Fico surpreendido que ainda ninguém tenha lançado este slogan, perante certas declarações recentes sobre o problema da habitação em Portugal. Numa era de soundbites e likes fáceis, é tentador produzir takes rápidos para redes sociais ou reportagens sensacionalistas, especialmente quando o tema é tão sensível como o acesso à habitação. Mas importa não esquecer: o populismo, seja de esquerda ou de direita, nunca construiu casas — só empurrou problemas para o futuro. E, acima de tudo, importa contar toda a história e não apenas o recorte que dá jeito.

Ainda sou do tempo (porque cresci também num) dos bairros de génese ilegal, nas décadas de 70 e 80. Cresceram sem planeamento, sem saneamento e sem acessos, fruto da necessidade e do abandono do Estado. Esses bairros foram um desafio enorme para o país, que o governo de Cavaco Silva procurou enfrentar com programas de legalização e requalificação. Foi um processo duro, muitas vezes injusto para quem lutava por uma vida digna, mas necessário para evitar o caos urbanístico e social. Muitos destes bairros foram regularizados graças à iniciativa dos próprios moradores, das autarquias e das associações locais, e outros, sem condições de segurança ou impacto ambiental grave, tiveram de ser desmantelados, tal como sucedeu, com toda a controvérsia, com as demolições lideradas pelo então secretário de estado do ambiente Carlos Pimenta. Hoje, muitos dos que criticavam essas ações visitam esses espaços naturais (Arrábida ou Ria Formosa, por exemplo, como património protegido, esquecendo-se do preço que se pagou para lá chegar.

A história, e sobretudo a história social, não pode ser lida sem contexto. Nos anos 60 e 70, os portugueses foram forçados a viver em bidonvilles nos arredores de Paris, uma realidade de migração forçada e pobreza que devemos lembrar para não repetir. É por isso que não podemos aceitar soluções que “nivelam por baixo” ou fazem parecer que regressar à construção ilegal e ao desordenamento urbano seja uma resposta para a crise da habitação. Não é. Esse caminho traria novamente bairros sem condições, comunidades marginalizadas e problemas estruturais profundos. Em vez de avançarmos para a dignidade da habitação, recuaríamos para a precariedade e a desresponsabilização.

Como então enfrentar este desafio? Não com medidas avulsas ou políticas de curto prazo. Mas com uma estratégia integrada: fomentar a construção de habitação (com verdadeiro planeamento e ordenamento), investir em mobilidade e transportes que aproximem as pessoas dos seus centros de emprego, regular melhor o mercado laboral, apoiar políticas sérias de integração de quem escolhe Portugal para viver e trabalhar. Ou seja, com políticas pensadas para a coesão social e não para o soundbyte. Com políticas que reflitam o equilíbrio entre a liberdade individual, a justiça social e a responsabilidade pública.

E é por isso que importa valorizar os autarcas e líderes que têm a coragem de defender esta visão, mesmo quando isso não é popular. Pessoas como Ricardo Leão, em Loures que, sem ser do meu espaço político, reconheço como alguém que entende o território, as necessidades reais das populações e o que significa governar um município com responsabilidade, não para a manchete de hoje, mas para a qualidade de vida de amanhã.

Quero um país ordenado, com justiça social, capaz de promover o mérito e ambicionar mais para si e para os seus. Quero um país que se preocupa com a dignidade das pessoas e o futuro das suas comunidades, e não um país de Bidonvilles à mercê do populismo fácil. Porque a responsabilidade social não se constrói com paliativos, mas com visão, verdade e coragem política.