Putin é o agressor. A Rússia invadiu a Ucrânia numa guerra de conquista e destruição, disposta a massacrar sem limites para subjugar um povo inteiro. Esta guerra não é apenas um ataque brutal contra um estado soberano, ou contra os princípios democráticos e liberais que sustentam a ordem internacional — é uma declaração de guerra da brutalidade contra a decência.

Outra vez. Durante décadas, a Europa observou Putin a crescer como ameaça existencial e pouco fez para contrariá-lo. Quando a Rússia cortou o gás à Ucrânia em 2006, invadiu a Geórgia em 2008 e anexou a Crimeia em 2014, a resposta da Europa foi coerente: indignação veemente, sanções ineficazes, retorno ao “business as usual”. Pior, desafio após desafio, a Europa aprofundou a sua dependência energética, alimentando o Kremlin e financiando, na prática, a sua máquina de desestabilização, intimidação, e guerra.

De disputas fronteiriças para anexações regionais para tentativas de conquista, a guerra chegou às nossas fronteiras, e a Europa, mais do que avisada, não estava preparada.

Mesmo vivendo na vizinhança de um adversário imperialista que durante décadas declarou querer derrotar o Oeste, a Europa acomodou-se à proteção norte-americana, confiando que a NATO, financiada principalmente pelos EUA, garantiria sua segurança sem necessidade de esforços próprios substanciais. Esse tempo terminou. A administração Trump abandonou seus compromissos de defesa do Ocidente. Podemos indignar-nos com este reles descartar de responsabilidades, mas a realidade é incontornável: a Europa já não pode depender dos EUA para sua defesa. A NATO continuará a ser crucial, mas a ausência de liderança americana compromete a sua capacidade de resposta. A Europa agora deve preparar-se para agir, com ou sem Washington.

A Europa fala em finalmente reforçar a sua própria capacidade militar. Mas para quê? Para garantir sua própria segurança, essencial à sua sobrevivência a médio prazo, ou para proporcionar já à Ucrânia os meios necessários para resistir heroicamente? É tempo de escolher e agir.

Mas antes de escolher e agir, a Europa não resiste em primeiro esgotar penosamente todos os expedientes protelatórios. Na semana passada, nas Nações Unidas, países europeus insistiram numa resolução de força, que sabiam que a Rússia inevitavelmente vetaria no Conselho de Segurança. Esta semana foram anunciados grandes investimentos a nível da União Europeia, que enfrentarão dificuldades no Conselho Europeu. Devem seguir-se outras galantes iniciativas destinadas à ineficiência ou insucesso. Ora, estes gestos marcam agenda política, desenvolvem narrativas, separam águas, mas são simbólicos – não salvam vidas.

A guerra na Ucrânia arrasta-se para um de vários desfechos previsíveis. O único que garante a segurança europeia é a expulsão total da Rússia de solo ucraniano – mas isso exigiria um esforço militar que a Europa não está disposta a assumir. No extremo oposto, a conquista total da Ucrânia por Moscovo continua improvável, mas não impossível, sobretudo se falhar o apoio ocidental. O cenário mais provável é uma guerra prolongada, que permitirá ao Kremlin consolidar ganhos territoriais, conduzindo inevitavelmente a um cessar-fogo instável ou a uma paz negociada que legitimaria a conquista pela força.

A Europa precisa de clareza estratégica. Que desfechos a Europa deve ambicionar para garantir a sua segurança e a da Ucrânia? Que meios são necessários para alterar o rumo da guerra? Que investimentos são necessários? Como mobilizar apoio político e público? O que é preciso para vencer?

