Passos Coelho voltou a anunciar que entregará ao Governo um pacote de medidas essenciais para pôr Portugal para a frente.

Estas medidas serão, previsivelmente, rejeitadas. Não só pelo Governo, como por toda a classe política. Depois de alguma comoção, serão engavetadas, e esquecidas. Certamente por todo um conjunto de razões políticas. Mas também pelo anti-intelectualismo primário instalado na política portuguesa.

Em Portugal, como um pouco por todo o lado, falar de intelectuais provoca alguma repulsa.

Durante boa parte do século XX, os intelectuais políticos foram fundamentais para marcar a agenda filosófica, inspirar movimentos, orientar governantes. Mas logo muitos sacrificaram a independência intelectual, em troca de poder e influência, para serem sustentáculo de revoluções e regimes, à esquerda e à direita, e teses absurdas.

À medida que a política tendeu para um centrão morno, os intelectuais perderam brilho. Deixaram de ser produtores de munição para os grandes debates, e os grandes debates deixaram de existir. Muitos que ficaram aburguesaram-se, tornaram-se intelectuais da corte. Deixaram de abrir caminho, passaram a comentar em segunda mão, e a agradar à “situação”.

E hoje em dia não só são desconsiderados os intelectuais, como todo o intelectualismo.

A culpa começa por ser dos intelectuais – muitos fizeram gala de ser insuportavelmente arrogantes ou pedantes. Também porque não souberam reinventar-se e, num mundo mais imediato, onde não se discutem abstracções, muitos parecem – ou são – uns alucinados desligados da realidade.

Mas também por dinâmicas de poder. Na economia da atenção, intelectuais roubam protagonismo – e influência, e poder – aos políticos. Pior, quem pensa fora da caixa, por definição, está desalinhado. Quem quer que fale de visão, de reflexão, de estratégia, de disciplina, de método, de critério, de noção, de correr riscos – daquilo que podíamos estar a fazer, de alarme pelo que possa estar a correr mal – está a perturbar o status quo.

Está a desafiar o sustento de um sistema que se ergueu a desconsiderar a curiosidade, a criatividade, a competência, a coragem – e sobretudo a crítica construtiva. As propostas pontuais são, em regra, imediatamente descartadas. Abordagens integrais, como programas de reformas ou medidas essenciais, são ameaças existenciais. Tudo a ser diabolizado e erradicado.

Há toda uma brutalidade neste processo, que começa pela rejeição das “ideologias”. As ideologias certamente não são receitas cegas, mas devem informar a cultura, a política, as políticas públicas. Rejeitar ideologias, como um todo, é rejeitar que possa haver disciplina para perceber e melhorar o mundo. E, pelo caminho, desconsiderar conhecimento, saber, experiência, técnica – competência.

Com a queda de relevância de pensadores independentes, perdeu-se quem pense como ver a realidade, a natureza humana, e o poder, liberto de subserviências para com o status quo político. Perdeu-se quem conheça a história e a use para avisar. Perdeu-se quem olhe para o futuro e identifique tendências, riscos e complexidades antes de se materializarem. E perdeu-se quem pense, com rigor, sistémica e sistematicamente, os problemas das pessoas.

Sem quem eleve o debate político, a política só pode ser rasteira. Deixa de ver adiante no tempo, mais longe, com maior detalhe. Foca-se no rolo compressor da actualidade, na gestão do dia, na espuma dos dias. A política passa a ser só isto. E é isto que os agentes políticos fazem por preservar, porque é daqui que vem o seu poder e a sua influência.

Agora, preparar – o país, o governo, o partido – para superar problemas presentes e cenários futuros, muito desagradáveis, obriga, antes de tudo, a admitir que a situação actual pode não ser a mais auspiciosa, e a investir capital político na sua mudança. Tudo muito arriscado.

Ora, na política, a primeira regra é não incorrer em riscos. Mesmo no que tem de ser feito.

E o que não tem risco? Não concretizar visão, não admitir inadequações, não se comprometer com estratégia, não investir em produção, não responder por resultados, não explorar, aprender, falhar, superar, crescer. Em vez de coragem, bazófia. Em vez de trabalho transformador, tecnocracia, gestão, proclamações passageiras e vazias. Em vez de músculo e merecimento, a força das convicções – e outras banalidades.

Isto é receita para a inconsequência.

Melhorar o mundo deixa de ser um fim, um imperativo – para ser um slogan, a ser gasto até à irrelevância.

Este sistema de incentivos é hostil à superação e à excelência. Determina – por uma selecção natural perversa – as ideias, a comunicação, as acções, as pessoas, e os comportamentos.

É assim que acabamos com uma política sem elevação, sem norte, sem noção, sem brilho, sem inspiração. E é por isto que andamos no pão e circo, numa sucessão de casinhos, quando os problemas do país – competitividade, salários, custo de vida, habitação, saúde – continuam por resolver.

Quando quem gere as ideias são os brokers do poder e da influência, boa sorte a defender a nossa democracia liberal – a liberdade, o Estado de direito, a solidariedade, a comunidade, a ética pública, a responsabilidade, valores partilhados, a coesão social, um sentido de propósito comum.

Temos de recuperar a tradição de curiosidade e criatividade intelectual.

Passos Coelho parece não desistir, querer investir contra este triste estado de coisas. Ele, que se descreve como “executivo”, aceita correr algum risco intelectual, e reclamar algum protagonismo na produção de ideias consequentes.

Outros movimentos, tanto no centro-esquerda como na direita populista, parecem desafiar o marasmo da produção partidária. Aproximam-se tempos complicados. As ideias que estiverem trabalhadas serão aquelas que estarão em cima da mesa.