Verão. Férias. Viagens. Bolas de Berlim com creme. Descontracção. Retomam-se os livros por acabar. Dorme-se na areia ao fim da tarde. E olha-se para o lado. É a suave negação. Finge-se que a Graça dos bolos não vem pela praia, de máscara, carregada de álcool-gel em concorrência desleal com as bolas de alfarroba, beterraba ou outra qualquer coisa saudável de fazer arrepiar as papilas gustativas. Paga-se por MBway, para não haver manuseamentos excessivos. Especula-se que a distância entre chapéus vem do crescimento do areal e não do distanciamento social. Lêem-se os avisos na auto-estrada: «mantenha o distanciamento social, um conselho da DGS», e desacelera-se para não estar tão perto do carro da frente.

Os restaurantes cheios de animação, amêijoas, imperiais, peixe fresco e petiscos proibidos vindos de Espanha. Em Portugal protegem-se as espécies. Nem petingas, nem puntillitas. E as anguillas em conserva, compradas do outro lado da fronteira, com selo de garantia, não são as mesmas que o Marco vende ao Pablo, a mil euros o quilo. Também não vemos as máscaras em cima das mesas, ou atiradas para o chão, esquecidas no final da refeição, com a pressa da saída às onze da noite – para os de fora, aos habituais arrisca-se outro horário, à porta fechada, discreta.

Ah, a praia toda para nós, sem a maçada dos estrangeiros, essa gente infame, bêbeda e mal criada, que degradou o belo Algarve. Não foram, decerto, as políticas nacionais nem municipais, nem as pressões imobiliárias, ou a corrupção instituída e a ganância que destruíram um dos litorais mais bonitos da Europa.

Paga-se o hotel a preço de época altíssima para compensar os meses confinados. Fazemos que nem reparamos, mas o número de funcionários é menor e os que estão fingem não derreter atrás da máscara, com as mãos secas do desinfectante, apavorados com o que possa acontecer no fim da época estival.

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Assim, na espreguiçadeira a vinte euros por dia, de frente para o mar, com a serra à direita, nem se nota o cheiro a pinheiro a arder, já integrado nos odores do Verão. Nem tampouco se sente o cheiro do medo. Medo de perder o emprego, de ficar sem casa, de não ter onde deixar as crianças se se constiparem e forem obrigadas a quarentena antes do regresso à escola. Medo do futuro. Medo de que os quarenta e cinco mil milhões de euros, que fariam deste um país a par com a Europa, desapareçam pelos buracos do costume.

Vem com a cerveja gelada e um prato de tremoços a esperança num plano de recuperação económica, num projecto a dez, vinte anos, já escrito, apresentado. Isto vai ficar tudo bem, pensa-se enquanto se saboreia o sol gelado na imperial e se lê a recente entrevista de António Costa Silva. Finge-se não se ter sentido a frustração nalgumas respostas. Finge-se não se ter percebido nas entrelinhas, que mesmo quem se disponibilizou para pensar um país, sabe que são mais fortes as tradições do que a vontade de as mudar. Finge-se não saber que continuaremos com o dinheiro aplicado em respostas populistas, com os projectos guardados na gaveta. Finge-se acreditar que a tradição política de passear o ego pelo poder será substituída por uma vontade plural, à prova de pública transparência.