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A apropriação da herança de outros cria um dos maiores equívocos políticos dos nossos tempos. E, num tempo em que determinadas forças políticas chamam a si a propriedade de alguns dos temas fraturantes, é de bom tom relembrar uma das figuras mais influentes do final do século XX, e que é uma das maiores provas de que a política de identidade não passa de uma pós-verdade que alguns nos querem impor.

Falo da líder do governo britânico durante a década de 80, Margaret Thatcher. A primeira mulher a ocupar o cargo de primeiro-ministro nas democracias ocidentais, uma defensora da União Europeia, progressista nas políticas de combate às alterações climáticas, defensora do sistema nacional de saúde e que recuperou uma economia mergulhada no caos da governação socialista.

A “Dama de Ferro”, como o soviétivo Yuri Gavrilov a apelidou, foi implacável na reforma económica de um Reino Unido em queda, defendendo os seus valores e convicções e travando diversas batalhas nacionais e internacionais. Um sinal de liderança importante, não só internamente, mas também no plano internacional.

O que faz Thatcher ser tão importante, hoje, não são tanto os seus feitos históricos na conjuntura política da altura, como a intervenção militar nas Malvinas frente a uma Argentina ditatorial, a luta contra o terrorismo na Irlanda do Norte ou o apoio a Gorbatchov para dissolver a União Soviética. É, sim, o que ela representa aos dias de hoje.

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A sua liderança relembra-nos que um líder de convicções é importante na defesa de quem ele representa, mas relembra-nos, também, que foi no centro-direita que surgiu a primeira mulher a liderar um Estado na Europa Ocidental, que as políticas ambientais e de saúde não são uma herança de esquerda e que a recuperação económica de um país não se faz de políticas fáceis e de dependência estatal.

Thatcher é hoje importante, porque as gerações mais novas têm o direito a conhecer as figuras que estão no lado certo da história e não podem ficar reféns de uma narrativa de pós-verdade que quer encurralar o centro-direita na dualidade entre o populismo de Trump e uma defesa de valores conservadores. A herança das grandes causas sociais, económicas e humanas não é um monopólio de esquerda; nunca foi.

O centro-direita tem sido a voz do progresso sustentado e humanista das sociedades ocidentais. Thatcher é um exemplo disso mesmo e merece ser relembrada para que nunca nos esqueçamos da História e não nos deixemos levar por discursos que querem pintar de vermelho o que nunca foi deles.

Nós, jovens deste país, mas não só, precisamos de ter as nossas referências bem presentes, tal como foi Churchill, de Gaulle, Merkel ou Sá Carneiro. Só assim poderemos reivindicar a nossa herança política contra a pós-verdade que nos é imposta pelo discurso demagógico imposto por de quem dela se quer apropriar.

Relembrar Thatcher, e o que ela representa, é hoje mais importante do que nunca. Para que nunca nos esqueçamos.