“A única forma de aumentar salários — é fácil — é aumentar os salários. Não há outra forma de aumentar os salários”, disse Paulo Raimundo, num momento de inspiração que se tornou viral no meio digital. Todos rimos desta solução encontrada pelo secretário-geral do PCP para o aumento de salários, mas no fundo sabemos que está certo. Tal como Lili Caneças quando nos recordou que estar vivo é o contrário de estar morto.

Aumentar salário é isso mesmo: aumentar salários. A questão que se impunha era outra: se aumentar salários “aumentando-os” aumenta o poder de compra.

Se a resposta for “não”, para que serve um salário mínimo nacional?

Se a resposta for “sim”, então que se aumente o salário mínimo nacional para 10 milhões de euros por mês, por semana ou por dia. Sejamos ambiciosos.

Dirão que aumentar o salário mínimo nacional para esses valores criaria uma situação insustentável e que as empresas não sobreviveriam. Mas se assim for, significa que o poder de compra não aumentou. Caso tivesse aumentado, o consumo também aumentaria e as empresas beneficiariam desse aumento. Se tal não ocorre com 10 milhões, também não ocorre com 20 euros. A lógica é a mesma; mudam apenas os valores. O resultado não é aumento de poder de compra, mas apenas mais dígitos na app do banco. Compra-se mais? Não.

O camarada Raimundo disse algo que soou absurdo. Mas soou absurdo apenas pela forma como foi dito, pois aposto que a esmagadora maioria de quem se riu não parou cinco minutos para pensar no tema.

O que o camarada disse já acontece. Sim: os salários aumentam por decreto. E a ironia é que a barbaridade proferida por Paulo Raimundo é defendida com unhas e dentes por quem a considera aplicável, sem se dar conta de que defende a mesma coisa.

Se todos conseguimos perceber que “aumentar salários aumentando salários” é ridículo por ser uma artificialidade que não cria poder de compra — podendo até diminuí-lo — por que razão não aplicamos o mesmo raciocínio aos aumentos artificiais do salário mínimo nacional?

Este tipo de interferência do Estado é, no mínimo, bizarra e cria uma desigualdade gritante enquanto grita “igualdade”. Um aumento artificial de salário tem o mesmo impacto em Lisboa e numa aldeia do interior? Dirão: “Claro que não; por isso deveriam aumentar ainda mais”. Então Paulo Raimundo está certo e merece um pedido de desculpas imediato. Mas não o terão, porque algo nessa afirmação parece errado — e parece bem.

A razão é simples: sem aumento de produtividade ou de oferta real de bens e serviços, os aumentos artificiais são pagos por quem os recebe, através do consumo. Podem aumentar para 10 milhões que ninguém terá mais poder de compra; o mercado ajustará os preços à nova realidade. “Então que se proíbam os aumentos de preços”. Excelente ideia, camarada Mortágua. E adivinhem o que acontecerá…

Agora imaginem alguém que tem um mini-mercado numa aldeia do interior e que lhe dizem que tem de pagar 900 euros ao seu único funcionário. Ou o despede, prejudicando a população que depende do mercado, ou aumenta os preços para compensar o aumento salarial, reduz o consumo e acaba por fechar. O problema mantém-se.

Não preciso de demonstrar porque 900 euros em Lisboa e 900 euros numa aldeia do interior têm impactos diferentes. São exemplos simples e práticos que nos deviam fazer questionar essa “verdade inquestionável” que é o salário mínimo nacional.