropa hoje implicaria resgatar objetivos concretos e não apenas slogans. Implicaria criar uma defesa comum que garanta a autonomia estratégica do continente, libertando-o da tutela militar externa. Implicaria aprofundar a coesão económica sem sacrificar a diversidade cultural, fortalecendo as indústrias estratégicas e evitando a dependência de potências rivais. Implicaria, sobretudo, devolver ao projeto europeu a sua dimensão moral: a certeza de que democracia, Estado de Direito e liberdade individual não são meros adornos retóricos, mas compromissos inegociáveis. Sem esta espinha dorsal ética, a Europa não passará de uma feira de interesses, vulnerável a quem souber explorá-los.
Otto von Habsburg, sucessor de Coudenhove-Kalergi, compreendeu como poucos que a unificação europeia não era um fim em si mesma, mas um instrumento para impedir que o continente se tornasse campo de batalha de outros. Sob a sua liderança, o movimento Paneuropeu não só manteve viva a chama da unidade como contribuiu para abrir as portas à liberdade dos povos da Europa Central e Oriental. Hoje, a sua advertência ressoa como profecia: uma Europa que abdique da sua missão histórica não será conquistada apenas por exércitos, mas corroída por dentro, até perder a própria razão de existir.
Se continuarmos a assistir passivamente a esta erosão, a União Europeia transformar-se-á num exercício burocrático irrelevante, incapaz de agir em crises globais, impotente perante a manipulação digital, e reduzida a negociar a sua sobrevivência com ditadores mascarados de estadistas. É preciso, pois, romper o torpor. É preciso — como disse Victor Hugo — “fazer a Europa para evitar a guerra; e fazer a paz para salvar a Europa”. Mas fazer a Europa, agora, é mais do que assinar tratados: é insuflar-lhe espírito, visão, coragem.
O apelo é simples na formulação, mas exigente na execução: reerguer Paneuropa como plataforma de liderança moral e política, onde Estados e cidadãos se reencontrem num projeto que os transcenda, que recupere a confiança perdida, que una pela ambição e não apenas pela necessidade. Se o fizermos, a Europa poderá voltar a ser farol de democracia e dignidade. Se não o fizermos, seremos meros passageiros num continente que se deixa arrastar, lentamente, para o crepúsculo da sua própria História.