A falta de médicos especialistas em regiões do interior continua a ser um problema estrutural do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Durante anos, a solução passou por deslocar os doentes para os grandes centros urbanos, sobrecarregando hospitais e impondo tempos de espera prolongados. A telemedicina tem sido apresentada como uma alternativa para aproximar cuidados especializados das populações mais isoladas, mas um estudo recente indica que o verdadeiro avanço pode estar na contratação de médicos virtuais, que trabalham remotamente como parte da equipa dos hospitais locais.
Entre três modelos de prestação de cuidados – deslocação do doente, teleconsulta com um hospital central e a contratação de médicos virtuais -, apenas este último demonstrou um retorno positivo do investimento (ROI) para os hospitais rurais. O estudo analisou uma clínica ortopédica que usava telemedicina entre um hospital rural e um hospital metropolitano, demonstrando que a contratação de um especialista remoto gerou um ROI de 32%, enquanto o modelo clássico de teleconsulta teve um ROI negativo de -12,5%. O modelo de deslocação de doentes revelou-se insustentável, acumulando um prejuízo superior a 400 mil euros num período de três anos.
A análise demonstrou ainda que o modelo de médico virtual requer menos consultas para atingir a sustentabilidade financeira. No caso analisado, bastavam três consultas por dia para cobrir os custos operacionais do hospital rural, enquanto o modelo de teleconsulta exigia doze. Já a deslocação de doentes mantinha-se financeiramente inviável, especialmente em regiões onde o SNS subsidia parte das viagens. Em Portugal, o Programa Nacional de Transporte de Doentes representa uma fatia considerável do orçamento da saúde – só em 2023, este valor ultrapassou €60 milhões -, e a digitalização de consultas poderia reduzir substancialmente esta despesa.
Além da questão económica, a viabilidade do modelo de médico virtual é reforçada pelo facto de não depender da presença física do profissional. Desde que as exigências regulamentares sejam cumpridas, um especialista pode operar a partir de qualquer local com acesso à internet, reduzindo o problema crónico da falta de médicos no interior. O relatório da Ordem dos Médicos de 2022 alertava que 70% dos médicos concentram-se em Lisboa, Porto e Coimbra, deixando vastas regiões do país com cobertura médica insuficiente. O recurso a médicos virtuais permitiria que os hospitais locais tivessem maior autonomia na oferta de especialidades, sem depender exclusivamente de centros urbanos.
Apesar destas vantagens, a implementação deste modelo enfrenta desafios. A regulamentação da prática médica digital em Portugal ainda é insuficiente, e a interoperabilidade entre sistemas de registo clínico continua a ser um entrave. Muitos profissionais continuam relutantes em aceitar a transição digital, e o investimento inicial necessário para adaptar hospitais e centros de saúde à telemedicina representa uma barreira. No entanto, a pandemia já demonstrou que o SNS pode integrar modelos digitais de forma eficaz, e o passo seguinte passa por consolidar estas ferramentas e garantir um financiamento adequado.
A resistência à mudança não pode justificar a inação. O modelo tradicional de deslocação de doentes perpetua desigualdades no acesso aos cuidados e sobrecarrega os grandes hospitais. A telemedicina, quando estruturada de forma eficaz, pode descentralizar os cuidados, dar autonomia às unidades locais e garantir acesso imediato a especialistas. O que está em causa não é apenas eficiência financeira, mas sim a equidade do sistema de saúde. A pergunta essencial não é se Portugal deve adotar este modelo, mas quando estará pronto para transformar estruturalmente o acesso à saúde, garantindo que a geografia deixa de ser um obstáculo ao direito a cuidados médicos de qualidade.