A enxaqueca é muito mais do que uma dor de cabeça. Quem vive com ela descreve-a como uma experiência que afeta todo o corpo. É invisível, o que a torna solitária e frequentemente incompreendida: uma luta constante, traduzida em crises semelhantes a tempestades, imprevisíveis e devastadoras, acompanhadas de uma autêntica sobrecarga sensorial. E esta experiência, tão profundamente humana e subjetiva, tem impacto laboral que, afinal, pode ser medido.

Os dados mais recentes revelam que a enxaqueca é uma das principais causas de incapacidade em todo o mundo, com um peso económico impressionante: é responsável por perdas anuais estimadas entre 1% e 2% do PIB a nível global, colocando-a entre as doenças com maior peso socioeconómico. Só na Europa, o seu custo ultrapassa os 111 mil milhões de euros, sendo que mais de 90% desse valor resulta da perda de produtividade e não das despesas com cuidados de saúde. Isto acontece porque as pessoas com enxaqueca frequente perdem até 46 dias de trabalho por ano, com a grande maioria (72%) a confirmar um impacto significativo da doença na sua vida profissional.

Mas há mais dados, números que traduzem uma realidade preocupante: três em cada quatro pessoas com enxaqueca são mulheres, muitas delas em plena idade ativa. Entre aquelas que trabalham e vivem com enxaqueca, 74% referem não conseguir desempenhar plenamente as suas funções no trabalho ou na escola. As baixas médicas tornam-se frequentes, sendo ainda comum a recusa de oportunidades profissionais ou até mesmo o abandono do mercado de trabalho.

Falamos de perdas de produtividade que, por sua vez, conduzem a uma perda de rendimentos do trabalho, afetando diretamente as pessoas, mas com repercussões também a um nível mais global. Afeta os governos, uma vez que resulta na redução das contribuições fiscais e no aumento das transferências sociais, como subsídios de desemprego ou de invalidez. Afeta ainda os sistemas de saúde, já de si pressionados, uma vez que a enxaqueca está associada a várias comorbilidades, como a depressão e a ansiedade – as pessoas com enxaqueca apresentam um risco 2 a 10 vezes superior de desenvolver perturbações do humor.

No entanto, apenas 18% dos trabalhadores que referem sofrer de enxaqueca recebem apoio no local de trabalho. Mais do que isso, a enxaqueca continua a não ser reconhecida pelas autoridades de saúde como uma prioridade, uma desvalorização que se traduz numa clara ausência de respostas estruturadas.

Mas há outros dados que importa partilhar: muitas das pessoas com enxaqueca nunca relevam a sua condição no trabalho. A maioria (58%) evita informar o empregador por medo de penalizações, 43% escondem a doença no contexto profissional e 34% relatam já ter sofrido discriminação. Um receio que encontra eco noutro número revelador: 60% dos gestores admitem que hesitariam em contratar um candidato que sofra de enxaqueca.

Em Portugal, a realidade segue a mesma tendência: metade dos doentes com enxaqueca (50%) falta ao trabalho cerca de quatro dias por mês; 79% referem que o seu local de trabalho dificulta a gestão da doença; 62% sentem que a sua doença influenciou a sua avaliação de desempenho no trabalho, e 81% consideram que a enxaqueca teve impacto na sua vida profissional.

Os dados nacionais evidenciam ainda que a falta de ajustes simples – o controlo da iluminação, a flexibilidade horária ou possibilidade de trabalho remoto – contribui para o agravamento dos sintomas e para o aumento do absentismo e presenteísmo entre trabalhadores com condições de saúde invisíveis.

Para além do acompanhamento clínico das pessoas que vivem com enxaqueca, que teria, por si só, um impacto considerável em todas as métricas acima referidas — um diagnóstico precoce e uma prevenção eficaz podem compensar entre 20% e 30% das perdas de produtividade associadas à doença; um tratamento adequado pode reduzir até dois dias por mês as faltas ao trabalho; e mesmo melhorias mais modestas no diagnóstico e no acesso a terapias preventivas teriam o potencial de recuperar até um terço de toda a produtividade perdida. É preciso fazer mais pelas pessoas que sofrem de enxaqueca. Ao reconhecer a verdadeira dimensão deste problema, e tudo aquilo que ele implica, estamos também a reconhecer o seu impacto na produtividade e os seus efeitos ao nível da participação no mercado de trabalho.

A European Migraine and Headache Alliance considera essencial que a Comissão Europeia emita orientações para que os Estados-Membros integrem a enxaqueca nos códigos de trabalho nacionais e na legislação de Medicina do Trabalho. A aliança sugere ainda medidas simples, mas com impacto real na vida de quem vive com esta condição, como a implementação de horários flexíveis ou a possibilidade de trabalho remoto.

Nos locais de trabalho, a adaptação das instalações com iluminação regulável e espaços silenciosos, como a Organon já faz, pode contribuir para a redução dos fatores ambientais que desencadeiam crises de enxaqueca. Paralelamente, a integração da sensibilização para esta condição na formação de gestores e de profissionais de Recursos Humanos tornaria mais fácil identificar, acompanhar e apoiar quem dela sofre, contribuindo, em última análise, para locais de trabalho mais inclusivos, mais justos e mais produtivos para todos.

Dor é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a dor e respetivo acompanhamento clínico e impacto na sociedade. Resulta de uma parceria com a Ferraz Lynce (através da sua unidade, FAI Therapeutics) e tem a colaboração da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor e da SIP-Portugal. É um conteúdo editorial completamente independente.

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