O próximo ciclo político legislativo em Portugal traz obrigatoriamente alterações ao panorama parlamentar. Se a dúvida maior reside em quem e como se vai formar governo, é necessário olhar para as franjas do Parlamento.

Se na ala esquerda do hemiciclo, (entre mais ou menos deputados) os dois partidos residentes com grupo parlamentar se irão manter, na ala direita crescem as maiores dúvidas.

Iniciativa Liberal (IL) tende a crescer. Criará o seu primeiro grupo parlamentar, continuando a sua muito influente missão de trazer o liberalismo para o debate público e consagrando a ideia de que existe uma alternativa ao socialismo.

Por seu turno, o CDS, histórico partido de índole conservadora, vê-se na situação precária de poder não chegar aos valores que permitam aceder à subvenção estatal. Aqui nasce um problema para o Parlamento português. Um plenário que não conte com o CDS como limite à direita estará a abrir portas a outros partidos, radicais e extremistas de direita. Partidos iliberais cuja índole política atravessa inúmeras linhas vermelhas face ao que se procura nos representantes da nação: moderação, humanismo e liberalismo (político, económico e social). Ainda que não se concorde politicamente com qualquer partido, há que saber distinguir adversário político de perigo político. O CDS será adversário para muitos, mas tem espaço na democracia portuguesa e deve, sob pena de extinção, preservá-lo.

À direita do CDS entram os que não acrescentam à democracia: é gritante a quantidade quase diária de exemplos, onde o partido de direita não-humanista demonstra a sua incapacidade de acrescentar qualquer benefício à sociedade portuguesa. O líder deste partido e a sua equipa sabem que a melhor estratégia não é apresentar soluções. Esse caminho, por norma, requer menos exposição mediática que trabalho político, parlamentar e social capaz de apresentar soluções ou alternativas ao país.

O partido de direita não moderada grita, esbraceja e escreve em Caps Lock, incapaz de apresentar trabalho consolidado. Recorde-se a diferença de abordagens no debate da Flat Tax levado a cabo pela IL, e a mesma medida defendida pelo ex-comentador futebolístico. Os primeiros conseguem defendê-la, explicando o seu modo de implementação, os resultados e as suas consequências. Os segundos – quando tiveram a oportunidade de a explicar – trocaram os pés pelas mãos, revelando a pouquíssima sustentação intelectual das ideias que apresentam.

O que nos leva ao CDS.

Este pode e deve ser o garante de um Parlamento que não resvala para a direita iliberal. A ala do espectro político protagonizada pela ascensão de partidos que recolhem o sentimento populista de “nós contra o sistema”. Partidos cujo modus operandi se sustenta no aproveitamento de alvos fáceis, acolhendo o descontentamento generalizado na sociedade portuguesa.

O CDS é necessário para o debate político. A democracia-cristã e o conservadorismo, embora ultrapassados em diversas questões sociais, encontram ainda casa nos corações de vários portugueses. Vaticinar a morte do partido com base numa alegada ausência de razão de existir, é desconhecer o nosso país. O CDS tem um propósito. Uma missão. Um dever para com os conservadores, democratas-cristãos humanistas. É na sua índole conservadora – e especialmente moderada – que o CDS encontra a sua razão de ser neste momento.

Com uma guerra ao centro – entre sociais e social-democratas – sobrarão franjas que se podem radicalizar. Este é o relevante papel que o CDS deve assumir. Moderar a radicalização da franja da direita parlamentar como primeira prioridade, e oferecer esta solução a uma putativa coligação que faça frente ao sistema socialista, que não prova condições de melhorar a vida a quem escolher Portugal como sua casa.

Bem sabemos que o CDS vive tempos delicados. O combate pela liderança, aliado à saída de algumas individualidades internas, passam a imagem de desorganização do partido e falta de apoio interno que lhes permita encabeçar um combate pela moderação e humanismo no futuro cenário político português.

Não se resignando, deve encontrar neste desafio uma oportunidade. Chegou o momento de se refazerem. De, após duas lideranças que prometeram modernizar o partido, o fazerem de facto. Um novo CDS, melhor, e com prioridades apontadas ao que realmente interessa. Que a luta seja sempre pelo sistema democrático: moderado e humanista.