Um relatório recente do Fórum Económico Mundial sobre a oportunidade que a redução das disparidades em saúde representa em termos de ganhos sociais e económicos começava o seu sumário executivo com uma frase lacónica: “Investimentos para colmatar a lacuna na saúde das mulheres podem acrescentar anos à vida e vida aos anos – e potencialmente impulsionar a economia global em mil milhões de dólares por ano até 2040.”
Penso frequentemente no que falta fazer e no tempo que estamos a perder por cada dia em que não reduzimos estas desigualdades. O Dia Internacional da Mulher é mais um desses momentos de reflexão, relevado pelo peso simbólico das efemérides.
Descobrir, perguntar, desafiar o conhecimento é o caminho da ciência. Quem percorre esta rota direciona o impacto da descoberta para as pessoas e para a sociedade. Mas o que acontece quando a investigação não é diversa e inclusiva? Recentemente soube que a Volvo foi a primeira companhia automóvel a desenvolver modelos femininos para testes de colisão, essenciais para garantir a construção de estruturas protetoras dos seus ocupantes. A minha admiração surgiu quando soube a data em que tal foi feito: 1995. Décadas de utilização do automóvel como peça central da nossa mobilidade, e só na década de noventa do século passado tivemos um primeiro modelo capaz de garantir que os testes de segurança pudessem refletir as características anatómicas das mulheres, permitindo mais e melhor segurança também para nós. Este é um mero exemplo, muito ilustrativo, de desenvolvimento de soluções sem integrar feedback de uma fatia muito considerável dos utilizadores.
Mas voltemos à investigação na área da saúde. Temos consciência de que apenas 4% da investigação e desenvolvimento na área farmacêutica é canalizada para condições específicas da mulher? Este é um número que nos deve incomodar e que não podemos aceitar. O investimento em investigação centrada nas doenças e condições específicas das mulheres (ex. endometriose, complicações relacionadas com a gravidez e com a saúde materna) ou em doenças que nos afetam desproporcionalmente (ex. doença cardiovascular, enxaqueca) é um imperativo ético, também apontado no relatório do Fórum Económico Mundial que mencionei na introdução. Nele abundam dados curiosos – talvez mude a minha adjetivação para dramáticos. Apenas 11% do orçamento do National Institute of Health, dos EUA, é destinado a investigação específica sobre saúde da mulher. No Canadá e no Reino Unido, apenas 5,9% das bolsas atribuídas entre 2009 e 2010 foram canalizados para trabalhos com análise de resultados específicos em mulheres ou focados na sua saúde. Desde 2015, houve cinco vezes mais estudos sobre disfunção erétil do que sobre síndrome pré-menstrual.
Algo tem de mudar. E se a frase conhecida nos remete para um esforço que deve começar em nós, diria que todas temos o dever de exigir mais. Coloquemos estas questões aos nossos representantes; intervenhamos nas nossas empresas; mudemos mentalidades. Não responder a este desafio é negligenciar metade da população mundial.
Published 2024. Accessed February 20, 2025.
https://www3.weforum.org/docs/WEF_Closing_the_Women%E2%80%99s_Health_Gap_2024.pdf
2 DeSilva J, Krasnainsky A. Building comprehensive women+ digital health: Eight sectors serving Women+ needs: Rock
Health. Published October 12, 2021.
Accessed April 6, 2022. https://rockhealth.com/insights/building-comprehensive-women-digital-health-eight-sectors-
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