Leitura

Só não é bom na cama

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Os títulos que nunca nos interessariam expõem a lombada como animais sem medo, pedindo mão que os folheie. Não sei a quem terá pertencido, mas encontrei-o entre os meus livros.

É tão extraordinário, mas simples e quotidiano, que não pensamos nas circunstâncias em que o fazemos.

Dentro do carro, durante a lavagem automática, enquanto o volante gira por vontade própria. De madrugada, onde for confortável, preenchendo a solidão. Na casa da árvore, desde que o vento embale. Na paragem de autocarro, alheios aos atrasos da Carris. No café, já que a companhia não impede o recato. Com uma capa por cima, para disfarçar quando nos é proibido. Mas hoje em dia já ninguém proíbe. Nas férias, flutuando no rio com o sol a redimir o corpo pelo calor. No comboio ou no avião. Principalmente no avião. Na biblioteca, porque os corredores oferecem muitas oportunidades. Ao serão, embora poucos o façam. Às escondidas ou às claras. Nas entrelinhas, claro. Na repartição pública à espera da vez. Sempre que apetece e mesmo quando não apetece.

Eu julgava que não existiam contra-indicações. A dose certa seria sempre a dose excessiva e os efeitos secundários desejáveis. Aliás, os mais apetecíveis. É certo que D. Quixote partiu em busca de Dulcineia por ter abusado da dose, mas centenas de exemplos contradizem Cervantes. De facto, a leitura é tão extraordinária que deveria ser praticada em qualquer circunstância, sem restrições. Mas há sempre as almas prudentes.

Quando, referindo-se à leitura, Proust dizia que vivemos mais intensamente os dias «que julgámos passar sem tê-los vivido», a verdade é que já tinha alguém à perna. Uma qualquer tia velha (Proust tem sempre uma tia velha escondida no quarto de cima) advertindo-o para os perigos de ler durante muito tempo, ou na posição errada. Preferível sobre a mesa e sempre de costas direitas.

Não precisamos das tias de Proust. Bastam as pessoas solícitas que, no autocarro, interrompem a nossa leitura por causa da retina, em risco de se descolar com o balanço.

Nunca pensei que ler pudesse implicar coragem física. Talvez os que passam a vida sem a companhia de um livro considerem que o alheamento quando estamos a sós com as páginas não traga nada de bom e implique riscos. Mesmo que sejam os outros a corrê-los, mais vale prevenir do que remediar.

Já todos fomos aconselhados a não ler por alguém que só queria o nosso bem. As almas prudentes cuidam sempre de nós. A mais prudente de todas chamava-se Mário Gonçalves Viana, que em 1940 escreveu A Arte da Leitura.

As bibliotecas feitas de mortos, e todas o são em maior ou menor grau, têm destas coisas: guardamos muita porcaria por homenagem. Os títulos que nunca nos interessariam expõem a lombada como animais sem medo, pedindo mão que os folheie. Não sei a quem terá pertencido, mas encontrei-o entre os meus livros.

Viana conseguiu apontar, sem remorsos, uma circunstância em que a leitura é contra-indicada. Apenas uma, e sem dúvida muito grave, pensava eu antes de o autor a revelar, como ler ao volante ou em andamento.

Nada disso. Diz-nos: «A leitura na cama é formalmente reprovada pela higiene, visto ser prejudicial à vista, e causadora de graves perturbações orgânicas, devido à posição forçada a que obriga». Ora aí está, é bom em todos os sítios, em todas as circunstâncias, a todas as horas – menos na cama.

Escritor, Prémio Leya 2014

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