Mário Soares foi sempre um homem de esquerda, mas foi um socialista moderado. Quis sempre derrotar a direita nas eleições, mas o seu grande objectivo foi impedir as esquerdas radicais e comunistas de chegarem ao poder. Para Mário Soares, os partidos de direita eram concorrentes; mas os partidos da extrema-esquerda eram uma ameaça ao regime democrático pluralista e pró-europeu. Há uma grande diferença entre competição e ameaça.

O pai da geringonça, António Costa, nunca ignorou o legado de Soares. Fez uma coligação parlamentar com o PCP e com o Bloco para chegar ao governo, mas nunca teve qualquer ilusão sobre esses dois partidos, sobretudo sobre o Bloco. Por isso, para Costa, levar esses partidos para um governo com o PS foi sempre uma linha vermelha e, para compensar a geringonça, fez uma aliança com Marcelo Rebelo de Sousa, o bloco central que na verdade governou Portugal durante oito anos.

PNS acabou com a estratégia de Soares e dos seus sucessores socialistas. PNS é um companheiro de estrada do Bloco. Mais do que alianças de governo com o Bloco, ele quer incluir o Bloco no PS, e fazer dos socialistas um grande bloco das esquerdas (onde estaria também o Livre). PNS partilha muitas ideias com o Bloco. Quer o Estado a controlar a economia (como se viu quando nacionalizou a TAP), é profundamente anti-liberal, é contra as políticas financeiras e monetárias da UE, é distante da NATO (nunca o ouvi defender a Aliança Atlântica), e defende com convicção as ideias woke. Sente-se muito mais à vontade com muitos dirigentes do Bloco do que com os dirigentes mais antigos do PS. Fala muito mais com Daniel Oliveira do que com António Vitorino. O seu pensamento económico é mais próximo de Louçã do que de Pedro Siza Vieira ou até de Centeno.

A escolha de Alexandra Leitão, e não de Mariana Vieira da Silva ou de Siza Vieira, para a candidatura à Câmara de Lisboa mostra a coerência esquerdista de PNS. O Bloco e o Livre farão seguramente parte da coligação de Alexandra Leitão. Há três pontos que os lisboetas podem dar como adquiridos, se Alexandra Leitão chegasse a Presidente da Câmara. Lisboa seria mais pobre, mais insegura e com mais imigração ilegal e descontrolada. Vejam o que se passa por toda a Europa, sempre que as esquerdas radicais chegam ao poder: aumenta a pobreza (e o número de pobres), aumenta a insegurança, diminui a qualidade da democracia, e diminui a coesão e a identidade nacionais.

Alexandra Leitão afirmou há umas semanas: “Em Portugal não há extrema-esquerda.” Quis dizer, o PS faz alianças com os partidos de extrema-esquerda. Aqui está a candidata dos socialistas à Câmara de Lisboa e aqui está o PS de Pedro Nuno Santos. O PCP e o Bloco não mudaram. Foi o PS que mudou. Com a mudança, acabou o PS de Mário Soares, que ajudou a construir a democracia contra os aliados de Pedro Nuno Santos.