Fernando Pessoa escreveu que ter opiniões é não pensar. Se eu me puser no lugar da mãe que tem um filho como refém vejo as coisas de uma maneira, se for a mãe que já não tem casa onde dormir e os seus filhos com fome, vejo as coisas de um ponto de vista completamente diverso.
O problema destes terríveis acontecimentos é extremamente complexo e só se pode compreender quando integrado no que aconteceu depois da criação de Israel no dia 14 de Maio de 1948, uma já longa história. O estado judaico foi reconhecido no mesmo dia pelos Estados Unidos, três dias depois pela União Soviética e logo depois por muitos outros, em 49/50 pela Inglaterra, a China e a Índia. E mais de 45 anos depois, em 1994, pelo Estado do Vaticano, depois da OLP (Organização para a libertação da Palestina).
Queríamos, para o sossego da nossa consciência, separar distintamente no conflito os maus, de um lado, e os bons, do outro. Ora, como todos sabemos, na vida nunca é assim, e neste caso também há culpas e razões dos dois lados.
Mas tenho três coisas que julgo por certas.
O ataque do Hamas exclusivamente a alvos civis e a tomada de reféns, foi um crime de guerra muito bem pensado: os dirigentes do Hamas sabiam que a resposta de Israel ia ser brutal, como foi, e isso foi propositado para atingir o fim a que se propunham e conseguiram, terem quase todo o mundo do seu lado condenando Israel. Disse “quase” porque há que compreender por que razões nenhum dos estados árabes muçulmanos vizinhos, o Egipto e a Jordânia, não recebem um único refugiado palestiniano, nem lhes dão qualquer apoio — em primeiro lugar o chamado Setembro Negro (1970) em que o exército Jordano expulsou em combate os guerrilheiros da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e, com eles, os refugiados palestinianos, que depois foram ajudar a destruir o Líbano.
O mais chocante é a desproporção entre as baixas civis de um lado e do outro. Esse fenómeno tem a ver com o tipo de guerra suja em curso—não tenho dúvida que o Hamas se protegia por debaixo de escolas e hospitais e que os bombardeamentos israelitas destruíram e mataram muitos milhares de inocentes. É talvez importante notar que na primeira grande guerra houve 80% de baixas militares e 20% de baixas civis, mas na segunda a situação inverte-se, 20% de militares e 80% de civis — mais de 50 milhões.
O primeiro ponto do programa do Hamas é simplesmente a destruição de Israel, posição que impede qualquer diálogo entre as partes. O governo actual de Israel é corrupto e o primeiro ministro é movido por um sentimento pessoal acrescido — o seu irmão, Yonatan Netanyahu, foi único morto na Operação Entebbe que ele comandou.
Qual a solução? Não tenho nenhuma. Pode não haver solução. Mas sei que a proposta americana não vai ser aceite nem por uns nem por outros e países reconhecerem um estado palestiniano é uma quimera: os palestinianos estão divididos e as suas chefias são inimigas. Em Junho de 2007 ocorreu a chamada “Batalha de Gaza”, uma breve guerra civil entre a Fatah (a facção mais importante da OLP) e o Hamas pelo domínio da Faixa de Gaza, principal causa da divisão e antagonismo entre a Autoridade Nacional Palestiniana (dominada pela facção Fatah da OLP) e o Movimento de Resistência Islâmico (Hamas). E há sempre o antissemitismo por baixo de tudo, agora a crescer exponencialmente.
Se não devemos ignorar que o Estado de Israel é um “estado judaico” — o que impede que seja um estado de direito, e por isso não tem uma constituição — sendo uma “mistura” de democracia e teocracia, também devemos tentar ser conscientes de que a sua existência é desde o início uma luta pela sobrevivência. Centenas de pessoas são directamente afectadas pela situação dos reféns — uma dor tamanha que eu não consigo sequer conceber — mas milhões de israelitas sabem que eles ou os seus familiares podiam, ou poderão, vir a ser um deles.
E não esqueçamos os crimes de guerra cometidos por nós, os bons, os que ganharam a segunda guerra mundial. Em particular, a total destruição por bombardeiros ingleses e americanos da cidade de Dresden com cerca de 25.000 dos seus habitantes mortos, apenas dois meses antes da capitulação alemã, o uso de napalm sobre aldeias japoneses (mais tarde vietnamitas) e as duas bombas sobre alvos civis, com o intuito consciente de exercer o terror para poder vencer.
Como escreveu Platão, só os mortos vêm o fim da guerra.