O Instituto Nacional de Estatística projeta que Portugal perderá 2,4 milhões de habitantes até ao final do século. É um cenário que exige priorização política e coordenação entre Estado central, autarquias, setor privado e sociedade civil. Para quem trabalha diariamente no setor imobiliário, esta realidade não é apenas uma estatística: é uma antecâmara do que pode acontecer às nossas cidades, ao emprego, às finanças locais e à coesão territorial se não agirmos já.

O presente já mostra esse futuro. Lisboa e Porto tornaram-se quase inacessíveis para quem nelas trabalha, enquanto o interior continua a esvaziar-se. As soluções políticas de curto prazo – tetos de renda avulsos, moratórias de licenciamento, medidas dispersas – falharam o alvo. Se nada mudar, chegaremos a 2100 com menos pessoas, menor vitalidade económica, menos investimento e cidades mais envelhecidas, dependentes e caras para viver.

Mas a demografia não dita o destino. Podemos transformar esta previsão em oportunidades se tivermos a coragem de repensar o território e planear de forma estratégica, com uma visão policêntrica. Lisboa e Porto devem assumir-se como hubs globais de inovação e cultura, mas não podem ser os únicos. O reequilíbrio joga-se nas cidades médias. Braga, Aveiro, Coimbra, Évora ou Faro têm condições para fixar jovens, atrair talento internacional e equilibrar o país, se conjugarmos três vetores: investimento em habitação acessível, mobilidade ferroviária de alta frequência e ecossistemas de conhecimento alicerçados na ligação entre as universidades e o tecido empresarial. Funchal e Ponta Delgada também não podem ser vistos como periferia: são plataformas atlânticas que já atraem nómadas digitais, turismo residencial e investimento. Melhorar as ligações aéreas e digitais e reforçar o investimento em habitação ajudarão a fixar população e diversificar a economia.

A tecnologia é a outra alavanca. Em poucas décadas, transportes aéreos urbanos, veículos autónomos e bairros inteligentes deixarão de ser ficção científica. As cidades que se preparem para esta revolução, com sistemas urbanos baseados em dados, energia limpa e mobilidade partilhada, estarão na linha da frente. Portugal tem todas as condições para ser pioneiro, falta a visão e o planeamento para transformar projetos piloto numa estratégia nacional com metas claras.

Há, contudo, uma condição de base: transparência no mercado imobiliário. A ausência de dados claros sobre transações, arrendamento e licenciamento continua a alimentar a especulação e a incerteza. Precisamos de um sistema nacional integrado, que permita alinhar políticas públicas com a realidade das famílias e dar confiança ao investimento privado. Sem informação transparente, não conseguiremos construir um mercado saudável, nem cidades equilibradas.

Portugal poderá ter menos pessoas em 2100, mas pode, e deve, ter cidades melhores: policêntricas, tecnológicas, sustentáveis e transparentes. O debate não é sobre desistir do interior ou travar as metrópoles, é sobre ligar o país com oportunidades comparáveis. O que está em causa não é apenas a quantidade de população, mas a qualidade das nossas escolhas. E essas escolhas têm de começar hoje.