Elogiar um político é quase sempre ingrato — e, não raras vezes, imprudente: são uma classe que tem por hábito fazer promessas vazias que raramente se materializam, arrastando consigo quem outrora as elogiou.
É também difícil escrever sobre um político sem cair num texto partidário, enviesado ou doutrinal. É por isso que não o vou fazer: este não é um texto político. Não é um manifesto, nem tampouco uma eulogia. É um relato factual, de alguém que emigrou e que tentou regressar a Portugal. As conclusões, essas, pertencerão sempre ao leitor.
Os factos, esses, espelham a realidade de tantos portugueses: emigrei para a Suíça em 2018, com duas malas e uma decisão tomada à pressa. A princípio não me pareceu uma decisão difícil: como tantos outros da minha idade, deixei para trás apenas um ordenado mínimo, um contrato temporário e um país que parecia só me querer ver pelas costas.
Mas os anos foram passando e resolvi tentar regressar a Portugal. Inocentemente, estava convencida de que a minha experiência no estrangeiro me traria melhores oportunidades e que Portugal me quereria de volta – afinal, sucessivos governos lamentam há anos a saída de jovens qualificados e defendem, com unhas e dentes, a necessidade de importar mão de obra estrangeira para assegurar a sustentabilidade da Segurança Social. No meu caso, não vi essas lamúrias traduzidas em vontade: durante meses procurei emprego a partir da Suíça, enviei centenas de currículos e recebi apenas as conhecidas respostas automáticas: “Obrigado pelo seu interesse em colaborar com…”.
Até que uma noite, como boa emigrante, estava a ver televisão portuguesa e parei num canal onde falava um político, apresentado pelo moderador como sendo de extrema-direita. Discursava sobre os jovens portugueses emigrados, que tiveram de abandonar o país, deixando a família e os amigos. Falou dos filhos de gente importante que têm sempre emprego garantido (num canal de televisão, numa repartição pública, no Banco de Portugal) e falou dos outros, como eu, que não têm outra alternativa senão emigrar — e da importância de os trazer de volta.
Fiquei a pensar: realmente, como é que um país com jovens capazes, altamente valorizados no estrangeiro, se dá ao luxo de fechar a porta aos seus próprios nacionais, mesmo quando estão dispostos a abdicar de ordenados mais altos e impostos mais baixos? Por que é que ninguém parece estar interessado em segurar uma geração inteira, que se forma cá para depois ir reforçar a riqueza e o progresso de outros países?
No meio da minha irritação resolvi, então, enviar um e-mail para o partido desse tal político, para um endereço geral, com um texto dirigido ao próprio. Não foi um gesto de militância, nem uma tentativa de aproximação política. Foi um relato pessoal: a descrição de um percurso e de uma frustração partilhada por tantos emigrantes. Foi, como é este texto, uma constatação de factos e de desilusões.
Fui à minha vida: foi apenas um desabafo, ao qual nunca pensei ter resposta. Aquele político deve ser como os outros, e os que o rodeiam também – ninguém vai ler as crónicas de uma emigrante anunciada, disse eu. Quem, neste país, está realmente interessado em cumprir o que apregoa? Porém, passados poucos dias, recebi uma resposta a agradecer as minhas considerações e a pedir-me uma cópia do meu currículo. Fiquei estupefacta. Seria possível que a minha primeira entrevista fosse com esse partido que, no entender do moderador da entrevista política a que assisti, não traz nada de diferente, senão populismo e promessas vazias?
E é aqui que termino o meu relato — de forma súbita, abrupta, mas deliberada. E faço-o porque as opiniões têm um lugar, e os factos outro — mas é no confronto dos dois que se mede a coerência e a vontade de trazer mudança.
Mas voltei para Portugal.