Sem colocar tropas no terreno, os países europeus ainda têm muita margem para agir a montante. Devem fornecer os meios necessários para inverter a dinâmica do conflito. Isso significa fornecer artilharia de longo alcance, munições guiadas de precisão, defesas antiaéreas reforçadas e drones industriais para desmantelar as vantagens russas. A logística pode ser acelerada com centros de reparação na Polónia e Roménia, stockagem de peças sobressalentes e munições e um fluxo contínuo de combustível militar. A superioridade tecnológica pode ser explorada através do fornecimento de inteligência em tempo real, guerra eletrónica ofensiva e ataques cibernéticos direcionados contra a infraestrutura militar russa. A disrupção das cadeias logísticas russas, incluindo reabastecimento e infraestruturas de transporte, pode degradar significativamente a capacidade ofensiva do Kremlin. Para limitar a capacidade ofensiva russa, pode-se reforçar a defesa de infraestruturas estratégicas ucranianas e fornecer armas de ataque profundo para atingir alvos decisivos.

Garantir a segurança europeia exige mais do que vencer no campo de batalha. É crucial adotar uma estratégia de estabilização pós-guerra que assegure segurança duradoura e integre a Ucrânia na economia europeia. A reconstrução deve fortalecer as instituições democráticas, responder a situações sociais dramáticas, modernizar infraestruturas, mobilizar investimento privado e inovação, e impulsionar o crescimento económico, reposicionar a Ucrânia como um polo estratégico na Europa.

A estratégia europeia deve desmantelar deliberadamente as alavancas estratégicas de Putin, para garantir que não volte a ameaçar a Europa. Eliminar a dependência do gás russo provavelmente exigirá um compromisso firme com a energia nuclear, integrando-a nos nossos objectivos de sustentabilidade ambiental. Os canais de financiamento de Putin devem ser cortados com sanções implacáveis aos interesses económicos controlados pelo Kremlin, poços de corrupção fora e dentro do espaço europeu. A Europa deve apostar na transparência e qualidade democrática para desarmar os populismos putinistas que exploram ineficiências institucionais, fomentam a desconfiança pública, e a discórdia social. O combate ideológico pela paz e democracia faz-se com liberdade, debate aberto e processos políticos sólidos.

Qualquer que seja o caminho escolhido, há limites que não podem ser ultrapassados. Na oposição ao autoritarismo não podemos perder de vista aquilo por que lutamos: paz, liberdade, democracia e prosperidade.

A resposta europeia deve garantir que a guerra não se torna um pretexto para desfigurar o projeto europeu, afastar o poder político dos cidadãos, expandir o controlo da burocracia política sobre a economia e a sociedade – algo assustadoramente fácil em tempos de crise e guerra.

A Europa já dispõe da maior parte dos meios necessários para responder de imediato às urgências da guerra na Ucrânia. Os Estados podem intervir de forma independente, através de iniciativas intergovernamentais ou em parceria com aliados estratégicos externos, como o Reino Unido. Dentro da UE, existem mecanismos que garantem flexibilidade, sem necessidade de unanimidade entre os 27 Estados-Membros. O projeto europeu sempre evoluiu através de iniciativas pioneiras, organizações sobrepostas, integração gradual. Haja coragem e liderança.

A médio prazo, a segurança europeia exige não apenas o reforço da capacidade militar. É necessário desenvolver um mercado único de defesa, assente em investigação, inovação e produção industrial, com envolvimento do setor privado e fortes garantias contra corrupção e desperdício. Esse mercado deve ser complementado por parcerias estratégicas que reduzam vulnerabilidades e garantam que a Europa não depende de terceiros autoritários para armamento, tecnologia ou matérias-primas estratégicas.

Neste processo, a segurança europeia pode ser assegurada através de cooperação flexível e pragmática. É possível agir sem unanimismos paralisantes, sem federalismos artificiais e sem integrações apressadas que exponham as instituições europeias ao oportunismo populista. Mais do que responder à crise, temos a oportunidade de sair dela mais resilientes.

Se Putin aposta na fragilidade e no declínio do Ocidente, o nosso triunfo será construir uma Europa mais livre, mais segura, mais forte, onde a prosperidade e a democracia prevalecem sobre o autoritarismo. A liberdade nunca será vencida – desde que aqueles que acreditam nela tenham a coragem de defendê-la.