Não é fácil imaginar o futuro. Estamos tão dentro da realidade que o futuro nos surge como demasiado óbvio, quase que não o podemos imaginar. Entre nós, a relação com o futuro é, geralmente, mediada pelo passado, convertido em “lições da história”, ainda refutamos as mudanças e a descontinuidade histórica, e o futuro quando desponta é utópico.

Portugal ocupa o 98º lugar, entre 141 países, no ranking relacionado com o parâmetro government long term vision (visão para uma governação de longo prazo), que integra o Global Competitiveness Report 2019 do World Economic Forum. A necessidade de introduzir na formulação de políticas públicas nacionais uma visão de longo prazo, que opera para além dos ciclos eleitorais, é evidente e realçada por todos, incluindo pelos próprios protagonistas políticos.

Uma simples reflexão revela-nos que todo o conhecimento que possuímos é sobre o passado, mas que todas as nossas decisões são sobre o futuro, próximo ou distante. Até a matéria-prima essencial do combate político se baseia na propalação das ações ou intenções futuras, que normalmente nos são apresentadas como promessas eleitorais, aplicadas aos programas político-partidários. Logo, o futuro também faz parte do nosso presente.

Ao longo do século XX foi-se desenvolvendo a necessidade de estudar o futuro de modo mais sério, formal e sistemático, numa espécie de jogada de antecipação sobre as consequências das nossas ações coletivas. Surgiu a prospetiva estratégica (strategic foresight) como forma de nomear o futuro, tendendo a desenhar múltiplos futuros que possam contribuir para a prosperidade e o bem-estar das sociedades. A prospetiva estratégica pode ser entendida como um processo aberto e de preferência participativo, trabalhando uma inteligência coletiva, que permite construir visões futuras de médio a longo prazo, identificando oportunidades e desafios, visando contribuir com inovação social na formulação das políticas públicas.

As ferramentas analíticas da prospetiva estratégica permitem abordar, identificar e compreender essas oportunidades e desafios futuros enquanto megatendências, que são mudanças significativas nos ecossistemas geo-político, socioeconómico e ambiental (ecológico), com impactos nas nossas vidas nas próximas décadas.

Ao analisarmos a realidade visando antecipar os futuros, uma das tarefas principais será detetar e identificar as forças de mudança. Será, assim, importante perceber quais os desafios que se colocam à humanidade no curto a longo prazo e como os endereçar, cientes que estes desafios são complexos, sistémicos e estão interligados.

As megatendências são desafios imediatos totalmente diferentes e muito distantes daquelas forças que dominaram e moldaram a evolução das sociedades no passado. As megatendências começam agora a produzir os seus efeitos nas sociedades e a projetar-nos para o que está para vir, fazendo-nos sentir que não podemos perder a oportunidade.

A par destas mudanças surgem a incerteza e a preocupação, porque ninguém vive num ambiente imune ao inesperado e ao improvável. Novamente, a prospetiva oferece-nos as ferramentas para procurar e detetar a novidade no presente e explorar a incerteza como ativo e recurso psicossocial, num mundo em permanente mudança. Assim, estudar os futuros é uma forma de dialogar com mundos geográficos distantes e vizinhos, tecnológicos e antropocêntricos, irreais e concretos.

Pensar sobre o futuro também exige uma consciência pessoal sobre a mudança. Todos nos podemos sentir afetados pela expectativa de antecipação da mudança, da transformação das nossas vidas, mesmo nas tarefas e deambulações do quotidiano. O exercício da cidadania é mais afetado, do que julgamos, por raciocínios e especulações sobre o nosso futuro individual e coletivo.

Razão pela qual, também no plano pessoal a prospetiva estratégica pode dar-nos o seu contributo, ao narrar o futuro de modo a evitar uma vivência em permanente sobressalto psico-temporal, pois tal estado mental provoca a instabilidade emocional, levando ao entendimento da história e dos acontecimentos do presente, de modo inabitual e demasiado pessoal, chegando a gerar o medo existencial. Portanto, sem as habituais advertências, o futuro interessa e toca a todos.

A prospetiva estratégica ou os estudos sobre os futuros encontram-se na ordem do dia. Em anos recentes despontaram, por todo o mundo, diversas programas e áreas de prospetiva nos sectores público e privado. Organizações internacionais como a UNESCO e a OCDE tem dedicado parte dos seus recursos à capacitação de redes governamentais que visam a investigação e compreensão do futuro e a sua aplicação no domínio das políticas públicas. No âmbito da União Europeia, os métodos da prospetiva estratégica já fazem parte da formulação de novas políticas comunitárias. Em 2014, a Suécia tornou-se no primeiro país do mundo a nomear uma Ministra com as pastas da Estratégia e do Futuro. Nos Emirados Árabes Unidos foi criado o Ministério da Presidência do Conselho de Ministros e do Futuro e na Finlândia a práxis da prospetiva estratégica integra o Gabinete do Primeiro-ministro. Por fim, ao rol de exemplos institucionais, acrescente-se que, em 2015 o Parlamento do País de Gales foi pioneiro na aprovação de uma lei “sobre o bem-estar das futuras gerações”.

Apesar das experiências anteriores, o exercício da prospetiva estratégica ainda não vingou no seio da Administração Pública Portuguesa. Seria importante criar uma área de prospetiva que ajudasse o “centro do governo” a desenvolver as melhores estratégias para o país, acompanhando as boas práticas internacionais na formulação de políticas públicas para o século XXI.

Não se trata de desenvolver práticas administrativas que representam novos patamares de burocracia ou práticas que se assemelhem ao desenvolvido por alguns estados de segurança nacional, como é o caso de Singapura, Suíça, Ruanda, ou até mesmo, nalgumas situações os EUA, onde as máquinas administrativas quase que operam uma “economia de guerra” como desígnio nacional. Também não é propósito vigiar ou controlar a ação governativa, pois tal incumbência cabe aos cidadãos.

O que a prospetiva estratégica pretende é adicionar ou propor ferramentas críticas e analíticas para ajudar no conhecimento da cidadania e das realidades nacional e internacional, tentando responder hoje àquelas perguntas que nos parecem difíceis e que amanhã nos surgirão como óbvias.

Estudamos o futuro não como ciência da certeza, mas para pesquisar, descrever e expandir os nossos horizontes, bem como explorar as múltiplas possibilidades que, nem sequer imaginamos, temos para escolher e agir. Vale a pena refletir sobre o futuro, quanto mais não seja, para não o temermos, e havermos a ambição de imaginar um futuro positivo e otimista.