Segundo o ator e comediante norte‑americano Seth Rogen, “ter filhos não me parece divertido”. Esta decisão voluntária de não ter filhos tornou‑se uma tendência crescente: nos EUA, 57 % dos adultos com menos de 50 anos admitem que é pouco provável que tenham filhos. Entre os maiores de 50, 31 % reconhecem que a razão para não os terem é simplesmente que não quiseram.

As motivações variam com a idade: os mais velhos dizem que “simplesmente não aconteceu”; os mais jovens afirmam que não querem mesmo ter filhos. A maioria em ambos os grupos concorda que, sem filhos, têm mais facilidade em pagar as coisas que querem, dedicar-se a hobbies e poupar para o futuro. Nos mais jovens, cerca de seis em cada dez salientam ainda que não ter filhos lhes permite ter sucesso na carreira e uma vida social ativa. Contudo, a maioria reconhece que, ao envelhecer, os pais têm mais probabilidade de ter alguém para cuidar deles. E nem por isso se arrependem: muitos defendem que uma vida plena não depende de ter filhos.

Um humorista pode avaliar a paternidade com o critério do divertimento — faz parte do seu métier —, mas certamente não aplica o mesmo critério à sua carreira, onde o compromisso e sacrifício são evidentes. Já agora, os pais dele pensariam dessa forma? Sem moralismos, acredito que cada um deve ter os filhos que quer — e pode —, mas há aqui um problema de civilização: a sobrevivência da nossa espécie.

É irónico que quem diverte milhões por uma vocação que exige sacrifício não esteja disposto ao mesmo sacrifício pessoal, se o único critério é ser “divertido” ou trazer prazer. Reconheço que uma profissão vocacional à causa pública, como padres, políticos, artistas, empreendedores, CEO — ou até médicos e professores — pode justificar não ter filhos. Mas precisamos mais de generosidade e espírito de sacrifício. Sim, Seth tem razão, ter filhos não é divertido, mas diria que só às vezes. Para mim, vale tudo o que custa — e a maior parte do tempo é bastante bom. Mas sem esse espírito de missão — por nós, pelos outros, pela sociedade — nada se ergue. Estes argumentos de Rogen soam infantis num corpo adulto. Como queremos este mundo sem o seu custo? Vivemos numa sociedade de direitos sem compreender que chegámos aqui com muito esforço e deveres.

Claro, o Estado tem um papel vital: deve criar condições — fiscais, de saúde, de educação — que facilitem a natalidade. Mas não percamos tempo na lógica da “culpa dos outros”. Quem decide ter — ou não ter — filhos é cada indivíduo. Defendo a liberdade pessoal, mas também a responsabilidade.

Quando o argumento para não ter filhos é a falta de dinheiro, fico cético. Esta é aquela narrativa “com razões sociológicas” que não analisa a fundo o problema e aparece sempre que conhecemos a atualização dos dados devastadores do INE: a natalidade está a cair a pique, a população está a envelhecer drasticamente, a renovação de gerações está posta em causa.

Entretanto, há cada vez mais cães, iPhones topo‑de‑gama, corpos mais esculturais, restaurantes cheios e malas Gucci. E pais que não podem dar menos que um quartinho individual a cada filho, senão ficam traumatizados. Se o dinheiro fosse o problema — realmente, era a prioridade. E o estudo do Pew confirma: a maior parte das pessoas diz não querer ter filhos porque prioriza outras coisas — ou simplesmente não deseja mesmo essa aventura.

A expressão “vida plena” — usada por muitos entrevistados — aponta precisamente para uma ideia de felicidade que exclui a parentalidade. Provavelmente é a primeira vez na história em que a maioria entende que é possível ser plenamente feliz sem filhos.

Em tempos, mesmo com dificuldades, as pessoas continuavam a procriar. Ser pai ou mãe não era só um encargo — era um prazer e um legado natural. Hoje, ter filhos é um “projeto” planeado — tanto que, quando chega o momento, já não é possível.

Não evitemos o escândalo de dizer o óbvio: as pessoas não têm filhos porque há cada vez mais egoísmo na sociedade. Ainda que se patrocine a liberdade, a responsabilidade — e o bem comum — também contam. E se um dia não houver mais pessoas? E se deixarmos de ter consumidores? Aí é que haverá um problema.