Se há coisa à qual eu gostaria de assistir, seria a uma conversa entre Michel de Certeau e Israel Kirzner. Michel de Certeau foi um dos mais importantes intelectuais do século XX. Certeau ficou famoso como historiador e sociólogo. Não é fácil produzir pensamento original numa disciplina. Certeau foi capaz de o fazer em duas. Homem da esquerda francesa, que privava com intelectuais como Lacan, Certeau era, não também, mas principalmente, um sacerdote Jesuíta. Kirzner, ainda vivo, é um dos mais importantes economistas Austríacos. Kirzner é particularmente importante como teórico do empreendedorismo. Kirzner é, não também, mas principalmente, um Rabino Judeu. Numa altura em que todos buscam uma solução para a crise que vivemos, juntar um sociólogo e um economista Austríaco, ambos crentes em Deus, parece-me apropriado. Desconfio que ambos concluiriam que tal solução não é conhecida.

Na vasta obra de Certeau e Kirzner há um pormenor que infelizmente passa despercebido demasiadas vezes: ambos falam do ‘desconhecido’. Até há pouco tempo, eu pensava que o ‘desconhecido’ em Certeau era somente enquanto referência ao mistério de Deus. Descobri recentemente, num livro editado onde escreveram pessoas como Lacan e Foucault, que Certeau falou do ‘desconhecido’ também em relação à economia. Já quanto a Kirzner, a importância dada ao ‘desconhecido’ é relativamente conhecida entre quem gosta de economia Austríaca. Contudo, eu diria que infelizmente falamos pouco do ‘desconhecido’ enquanto categoria de relevo na obra de Kirzner.

A questão óbvia é: porque é que falar do ‘desconhecido’ é importante? A resposta simples é: porque vivemos na ilusão da possibilidade do conhecido. A resposta mais complexa é: porque só o desconhecido tem interesse. Eis uma tentativa de explicação.

A resposta simples. Vivemos, enquanto sociedade, na ilusão da possibilidade de conhecer tudo. O fenómeno do ‘big data’ é sinal daquela mesma ilusão. Na verdade, raramente tomamos decisões com base em informação plena. A vasta maioria das nossas decisões, enquanto indivíduos, empresas e até enquanto sociedade, ocorrem sem informação plena. Contudo, e esta é a fonte da ilusão, tendemos a pensar que não usamos informação plena porque não a temos disponível. Daí o fascínio com o ‘big data’.

Ora, em verdade, não temos informação plena porque tal não é possível. Como muito bem refere, aliás, Nassim Taleb, num parágrafo (literalmente) sempre esquecido do seu famoso livro ‘Black Swan’, há uma distinção a fazer entre o desconhecido epistemológico e o desconhecido ontológico. O desconhecido epistemológico refere-se a tudo aquilo que sabemos que não sabemos, mas que poderíamos saber caso tivéssemos os dados apropriados/suficientes e/ou as ferramentas apropriadas. A ilusão do ‘big data’ vem precisamente daí: caso consigamos recolher dados em quantidade suficiente seremos capazes de alcançar o desconhecido que sabemos desconhecer.

Ora, o problema é que tal não se aplica a problemas da ordem do social. Já o desconhecido ontológico trata de tudo aquilo que não sabemos que deveríamos saber. Isto ocorre porque, colocado de forma simples, o desconhecido ontológico não existe para o descobrirmos. O desconhecido ontológico manifesta-se à medida que, literalmente, vamos vivendo. Ou, dito ainda de outra forma: o desconhecido ontológico não existe como algo para lá de nós, o qual podemos descobrir; o desconhecido ontológico torna-se em algo ao mesmo tempo que o descobrimos. Sem utilizar estes termos, Certeau fala disto quando reflecte na sua obra sobre a ‘crença’. ‘Acreditar’ e ‘crédito’ têm a mesma raiz etimológica.

A crença em algo implica a certeza, sustentada numa forma de fé, de que algo no futuro vai acontecer. No caso religioso, é a fé na promessa da salvação; no caso do crédito bancário, é a fé na promessa do pagamento futuro, com juros, do dinheiro antecipado no presente; no caso do Estado, é a fé na promessa de salvação dos problemas criados pelo próprio Estado com o dinheiro roubado aos contribuintes ontem, hoje e sempre; no caso do empreendedor, como bem refere Kirzner, é a fé num retorno futuro resultado de um salto para o puro ‘desconhecido’ feito no presente. Em todos estes exemplos, uma falha na promessa implica uma perda de confiança: ‘con-fiar’, partilhar a mesma fé, é por isso fundamental para a religião, para a economia e para o estado.

