O que por palavras nos está oculto/ no silêncio crepita/ em intimidade.
José Tolentino Mendonça in A Papoila e o Monge

A Eduardo Lourenço perguntaram-lhe o que dizia o silêncio. Ele respondeu: “só nesse espelho, uma espécie de silêncio absoluto, é que cada um de nós descobre aquilo que conta ou que não conta. Tudo o resto é supérfluo.” Habituado ao silêncio desde pequeno, nas terras de xisto e granito da Beira Alta por onde acompanhava a avó com os rebanhos de cabras, Eduardo Lourenço descreve: a minha avó era uma mulher silenciosa. Naquela altura as pessoas não precisavam de grandes elucubrações. Eram só o que eram e isso bastava-lhes.”

Esta frase acompanha-me desde que, distraída a fazer zapping, encontrei a entrevista que Eduardo Lourenço deu a Fátima Campos Ferreira em 2016, na  Fundação Calouste Gulbenkian, e que a RTP voltou a repetir no dia do primeiro aniversário da sua morte. A avó sentava-se em silêncio e ele acompanhava-a. E nesse momento de intimidade, fluído como o descreve, na ausência das palavras, descobria-se pessoa.

O espelho de silêncio absoluto que Eduardo Lourenço refere é o espaço em que nos olhamos e nos reconhecemos por inteiro. Em que nos confrontamos com os medos e com as certezas, com o bom e com o mau, com a dor e com a alegria, sem subterfúgios. No silêncio, é-se o que se é.  Não nos podemos ignorar. Ouvimo-nos.

Ouvíamo-nos. Hoje, rodeados de colunas de som na praia e no quiosque e de tudo quanto ultrapassa o razoável ruído doméstico e urbano, obras, trânsito, vizinhos de berbequim e vídeos aos gritos no telemóvel da mesa ao lado, no café, não nos conseguimos ouvir. Hoje, chegámos a isto, o silêncio vende-se. O silêncio gratuito das pastagens da avó de Eduardo Lourenço, tornou-se um bem transacionável.

Porque há um cansaço que só deseja silêncio. Reparador. Daquele em que se pode dormir, ler, pensar. Daquele em que podemos saber o que conta e o que não conta. Esse bem transacionável, paguei-o há uns anos.

No Colmeal, um lugar perdido na Serra da Marofa, aldeia com uma história peculiar que deixarei para outra altura, tinha sido inaugurado um hotel que se publicitava como “a terra do silêncio”. Cheguei ao final da tarde, num dia quente de Agosto. O hotel pequeno, ainda por descobrir, estava quase vazio.  A serra impunha-se com respeito sobre o vale do Colmeal e o tal silêncio era quase absoluto. O quarto com vista aberta de par em par. Adormeci em paz. De manhã cedo, acordei ao som de moto-serras. Estava a ser feita a limpeza da mata.

Silêncio. Espelho partido.

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