Num clube de futebol os resultados financeiros e a excelência de gestão não são fins em si mesmos. Já fiz muitas figuras tristes a celebrar vitórias do meu Benfica (os meus filhos que o digam), mas nunca me passou pela cabeça ir para o Marquês festejar um relatório e contas.
Dito isto, é preciso ser um observador muito distraído para não perceber que capacidade de gestão e sustentabilidade financeira são, cada vez mais, condições imprescindíveis para alicerçar sucessos desportivos.
O mundo mudou. Por toda a Europa o mundo do futebol sofisticou-se e profissionalizou-se. A sociedade mudou. E mudou, neste particular, para bem melhor. Está felizmente a acabar-se a tolerância para um mundo sórdido do futebol, encarado como a última fronteira onde vale tudo na dimensão ética. Já não vivemos nos anos 80.
Os rivais do Benfica já o perceberam e já começaram a mudar de paradigma. Mas a triste realidade é que o Benfica teima em não conseguir fazer coincidir profissionalização com transparência e rigor ético. E é neste contexto que me parece imprescindível que mudemos de rumo. É neste contexto que me parece imperdoável que deixemos escapar a oportunidade que temos pela frente.
Apoiei a candidatura de João Noronha Lopes em 2020 quando ousou enfrentar, com enorme coragem, o poder instalado no Benfica de Vieira. Não era fácil. Não foi fácil. Eu vi. Mas o João esteve lá, deu a cara e deu o corpo às balas. Neste ano de 2025, se dúvidas houvesse, voltou a dar provas do seu carácter. Foi vítima de uma campanha infame e suja que se desejaria já impossível e que, mais do que qualquer outra coisa, veio demonstrar a necessidade premente de uma mudança. O terreno em que se fazem as disputas democráticas no Benfica não pode continuar a ser este lugar infrequentável. Mas a tudo o João voltou a responder com coragem e elevação. Sujeitou-se a um escrutínio a que poucos aceitariam sujeitar-se. Aceitou, numa decisão que só pode ter sido muito dura e difícil, expor a família. Para que não restassem dúvidas sobre o que o move nesta disputa.
Mas se, como fica demonstrado, o carácter não mudou, vale a pena registar uma significativa mudança em relação a 2020. Desde que decidiu recandidatar-se o João encarou a tarefa com uma seriedade e um profissionalismo que impressionam. Há largos meses que trabalha no projeto que quer ver implementado no seu clube de sempre. Tenho sido testemunha disso. Bem antes da época terminar, quando ainda todos sonhávamos com a possibilidade de esta acabar em glória, já o João, que sempre recusou tacticismos, trabalhava rodeado de boa parte da equipa que foi capaz de reunir.
E é precisamente à equipa que vale a pena dedicar umas últimas linhas. Sem qualquer desrespeito para os muitos benfiquistas que, ao longo dos anos, deram o seu melhor ao serviço do clube, julgo poder afirmar, sem quaisquer dúvidas, que Noronha Lopes conseguiu agregar à sua volta o melhor conjunto de profissionais que alguma vez se candidatou aos órgãos sociais do Clube. Sei do que falo. Trabalhei com vários. Acompanhei o percurso de muitos. Sou amigo de outros tantos. De Bagão Félix a José Theotónio, de Raquel Vaz Pinto a Luís Pedro Duarte, de Gonçalo Almeida Ribeiro a José Nogueira de Brito, de João Moreira Rato a Mário Vaz, convenhamos que a lista impressiona. Mas impressiona ainda mais que Noronha Lopes tenha sido capaz de juntá-la, de agregar a sua volta tantos profissionais que não precisam do clube para afirmar carreiras mais do que consolidadas e que, pelo contrário, não deixam de assumir riscos ao aceitar trabalhar num meio que não é ainda, infelizmente, o mundo da lisura, da civilidade e da elevação.
É esta oportunidade histórica e provavelmente irrepetível que vamos desaproveitar?