Na minha prática clínica, encontro muitas pessoas que vivem durante anos com dor nas pernas. Algumas deixaram de caminhar, de passear ou de realizar tarefas simples do quotidiano. Outras habituaram-se ao peso, ao inchaço e ao desconforto ao fim do dia, como se fossem consequências inevitáveis da idade, do trabalho ou de “má circulação”.

Na minha opinião, esta resignação é um dos maiores problemas associados à dor vascular crónica. A dor pode tornar-se habitual, mas isso não significa que seja normal ou que não tenha solução.

Entre as causas vasculares mais frequentes de dor crónica nas pernas encontram-se dois grandes grupos: a doença arterial e a doença venosa. Ambas afetam a circulação, mas provocam sintomas bastante diferentes.

As artérias levam sangue rico em oxigénio do coração até aos músculos e aos restantes tecidos. Quando ficam estreitas ou obstruídas, o sangue pode não chegar em quantidade suficiente, sobretudo durante o esforço. A manifestação mais característica é uma dor que surge ao caminhar, frequentemente na barriga da perna, mas também na coxa ou na nádega. Obriga a pessoa a parar e desaparece depois de alguns minutos de repouso, voltando quando retoma a marcha.

É comum ouvir frases como: “Consigo andar até à esquina, mas depois tenho de parar” ou “Já sei exatamente em que ponto do caminho a perna começa a doer”. Esta regularidade é uma pista importante. Muitas pessoas atribuem a dificuldade à idade, à coluna, aos joelhos ou à falta de treino e vão, progressivamente, reduzindo a distância que percorrem. Sem se aperceberem, adaptam toda a sua vida à doença.

Numa fase mais avançada, a dor arterial pode aparecer mesmo em repouso, sobretudo durante a noite, quando a pessoa está deitada. Por vezes, melhora ao colocar a perna para fora da cama ou ao dormir sentado. Feridas nos pés ou nos dedos que não cicatrizam, alterações da cor da pele ou zonas negras são sinais de alarme e exigem uma avaliação rápida.

A doença arterial é mais frequente em fumadores ou antigos fumadores e em pessoas com diabetes, colesterol elevado, hipertensão ou doença cardíaca. Contudo, a ausência destes fatores não exclui o problema.

A dor venosa tem geralmente outras características. As veias são responsáveis por fazer regressar o sangue das pernas ao coração. Quando esse retorno não funciona adequadamente, o sangue tende a acumular-se nos membros inferiores. O resultado pode ser uma sensação de peso, cansaço, tensão, ardor ou dor difusa, acompanhada de inchaço, sobretudo junto aos tornozelos.

Ao contrário da dor arterial, o desconforto venoso costuma agravar-se após muitas horas de pé ou sentado e ao fim do dia, particularmente com o calor. Em regra, melhora ao caminhar, elevar as pernas ou usar compressão adequada. Podem existir varizes, mas a doença venosa não se resume às veias visíveis. Algumas pessoas apresentam alterações da pele, com comichão, endurecimento ou uma coloração acastanhada junto aos tornozelos. Nos casos mais avançados, podem surgir feridas, habitualmente nessa região, que cicatrizam com dificuldade ou reaparecem repetidamente.

Estas queixas têm um impacto frequentemente subestimado. A dor perturba o sono, limita o exercício, condiciona o trabalho e reduz a autonomia. Quando uma pessoa deixa de caminhar porque caminhar dói, perde também capacidade física, confiança e qualidade de vida.

Nem toda a dor nas pernas tem origem vascular. Problemas musculares, articulares, neurológicos ou da coluna podem produzir sintomas semelhantes. Além disso, a doença arterial e a doença venosa podem coexistir. É precisamente por isso que considero importante não tentar fazer o diagnóstico apenas pela aparência das pernas ou por descrições genéricas de “má circulação”.

A avaliação por cirurgia vascular é, na maioria dos casos, simples e pouco invasiva. Começa por uma conversa detalhada sobre os sintomas e por um exame das pernas, da pele, dos pulsos e da circulação. Quando necessário, pode ser complementada por medições da pressão arterial nos membros ou por um ecodoppler, um exame indolor que utiliza ultrassons para observar o fluxo do sangue nas artérias e nas veias.

Nem todas as situações exigem uma operação. O tratamento pode incluir mudanças de hábitos, exercício orientado, controlo dos fatores de risco cardiovascular, medicação, compressão venosa ou procedimentos minimamente invasivos. O mais importante é identificar corretamente a causa e escolher o tratamento adequado a cada pessoa.

Aceitar durante anos uma limitação progressiva não deve ser a única opção. Muitas destas queixas podem ser controladas e, em alguns casos, resolvidas. Por vezes, o primeiro passo para voltar a caminhar sem dor é tão simples como deixar de lhe chamar apenas “cansaço”.

Ricardo Castro Ferreira é cirurgião vascular no Hospital Lusíadas do Porto e no Hospital Privado de Gaia. É também professor de Fisiologia na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e um dos cronistas convidados da secção Dor, dedicada exclusivamente a temas relacionados com a dor.

Dor é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a dor e respetivo acompanhamento clínico e impacto na sociedade. Resulta de uma parceria com a Ferraz Lynce (através da sua unidade, FAI Therapeutics) e tem a colaboração da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor e da SIP-Portugal. É um conteúdo editorial completamente independente.

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