É aqui que entra a resposta complexa à questão inicial. O que conhecemos tem interesse muito relativo do ponto de vista social e político. O que sabemos que deveríamos saber também. Já quanto ao ‘desconhecido’, este tem uma capacidade extraordinária para mobilizar uma sociedade. Até no plano pessoal é isso mesmo que, amiúde, ocorre: só o mistério, a vertigem pelo desconhecido, atrai.

Contudo, o apelo do ‘desconhecido’ tem algumas consequências, as quais derivam, em última instância, do seguinte. O desconhecido não é passível de ser reduzido à dicotomia ‘verdadeiro-falso’. Daí a relevância das categorias de ‘crença’ e ‘fé’, como digo acima. Quando tratamos do ‘desconhecido’, precisamente porque desconhecemos, não podemos dizer se é verdadeiro ou falso, mas podemos, contudo, acreditar ou não.

Ora, isto aplica-se não só ao plano religioso, mas também ao plano socio-económico. Quando tratamos de assuntos socio-económicos estamos muitas vezes perante problemas que desconhecemos totalmente: desconhecemos até que o problema existe ou pode vir a existir. É por isso que muito do que ocorre no domínio socio-económico não é, nem deve ser, do domínio da ciência. O que me parece importante realçar é que tal não constitui um defeito, mas sim uma característica. Característica essa que tem até grande poder, pois permite mobilizar ‘massas’. Por exemplo, no decorrer da crise do ‘coronavirus’, o simbólico e o ‘desconhecido’ (medo, se preferirem neste caso) mobilizou mais do que a ciência.

Esta conclusão, que os Jesuítas e os economistas austríacos penso que entendem com grande facilidade, tem bastante importância. Por exemplo, caso passássemos a tratar os problemas socio-económicos como sendo do plano do ‘puro desconhecido’ (‘wicked problems’, para quem preferir a terminologia de Rittel e Webber), teríamos também que reconhecer que tais problemas não têm a) causa claramente conhecida; b) solução claramente conhecida; c) sempre que os tentamos resolver, criamos outros problemas. Esta última característica dos problemas que lidam com o desconhecido não significa que não tentemos resolver os mesmos, desde que conscientes de que criaremos sempre outro tipo de problemas.

Podemos aplicar este raciocínio à crise que já se vislumbra como resultado do ‘coronavirus’. Tentámos resolver um problema do plano do ‘desconhecido’ como se fosse do plano do conhecido; com isso criámos outro problema do plano do desconhecido, para o qual já se vislumbram as soluções do costume, as quais vão dar origem a mais problemas. Exemplo do que digo. Tratámos do vírus como se conhecêssemos o grau de exposição da população ao mesmo. Quando uma universidade como Oxford vem dizer que provavelmente 50% da população já tem o vírus sem saber e sem manifestar sintomas, o que verificamos é que na verdade sabemos menos sobre o problema do que inicialmente pensávamos.

Tomámos assim uma decisão, isolar a população, sem na verdade termos os dados todos. Isso não é necessariamente mau. Não tem é nada a ver com ciência, mas sim com crença e fé. Por isso a decisão foi política, e não científica. Repito: tal não é necessariamente mau. O que não pode é ser tratado como se estivéssemos na presença de algo do plano do verdadeiro-falso. Ao solucionarmos algo do plano do desconhecido com uma solução que seria apropriada caso de facto soubéssemos do que se tratava (que não sabíamos), criámos outro problema, também do plano do desconhecido: a crise socio-económica que se avizinha.

Já nos preparamos para resolver mais um problema do plano do ‘desconhecido’ com uma solução do plano do conhecido: conhecemos bem o que acontece quando replicamos o modelo venezuelano. Contudo, também aqui a fé virá ao de cima: a crença na possibilidade de ser desta que o Estado nos vai salvar com o dinheiro que nos retirou faz já algum tempo. Ora isto, curiosamente, entra imediatamente no plano do conhecido: não vai ocorrer! O que o Estado se prepara para fazer é para extrair, de forma coerciva, ainda mais riqueza à sociedade, com uma nova promessa de salvação futura.

Por isso costumo dizer, com grande convicção, que é tão racional acreditar em Deus como no Estado: não é racional. Ambos são do plano da fé, não da ciência. A grande diferença é que Deus é pessoa de bem, em quem podemos confiar.