A política foi, em tempos, uma vocação nobre. Ser político era sinónimo de serviço público, de entrega à causa comum, de sacrifício pessoal em nome do bem colectivo. A praça pública tinha figuras respeitadas, homens e mulheres de mérito, cuja reputação, experiência e autoridade moral impunha naturalmente respeito. Hoje, o cenário é bem diferente. Muitos perguntam, com razão: onde estão os melhores? Porque é que os mais competentes, os mais preparados, os mais íntegros, escolhem ficar à margem da vida política?
A resposta não é simples, mas algumas razões destacam-se de forma clara: remunerações pouco atrativas, exposição pública tóxica, desgaste pessoal e familiar, e a inevitável pausa ou desvio na carreira profissional. Importa sublinhar que estas razões não actuam isoladamente é a sua conjugação que torna o caminho político tão pouco apelativo para quem poderia verdadeiramente elevar o nível da governação.
Para tornar esta reflexão mais concreta e sustentada, vejamos alguns números. Em Portugal, o salário líquido mensal de um presidente de câmara municipal ronda, em média, os 2.500 a 3.000 euros, dependendo da dimensão do município. Este valor já contempla os descontos legais e pode variar ligeiramente consoante outros fatores como a participação em órgãos externos ou ajudas de custo. Por contraste, um manager numa grande empresa, com funções de direção e responsabilidades comparáveis, aufere frequentemente entre 4.000 a 6.000 euros líquidos mensais, ou até mais, dependendo do setor e da experiência acumulada. Além disso, beneficia geralmente de um conjunto de regalias adicionais — viatura, seguro de saúde, prémios de desempenho, entre outros — que raramente estão disponíveis no setor público.
Esta disparidade salarial é reveladora. Um presidente de câmara, eleito para servir o bem comum, com uma responsabilidade direta sobre milhões de euros em orçamento, centenas de trabalhadores, decisões com impacto profundo na vida das populações, recebe menos do que um gestor médio numa estrutura privada. Este desequilíbrio não só desvaloriza a função pública, como contribui para que, muitas vezes, se atraia para a política apenas quem não tem uma alternativa profissional mais promissora, empobrecendo assim a qualidade da representação democrática.
Depois, há o fenómeno da exposição pública. Vivemos tempos de julgamento permanente. As redes sociais, os novos meios de comunicação e o ambiente de desconfiança generalizada tornam cada passo do político alvo de escrutínio — muitas vezes injusto e mal-intencionado. Os insultos, as campanhas de difamação, os ataques pessoais tornaram-se uma constante. Já não se debate com argumentos: ataca-se com insinuações. Já não se respeita a diferença: explora-se a vulnerabilidade. Houve um tempo em que o confronto político se fazia com elevação, com respeito pelas regras do debate democrático. Hoje, reina a agressividade, e os mais ponderados e íntegros afastam-se naturalmente deste ambiente tóxico. Quem construiu a sua vida com esforço e mérito não está disposto a sujeitar-se ao achincalhamento gratuito.
A vida pessoal e familiar também sofre um impacto profundo. A política é, hoje, uma atividade sem horários. Quem a exerce com seriedade sabe que o serviço não termina ao fim do dia, continua à noite, ao fim de semana, nas ruas, nas reuniões, nas mensagens constantes. É um compromisso permanente. Ora, num tempo em que se valoriza, e bem, o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, é natural que muitos optem por preservar a sua privacidade, o seu tempo com a família, o seu direito a uma vida normal. Vários testemunhos de políticos que deixaram a vida pública apontam precisamente o desgaste familiar como um dos principais motivos. A política exige tudo e nem sempre devolve o justo reconhecimento.
Por fim, a carreira profissional. Entrar na política implica, quase sempre, colocar em pausa ou abdicar da carreira que se vinha a construir. E quando se sai da política, o regresso nem sempre é fácil. A experiência política, por mais rica que seja, é muitas vezes vista com desconfiança pelas empresas. O estigma da “classe política” tornou-se um peso. Ora, para quem estudou, trabalhou, construiu uma reputação numa determinada área, este risco é demasiado elevado. A política, infelizmente, ainda não consegue ser um caminho de ida e volta, como acontece noutros países onde o serviço público é valorizado e respeitado — como os Estados Unidos, onde a passagem pela política é muitas vezes um selo de prestígio, ou alguns países nórdicos, onde a rotação entre funções públicas e privadas é encarada com naturalidade.
Perante tudo isto, não surpreende que muitos dos melhores escolham não se envolver. Que optem por servir a sociedade de outras formas: através da empresa, da academia, do associativismo. Mas a política precisa deles. O país precisa deles. Sem gente competente, séria, com valores e visão de longo prazo, a democracia enfraquece. E é precisamente por isso que importa repensar as condições do exercício da política em Portugal.
É urgente valorizar quem se entrega à causa pública. Não com privilégios, mas com respeito. Com estabilidade, com segurança, com reconhecimento. É preciso restaurar a dignidade da política, para que os melhores deixem de ver nela uma ameaça e a vejam novamente como uma missão.
A política deve ser exigente, sim. Mas não deve ser ingrata. Deve chamar os melhores, não afugentá-los. O futuro do país depende da coragem com que hoje valorizamos quem o serve.