Tenho de falar com um amigo, temos um assunto a tratar. Eu estou em Lisboa, ele está em Leiria. O Francisco é professor. Ligo às 8 da manhã para conseguir falar com ele, antes de se tornar incontactável numa sala de aulas. Ligo mas não chama. Nem sequer gravação para o correio de voz. Insisti porque estranhei a mensagem automática. O resultado foi o mesmo. Liguei a outro amigo, agora por razões profissionais, o Bruno, que também vive em Leiria, o resultado foi o mesmo. A mesma gravação: não é possível fazer a chamada. Pensei, vou tentar o Luís, se não atender, não existem comunicações.
Aqui a tragédia tornou-se real na minha cabeça, só ainda não tinha percebido a dimensão da mesma. Afastei-me da cidade, liguei ao meu Tio Pedro, vive no Souto da Carpalhosa. E imediatamente depois tento o número de casa do Ricardo (sei de cor)meu amigo de infância. Sempre o mesmo resultado.
Aqui a dimensão da tragédia começa a expandir. Falei com família e amigos, que estão fora de Leiria, ninguém falava com ninguém, desde a Alcobaça a Pombal pelo menos.
Agora estamos aqui, são 10h30, não há linhas fixas nem comunicações móveis. Inevitavelmente haverá também uma falha de eletricidade e com isto perturbação na alimentação da água.
Pergunto ao Hugo e ao Ger pelos pais. Pergunto ao meu pai se sabe de alguém. Não me precipito, apesar da necessidade e do receio, vou aguardar. Mas são os meus e dói. Dói muito.
Estou agarrado ao telemóvel, são agora 16h. Luís Montenegro é entrevistado, fala em ter colocado “meios de prevenção” nas zonas mais afetadas e disse “estamos a aguardar uma avaliação”.
O Tó já me tinha avisado: “vai ser violento”. O Tó não dormiria nessa noite. O Francisco não iria dar aulas, o Bruno não conseguiria sair de casa, o Luís não pode trabalhar, o meu Tio viria a fazer refeições num grelhador a carvão e o Ricardo encontraria a empresa já de tarde e parcialmente destruída. A Família do Hugo aguentou e a do Ger iria remendar o telhado. Têm todos nomes Sr. Primeiro Ministro, são os meus mas deviam também ser os seus.
Agora e na senda das suas palavras, permita-me, nem eu nem ninguém conhece os meios de prevenção de que fala e que colocou à disposição nas zonas mais afetadas. Sobre a avaliação, permita-me usar as frase dos meus, os Leirienses:
- “Era conhecido dos meus primos”;
- “Estão a abrir o acesso à rua dos meus pais”;
- “Chove em todas as divisões da nossa casa”;
- “Esta empresa já não volta a abrir”;
- “Não têm mais condições, empregam centenas de pessoas”.
Finalmente e nas palavras da Graça: “Nunca tive tanto medo na minha vida”. Isto não é uma calamidade, nem uma tragédia, é uma catástrofe e vai-se fazer sentir pelo país todo.