Há um silêncio ruidoso que paira sobre a República portuguesa — o som abafado de uma democracia que se habituou a sobreviver mais do que a inspirar. O sistema partidário, nascido para servir o povo, tornou-se um mecanismo de autopreservação. Um organismo que se alimenta de si próprio, indiferente ao talento que o rodeia e hostil ao mérito que o desafia.

Os partidos, outrora veículos de ideias e ideais, transformaram-se em fortalezas de mediocridade institucionalizada. Não por malícia declarada, mas por hábito, por medo, por conforto. A lógica interna passou a ser a da sobrevivência: quem pensa demais é uma ameaça, quem brilha ofusca, quem questiona desestabiliza. Assim, o mérito é filtrado, o talento é moldado e o carácter é diluído — tudo em nome de uma estabilidade que mais se assemelha à paralisia.

Assim, a mediocridade tornou-se a língua oficial do poder. Uma mediocridade que se disfarça de prudência, que chama pragmatismo à covardia e estabilidade à resignação. Mas o mais grave é que essa mediocridade é contagiosa. Os que entram na política com vocação e inteligência depressa percebem que o sistema não os recompensa — adapta-os. E assim, o país perde não só os que ficam de fora, mas também os que se rendem por dentro.

É pela boca da mediocridade que a República se consome: quando o poder deixa de ser um meio para servir e passa a ser um fim em si mesmo. Quando o discurso político se reduz a cálculo e a coragem se torna inconveniente. Quando a inteligência é vista como ameaça e a integridade como ingenuidade.

Neste cenário, o espaço político abriu brechas por onde se infiltram os populismos, como se de um fungo se tratasse. Alimentam-se do desencanto e das cinzas da confiança. Crescem porque o sistema lhes deixou o terreno fértil, húmido e podre — e porque os partidos que se dizem de responsabilidade democrática, em vez de os confrontarem com coragem, tentam domesticá-los com conveniência. PSD e Iniciativa Liberal flertam perigosamente com a retórica e as posições do Chega, acreditando talvez que a proximidade controlada neutraliza o extremismo. Mas é sempre o fogo que queima o aprendiz de incendiário.

Entretanto, a velha dicotomia entre esquerda e direita dissolve-se. Já não há segurança em saber o que significa votar num partido dito social-democrata ou até mesmo liberal — as palavras perderam substância, tornaram-se um rótulo gasto. Os partidos trocam de convicções como se mudassem de slogan, e o campo ideológico converteu-se num palco onde o único objetivo é permanecer de pé. Na extrema-direita, o próprio nome é um grito — Chega! — não uma proposta, mas uma explosão de ressentimento que encontrou eco num país cansado de esperar.

A dita direita, por seu lado, faz da esquerda radical o inimigo perfeito, como se o país estivesse em risco de virar subitamente para o socialismo revolucionário. São dois erros dentro da mesma ilusão. Primeiro, porque a esquerda radical esgotou-se — hoje, resume-se a uma única deputada, sem força nem influência real. Segundo, porque ao apontar o dedo a fantasmas ideológicos, essa direita mascara o seu próprio desvio: um afastamento das suas raízes democráticas e liberais, em direção a um populismo autoritário travestido de responsabilidade.

O que verdadeiramente falta não é mais um partido, nem mais um líder providencial — é a restauração da confiança na democracia. E para isso, é preciso um virar de página. O problema é que a próxima página parece já escrita: depois de feito dos imigrantes o inimigo conveniente, virão outros alvos, sempre novos culpados, sempre o mesmo medo. Porque o medo, hoje, é o novo circo. Alimenta o povo, distrai-o, embriaga-o — e enquanto ele aplaude, a República definha.

O inimigo não é um partido, nem uma ideologia. É a banalização da mediocridade como método de governo, a indiferença perante o talento e a complacência com a mentira. E se há algo que ainda pode salvar a República, será o regresso daqueles que, mesmo cansados, ainda acreditam que Portugal merece mais do que isto.