O Padre Gonçalo Portocarrero de Almada comentou no jornal Observador a entrevista que recentemente concedi ao Público a propósito do meu livro A Casta dos Castos (publicado em Portugal pela editora Livros Zigurate).

O artigo está cheio de invectivas e insultos que, do meu ponto de vista, revelam por um lado uma total ausência de argumentos por parte do seu autor, e por outro, que a minha investigação atingiu em cheio um padre que, por qualquer razão, tem dificuldade de aceitar a verdade e a realidade.

Como remédio para essa situação, recomendaria, antes de mais, afectuosamente, ao Padre Gonçalo que lesse o meu livro. Uma pessoa culta e educada não critica um livro (sobretudo tratando-se de uma investigação de carácter científico) que não leu. Fazê-lo é uma admissão implícita de grave incompetência e de grande superficialidade.

Em segundo lugar, sugeriria ao Padre Gonçalo que não fingisse desconhecer a questão a que o meu livro se refere. No seu artigo, o Padre Gonçalo cita com uma certa arrogância informações históricas que são do conhecimento até de crianças que frequentam a catequese e ignora o aspecto central do meu ensaio, ou seja, a imensa hipocrisia que rodeia a vida sexual e afectiva dos padres católicos, os quais se apresentam ao povo dos fiéis como castos sem o serem, e que frequentemente escondem a sua homossexualidade, fingindo ter (por serem obrigados a isso pela instituição) uma conduta de vida diferente da dos restantes seres humanos e merecer, por isso, uma posição de poder e de privilégio negado aos leigos.

Finalmente, mas aqui a minha expressão torna-se sombria ao pensar no sofrimento de tantas vítimas que conheci, diria ao Padre Gonçalo que é chegado o momento de até mesmo pessoas como ele levarem a sério a questão dos abusos cometidos pelo clero católico. A sua tentativa de minimizar e banalizar a questão segue a linha daquilo que a Igreja tentou fazer ao longo de décadas: absolver-se de todo o tipo de responsabilidade, afirmar que os padres abusadores, quando são descobertos (isto é, quando a Igreja deixa de conseguir protegê-los), são “maçãs podres” infiltradas por engano no interior da instituição, diabinhos vindos do outro mundo. Esta é a via que conduziu à perpetuação de crimes horrendos e que é validada por raciocínios como os do Padre Gonçalo.

Felizmente, trata-se de um caminho que algumas conferências episcopais decidiram começar a abandonar, escolhendo um outro, doloroso mas libertador, de verdade e de justiça. Talvez um dia até o Padre Gonçalo Portocarrero de Almada se convença disto, porque, como dizemos em Itália, enquanto há vida há esperança.