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A humildade, enquanto capacidade de reconhecermos os nossos erros e limitações, é uma qualidade inestimavelmente útil. No entanto, a falsa modéstia pode ser limitadora do nosso potencial.

Quando crescemos, somos ensinados que devemos ser humildes. Saber reconhecer os nossos erros e limitações faz parte do nosso crescimento pessoal e profissional. Sem esta capacidade torna-se bastante complicado progredirmos. A questão surge quando, ao longo da nossa vida, existe uma expectativa de falsa modéstia face aos nossos feitos profissionais e que nos pode fazer perder oportunidades únicas de progressão.

Roubei o título deste artigo à comunidade que Stefanie Sword-Williams criou, tendo em vista desmistificar o conceito de autopromoção e apelando à alteração da mentalidade das pessoas, para que “não percam oportunidades por estarem demasiado ocupadas a fazerem de conta que são modestas”.

Esta falta de autopromoção, ou o pensamento de que é algo que “nos fica mal, que devemos é ser modestos e não ser arrogantes ou convencidos”, pode ter um impacto negativo na maneira como percepcionamos o nosso próprio valor e levar-nos a perder as tais oportunidades.

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Este ponto reveste-se de especial importância para as mulheres, à luz de dados que evidenciam realidades como a das mulheres só se candidatarem a uma vaga quando preenchem 100% dos requerimentos, enquanto os homens fazem-no com apenas 60% dos critérios preenchidos, por exemplo. Ou que as raparigas têm melhores resultados na escola porque são socializadas para cumprirem regras, o que as prejudica depois no mercado laboral. Ou, ainda, que os homens são promovidos com base no potencial, enquanto as mulheres recebem as mesmas promoções sustentadas maioritariamente na experiência e resultados. As consequências destas disparidades são gritantes – ou como se explica que apenas um quinto dos CEOs na Europa sejam mulheres, quando as estatísticas demonstram que as empresas lideradas por mulheres têm mais lucro e melhores preços por ação quando em bolsa?

Aprendermos a autopromover-nos sem culpa é uma competência crucial para o crescimento profissional. Ninguém tem a carreira de sonho a dizer e acreditar que é mais ou menos, certo?

No processo de desmistificação da autopromoção, é importante estarmos preparados para o pushback que vamos receber de algumas pessoas à nossa volta. É importante também percebermos que os comentários negativos que ouvimos sobre a partilha do nosso sucesso não diminuem o impacto do mesmo, e que não questionam o nosso valor enquanto profissionais ou pessoas.

Gostava de terminar com as seguintes questões: se sabe que é excelente no seu trabalho, porque há-de menosprezar-se apenas para caber no padrão de “modesto”? Vamos acabar com a falsa modéstia imposta e com a hipocrisia do “devia ser mais humilde”? Que se lixe sermos humildes – vamos continuar a ser bons no que fazemos e a contá-lo ao mundo.

Fontes:
https://ec.europa.eu/eurostat/documents/2995521/10474926/3-06032020-AP-EN.pdf/763901be-81b7-ecd6-534e-8a2b83e82934
https://www.catalyst.org/research/women-in-management/
https://edition.cnn.com/2019/10/16/success/women-ceos-and-cfos-outperform/index.html

Catarina Peyroteo Salteiro é a Directora de Comunicação Global da DefinedCrowd, scale-up de dados para Inteligência Artificial. Com quase uma década de experiência profissional, Catarina passou por empresas como a Fox International Channels e a Universal Music Group, onde desempenhou funções na área de Marketing. Licenciou-se em Ciências da Comunicação pelo ISCSP-UL, e tem uma pós-graduação em Ciência Política e Relações Internacionais pela FCSH-UNL.

O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõem o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.