Crescemos a ouvir que a alimentação é um dos pilares do desenvolvimento físico e psíquico. Hoje sabemos que ela influencia também o rendimento escolar, a concentração, o foco e o bem-estar emocional. No entanto, para muitas crianças e jovens, a cantina escolar é um local de frustração, do qual diariamente fogem. Ouvir expressões como “a comida sabe mal”, “está fria” ou “tem mau aspeto e não dá vontade de comer” tornou-se uma rotina diária.
A situação agrava-se quando se observam problemas de higiene e degradação dos alimentos, sendo esta uma realidade inaceitável num país cuja gastronomia é considerada património cultural. A alimentação, a saúde e o bem-estar das crianças não podem ser encarados como um negócio ou como um “serviço prestado às pressas”.
As cantinas escolares deveriam desempenhar um papel fundamental: são espaços onde milhares de jovens fazem a refeição diária mais completa do dia. Garantir que estas refeições sejam saudáveis, equilibradas, saborosas e acessíveis não é apenas desejável, é uma responsabilidade que recai sobre as escolas e sobre o Estado.
A alimentação na infância e adolescência não é apenas sobre saciar a fome: é o alicerce da saúde futura. Hábitos equilibrados fornecem os nutrientes essenciais para o crescimento e desenvolvimento e ajudam a prevenir doenças futuras. Crianças e jovens que consomem regularmente frutas, legumes, cereais integrais e proteínas de qualidade reduzem o risco de obesidade infantil, diabetes e doenças cardiovasculares na vida adulta.
Investir em educação alimentar e em escolhas saudáveis desde cedo é, portanto, um passo eficaz para garantir uma vida longa, saudável e de qualidade.
Estado e escolas têm responsabilidades complementares. O Estado deve assegurar recursos financeiros, diretrizes claras e fiscalização rigorosa, garantindo que as cantinas cumpram normas nutricionais e de higiene. As escolas, por sua vez, devem implementar estas políticas de forma eficaz, promovendo educação alimentar e transformando a refeição escolar numa experiência educativa e prazerosa, e não apenas numa necessidade física.
Será que não conseguimos, em Portugal, transformar o simples ato de comer numa oportunidade de aprendizagem e prazer?!!!
No Japão, a educação alimentar é obrigatória. Aprender a comer é tão importante quanto matemática ou história. Existe uma disciplina chamada Shokuiku, que ensina e enfatiza nutrição, disciplina, gratidão e a importância de refeições equilibradas e frescas, sendo parte integrante do sistema de almoço escolar (Kyushoku).
Porque não transformar a disciplina de Cidadania numa oportunidade para aprender a comer bem? Ou, vamos elevar a fasquia e fazer da alimentação uma verdadeira bolsa de interdisciplinaridade, integrando aprendizagem em várias áreas: Ciências Naturais (nutrição e biologia), Matemática (quantidades, calorias, proporções), História e Cultura (tradições alimentares) e até Ética (gratidão e responsabilidade social).
Em última análise, cantinas saudáveis não são apenas uma questão de nutrição: são um investimento no futuro das crianças e adolescentes. Garantir refeições seguras, equilibradas e saborosas é formar cidadãos mais conscientes, saudáveis e preparados para fazer escolhas alimentares responsáveis ao longo da vida, relevante numa sociedade que se orgulha da sua gastronomia e dos seus direitos.
Sugestão? Apostar na prevenção, educação e fazer da refeição escolar um verdadeiro investimento no futuro