Maya Angelou (1928-2014), afro-americana destemida e inspiradora, foi cidadã e poeta militante, defensora dos direitos cívicos, que trabalhou com Martin Luther King Jr. e Malcolm X, e granjeou o respeito de muitos, entre eles Bill Clinton, para quem compôs o poema “On The Pulse of the Morning,” (1993) e Barack Obama que lhe concedeu o Presidential Medal of Freedom (2010).

Mulher de extraordinária energia e muitos ofícios, viveu tempos empolgantes e particularmente difíceis do século XX dos EUA. Da Califórnia ao Arkansas e Nova Iorque, passando pela Europa e por África, foram várias as geografias que contribuíram para desenvolver em Angelou uma criatividade multifacetada, fundada na convicção de que é possível corrigir muito do que marca dolorosamente as vidas individuais e colectivas.

Para além de várias outras ocupações, foi actriz e realizadora, dramaturga, compositora, cantora, bailarina e, acima de tudo, escritora. Tem 30 títulos publicados, entre os quais sete narrativas autobiográficas, de I Know Why the Caged Bird Sings (1970), nomeado para o National Book Award, a Mom & Me & Mom (2013), bem como volumes de poesia, tendo o primeiro, Just Give Me a Cool Drink of Water ‘fore I Diiie (1971), sido nomeado para o Pulitzer.

Shakespeare foi, como afirma, o seu “primeiro amor branco”. Tocada pelo soneto 29 onde se afirma a capacidade do poeta, desafortunado e ostracizado, conseguir pensar a felicidade e cantar hinos de exaltação, tal como a cotovia celebra a alegria da manhã, encontraria neste poema e num outro, do escritor afro-americano Paul Lawrence Dunbar, ao qual pede emprestado o título da primeira autobiografia, a força para a escrita de I Know Why the Caged Bird Sings, livro dedicado ao filho e “a todos os pássaros promissores negros e fortes, que desafiam a adversidade e os deuses e cantam as suas canções”.

É o saber feito de experiência de vida, dorida, violada, mas também resistente e maravilhada com a variedade do mundo e as possibilidades que pode oferecer, que justifica o cantar. Aqui, tal como na sua escrita em geral, Angelou cria um espaço de diálogo entre mundos literários diferentes, o da tradição britânica e norte-americana mais canónica e o da tradição afro-americana, que vai dos espirituais a autores por quem nutriu uma “paixão fiel”, entre os quais figuram, para além de Dunbar, Langston Hughes, James Weldon Johnson ou James Baldwin.

Todos eles lhe permitirão elevar-se bem alta: “Deixando para trás noites de terror e medo/ elevo-me/ em amanhecer espantosamente claro” (“Still I Rise”, 1978). Este é o amanhecer dos que a história desprezou, mas de forma especial da mulher negra nos EUA em finais da década de 60, cuja voz agora se erguerá. São também de 1970 os primeiros romances de Toni Morrison, prémio Nobel, e de Alice Walker. Angelou, a par destas escritoras e de outras, irá alterar de forma marcante o panorama literário americano, conferindo à escrita afro-americana feminina uma posição nunca antes alcançada.

Autobiógrafa inicialmente relutante –
Estão a olhar para mim porquê?
Não vim aqui para ficar…”

Não era que eu tivesse esquecido, antes que não conseguia dispor-me a lembrar. Havia outras coisas mais importantes , assim começa a primeira autobiografia – terá reagido à observação intencionalmente provocadora de Robert Loomis, editor na Random House, de que era “quase impossível escrever uma autobiografia que fosse literatura”. Deste modo, Angelou vai optar por autobiografias que obedeçam a critérios de estrita eficácia narrativa, não se sentindo obrigada nem pela cronologia nem por uma exacta correspondência do narrado com o vivido.

A autora bebe, ainda, da tradição narrativa oriunda das comunidades escravas americanas, em que “o falar na primeira pessoa do singular é falar sobre a primeira pessoa do plural, dizendo sempre eu significando nós”. Corta, todavia, nas matérias tratadas, com a prática de reserva por razões de auto-protecção ou imagem, narrando acontecimentos traumáticos, como o da sua violação ainda menina, ou outros tipos de violência, física e psicológica, presentes na própria comunidade.

Autora que afirma a força da vida individual e partilhada, Maya Angelou deu voz própria ao sonho de fraternidade de Luther King, ou de resistência e reconhecimento da intrínseca igualdade das pessoas de Langston Hughes, numa escrita que busca “um lar para a alma/ onde a água não está sedenta/ onde o pão não é pedra”, e o encontra na ligação do eu ao outro, pois, como afirma, “Veio-me uma coisa à ideia/ E não acredito que me engane/ Que ninguém/ Ninguém mesmo/ Pode safar-se aqui sozinho.” (“Alone”, 1975)
Professora da Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa