As grandes epidemias, além dos seus efeitos devastadores imediatos, sempre tiveram consequências a médio e a longo prazo; consequências políticas, culturais, económicas e geopolíticas que determinaram as relações de poder entre os Estados, alterando a chamada ordem do mundo.

No cosmos helénico, a Guerra do Peloponeso acabou com a vitória da aristocrática e continental Esparta sobre a oligarquia marítima e comercial ateniense. A peste de Atenas, que matou Péricles e enfraqueceu o povo e as forças militares atenienses, determinou o resultado da guerra. Há um ciclo de expansão e queda entre 100 A.C. e 500 A.D. que atinge simultaneamente a China dos Han, a Pérsia dos Partos e o Império Romano. Todas estas sociedade têm primeiro um ciclo de expansão político-económica – entre 100 A.C. e 200 A.D. –  e depois conhecem um tempo de declínio – entre 200 e 500 A.D.. Em todas elas a crise surge ligada à peste.

Sabemos que a Peste Negra precipitou o fim do feudalismo, a centralização do poder real e o fim da servidão; e que o poder de Veneza sofreu com a peste de 1629-31, que chegou a matar cerca de 600 pessoas por dia, entre elas o doge, Nicólo Contarini, atingindo toda a região do Norte e Nordeste da Itália. Sabemos ainda que as novas doenças levadas pelos europeus para o Novo Mundo e que causaram grande mortalidade entre os ameríndios facilitaram a conquista europeia.

O que é que podemos então esperar da pandemia do Corona Virus?

‘A pandemia vai fortalecer o Estado e o nacionalismo’, diz à revista Foreign Policy Stephen M. Walt, um dos epígonos da escola realista, professor em Harvard, Chicago e Princeton. A necessidade de regulamentação autoritária, desde logo para evitar o contacto e o contágio, leva a um reforço interno do papel do Estado.

O caso da República Popular da China é paradigmático. Depois do secretismo e do silenciamento, para proteger a imagem do Estado e do Partido, que prejudicou gravemente, não só os cidadãos chineses mas o resto do mundo, vão-se revelando, na terapia, as vantagens do modelo para-totalitário de comando vertical: um isolamento absoluto na área de Wuhan, o uso de uma série de tecnologias dignas de um conto de ficção científica para identificar, localizar e vigiar os contaminados e traçar os caminhos da peste, quarentena imposta nacionalmente com recolher obrigatório e controlo interno e externo da informação.

O sistema é orweliano mas parece ter como resultado o isolamento rápido da doença e a reversão também rápida das curvas de propagação. Aparentemente, uma estrutura vertical de decisão e controles sanitários produz resultados, mesmo numa sociedade com mercados em que animais vivos e mortos de várias espécies se misturam e geram combinações virais mortíferas.

E de tal modo resulta que já quase todos se parecem ter esquecido da origem da epidemia, das vozes de aviso que na China se levantaram e que foram brutalmente silenciadas e dos muitos infectados que, segundo o New York Times, foram saindo de Wuhan até que a China admitisse o problema. Resulta ao ponto de a China estar já a marcar posição numa futura nova ordem internacional, enviando equipas médicas para Itália, o novo epicentro do contágio, que ali começou no norte, onde a força laboral chinesa é avassaladora, também com o regresso da ‘mão de obra barata’ às fábricas e manufacturas da indústria da moda italiana depois de ter ‘ido à terra’ para o ano novo chinês. Entretanto, espanhóis e portugueses tentam licitar o material sanitário, incluindo testes e os críticos ventiladores, que a China está a vender.

Outros casos de sucesso no combate à epidemia na Ásia são regimes liberais, democráticos, como Taiwan, a Coreia do Sul e mesmo a semi-autoritária Singapura e o próprio Japão. Todos eles têm uma orgânica comunitária semelhante e um respeito pela autoridade que funciona bem nestas emergências.

Não restam muitas dúvidas de que irá crescer e generalizar-se a importância do Estado e a sua intervenção em modelos mitigados de estado de excepção, que são formas atenuadas de ditadura comissarial.

E se o Estado, agora investido em poderes especiais por razões de calamidade, vai ter de aumentar o seu papel regulador – na manutenção da ordem pública, no controlo dos movimentos dos cidadãos, na saúde pública e até na economia – também consolida o seu poder perante os seus concorrentes da esfera regional e transnacional. Schengen está suspenso, as fronteiras voltaram e, dentro da razoável e normal previsão – e se a União Europeia sobreviver à crise e, sobretudo, à resposta à crise – vão manter-se dentro de União Europeia.

O silêncio da UE quando Itália pediu ajuda foi eloquente, e se Bruxelas funcionasse com a solidariedade e unidade que devia, estaria já a tratar da aquisição conjunta e da distribuição de equipamentos de saúde segundo as necessidades dos Estados membros. O silêncio da Alemanha perante a gravíssima situação italiana foi também revelador.

A carência de equipamentos de saúde – e nas áreas básicas da alimentação e da indústria – vem também revelar o risco de confiar a uma estrutura global, à ‘economia’, o abastecimento de mercados e as linhas de produção. Além da ironia de estarmos agora a encomendar ventiladores e máscaras à China, ou de assistirmos à chegada a Itália de uma equipa de médicos cubanos, munida de uma enorme fotografia de Fidel de Castro, para ajudar nos hospitais italianos, enquanto os alemães fazem ouvidos moucos aos seus pedidos, todos percebemos pela duríssima e dolorosa experiência a fragilidade da globalização e a falta de sabedoria da ‘mão invisível’ e de todo este admirável mundo novo que nos andam a vender há décadas.

A Peste Negra demorou dez anos a chegar da China à Crimeia, outros dois anos a chegar da Crimeia a Itália e mais dois a chegar à Escandinávia. Não valeu de muito, pois não havia, ao tempo, conhecimentos médicos que pudessem ditar medidas preventivas. Mas foi por causa da peste, em Ragusa, nos domínios de Veneza, que em 1377 começou a prática da trintina – impondo aos navios suspeitos de ter pestíferos a bordo um período de 30 dias antes do desembarque –, que só em 1448 o Senado da Sereníssima passou a quarentena, aumentando em dez dias o tempo de espera profilática.

Hoje, como no filme de Stephen Soderbergh Contágio, é tudo mais rápido e as epidemias transformam-se de um dia para outro em pandemias. Daqui para a frente, como escreve Robin Niblett, os governos, as companhias, as instituições e as redes de abastecimento vão pensar em formas de lidar com crises de isolamento económico, criando sistemas mais caros mas mais seguros.

E quais serão as alternativas em termos de modelo social? Mais comunitarismo, menos individualismo? Mais autoridade, menos liberdade? Na actual competição geopolítica, será Pequim ou Washington a lidar mais competentemente com a crise? Embora quer em Pequim, quer em Washington os dirigentes sejam nacionalistas, a sociedade, a cultura e os sistemas políticos não são sequer comparáveis. E nos Estados Unidos o Presidente, num tempo de urgência nacional perante um ‘clear and present danger’, tem de contar com o Congresso: e tem sobretudo de contar com os poderes dos 50 Estados.

De qualquer forma, quer no combate à epidemia, quer quanto às suas consequências político-económicas a perda relativa das teses internacionalistas e liberais será inevitável bem como o recuo teórico e prático do globalismo e da globalização. O sistema de internacionalização das grandes companhias, com redes de produção e um assembling final dos produtos, foi interrompido de forma inesperada e brutal, e mesmo que, passada a pandemia, tais circuitos possam recompor-se, a memória traumática das rupturas que agora vivemos irá persistir e encorajar, mesmo com custos elevados, sistemas mais próximos e autárcicos de produção e abastecimento.

O mundo que sairá da pandemia será com certeza um mundo mais pobre mas mais realista, mais identitário, mais estadual. Numa linha que já se vinha afirmando em potências como os Estados Unidos, a China, a Índia e o Brasil, mas que agora chega ao Japão e aos principais países da Europa, os Estados passarão a intervir e a seguir mais a economia. E para não deixar o caos político-social e o desemprego instalarem-se terão de fazer injecções de capital directas e significativas nas empresas e de reforçar e remodelar o exército, as forças de segurança e a saúde pública.

As utopias progressistas terão de esperar. Estamos muito mais longe do Homo Deus do que do ‘Que Deus nos ajude’.