Com a habitual sobriedade técnica, o mais recente relatório da OCDE traça o perfil da economia portuguesa com uma precisão difícil de ignorar: estabilidade cíclica, recuperação moderada, risco estrutural. O crescimento previsto para 2025 e 2026 situa-se nos 1,9 % — aceitável, mas insuficiente. O consumo privado sustenta a dinâmica, os fundos do PRR alimentam a ilusão de transformação, e o mercado de trabalho mantém-se funcional, embora vulnerável. A inflação tende para a normalização. A dívida pública recua para níveis abaixo dos 90 % do PIB.

O documento em causa é o capítulo dedicado a Portugal no relatório OECD Economic Outlook – Volume 2025 Issue 1, publicado em junho pela Direção de Economia da OCDE, como parte da análise semestral das trajetórias macroeconómicas dos seus Estados-membros. Com base em dados nacionais, modelos econométricos e consulta técnica às autoridades portuguesas, o relatório combina projeções atualizadas com recomendações de política pública orientadas para a produtividade, o investimento e a estabilidade orçamental.

Até aqui, um cenário administrável. Mas é a leitura de fundo que deve preocupar: a produtividade continua estagnada, a escassez de mão-de-obra qualificada persiste, a complexidade burocrática não foi resolvida, e a fiscalidade continua sem reestruturação. A OCDE não se limita a apresentar projeções, expõe uma vez mais, o bloqueio estrutural que inibe a competitividade e a capacidade de convergência da economia portuguesa.

As recomendações são conhecidas. Remover barreiras nos serviços profissionais. Alargar o financiamento às PME. Reforçar as competências digitais e técnicas. Rever a fiscalidade do trabalho e do capital. Executar o investimento público com rigor, e sobretudo, institucionalizar mecanismos permanentes de revisão da despesa. Nenhuma destas propostas é nova. Estavam no Economic Survey de 2019, voltaram em 2023 e repetem-se em 2025. A OCDE reformula, o governo toma nota, e o país permanece imóvel.

O que separa Portugal dos países que reformam não é o diagnóstico, é a execução. Os dados são públicos, os objetivos estão definidos, os fundos existem. Falta governação. Falta capacidade de articulação entre ministérios. Falta disciplina de execução. Falta responsabilização administrativa. Falta um Estado que funcione como plataforma de transformação e não como gestor de rotinas.

A OCDE identifica riscos concretos: atrasos na execução do PRR, dependência externa, envelhecimento populacional, baixa complexidade económica. Estes riscos não são meteoros inesperados. São consequências previsíveis de uma economia gerida em modo reativo, sem comando estratégico nem ambição reformista. O risco real é o prolongamento de um modelo assente na gestão da estabilidade e na absorção de fundos, sem autonomia transformadora.

Portugal continuará a crescer devagar, a convergir pouco e a depender de instrumentos externos que não controla enquanto persistir este défice de execução política. O relatório da OCDE é mais do que um exercício técnico: é um diagnóstico reiterado sobre a incapacidade do Estado em transformar recursos em resultados. A política económica não falha por ignorância, mas por inércia institucional, fragmentação decisória e ausência de liderança orientada para o desempenho.

Governar exige mais do que anunciar reformas. Exige executá-las com consistência, prioridade e responsabilidade. O que está em causa não é apenas crescimento é a aptidão do país para se governar a si próprio.