As eleições presidenciais deste ano estão a mostrar, mais do que qualquer outra coisa, o estado emocional e ideológico do país. E, convenhamos, não é propriamente um retrato tranquilo. Há quem procure salvadores, quem esteja a tentar sobreviver politicamente e quem continue preso a uma retórica que já não diz nada a ninguém. No meio disto tudo, os debates parecem um ringue improvisado onde se grita muito e se discute pouco.
A situação do Bloco de Esquerda é quase literária. O partido vive há anos preso à esperança do seu regresso triunfal, como se a política tivesse uma versão moderna da névoa de Alcácer Quibir. Porém, eleição após eleição, o BE aproxima-se perigosamente de uma irrelevância que, ironicamente, lembra exatamente o mito sebastianista: todos falam do regresso glorioso, mas ninguém acredita verdadeiramente que vá acontecer.
A diferença é que, ao contrário de D. Sebastião, o BE não precisa de nevoeiro para desaparecer — basta continuar sem rumo, sem lideranças robustas e sem a capacidade de acompanhar as mudanças sociais e culturais que antes dizia interpretar como ninguém.
O crescimento da direita, por sua vez, também não cai do céu. Há anos que o país está cansado de promessas repetidas, de discursos que soam a loop infinito e de soluções que nunca saem do papel. A direita percebeu melhor o descontentamento, leu a mudança de humor nacional e apresentou-se com narrativas simples, claras e emocionalmente eficazes.
É também por isto que várias figuras políticas que andavam confortavelmente instaladas num certo “centro” começaram, agora, a mudar de discurso e de posicionamento, o caso mais evidente é o do Almirante Gouveia e Melo. Há meses respeitado transversalmente, hoje vê parte da classe política e opiniativa tentar reescrever a narrativa em torno dele. Porquê? Porque a direita percebeu que o Almirante não é “seu”, e a esquerda tardou a perceber que ele poderia ter sido “seu”. Resultado: ninguém quer ser o autor do próximo equívoco eleitoral, então todos ajustam a posição pública ao sabor das sondagens. Em Portugal, a coerência ainda perde demasiadas vezes para a estratégia.
PS e PSD continuam naquela confortável zona de operação que dominam há décadas: falar muito, dizer pouco, acreditar que a liturgia resolve tudo.
É o eterno regresso do déjà-vu: promessas de estabilidade, frases genéricas sobre o futuro do país e críticas mútuas que parecem retiradas de arquivos de 2005. Em plena reta final para as presidenciais, continuam agarrados à mesma fórmula, como se o eleitorado ainda estivesse disponível para ouvir discursos que conhecem palavra por palavra. Spoiler alert: não está.
Os debates desta campanha são o espelho perfeito do problema. Curtos ao ponto de não permitirem aprofundar nada, estruturados para criar ruído em vez de clareza, e conduzidos como se o objetivo fosse colecionar soundbites para o telejornal das 20:00.
O resultado é simples: grita-se muito, interrompe-se mais ainda, e no final não se discute rigorosamente nada. A democracia transforma-se num espetáculo ruidoso, vazio, quase infantil. Não é assim que se escolhe um Presidente, é assim que se perde credibilidade.
Estas presidenciais não são apenas um momento eleitoral. São um termómetro.
Mostram-nos que a esquerda tradicional continua perdida entre mitos do passado e bloqueios internos, a direita percebeu melhor o estado de espírito nacional, os partidos do centro continuam a achar que o país para para os ouvir e os debates são hoje mais barulho do que política.
No fim, talvez o grande desafio destas eleições seja este: perceber que Portugal está diferente, e que quem não acompanhar essa mudança será empurrado para o mesmo nevoeiro onde continua o velho D. Sebastião da política portuguesa.