Foi de novo decidido levar o país para eleições. Para estas foi também de novo decidido repetir o modelo de debates do ano anterior, onde os partidos concorrentes são divididos em dois grupos, o dos grandes e o dos pequeninos, com base no critério do assento parlamentar. Nestes debates os grandes são todos considerados de igual dimensão e peso político, o que, como é por demais óbvio, não o são, pois uma coisa é ter 78 assentos (caso do PSD e do PS), coisa bem diferente é só ter 1 (caso do PAN). Mas adiante, como são todos tidos por igual há que lhes garantir igual oportunidade e igual tempo de antena. Excepção feita para o debate PS/AD em termos de tempo de antena, vá lá a gente entender porquê!…
O modelo assenta ainda no debate frente a frente com dois partidos de cada vez, seguido de um debate final entre todos os ditos grandes. Como são 8 os partidos com assento, cada um deles tem de fazer 7 debates com os demais. E assim foi feito. Para tanto são estes debates repartidos pelos 3 Tv’s que, em conjunto, partilham ainda a transmissão do tal entre AD e PS. Após cada debate segue-se o debate dos jornalistas/comentaristas dos 3 Tv’s, que ainda atribuem classificações aos debatentes, seja por simpatia com a respectiva cor política, seja pelo volume de ruído por eles produzido durante o debate.
A chamada moderação cabe a diferentes jornalistas do respectivo Tv que entrevistam os debatentes partidários (por vezes entrando mesmo em debate com eles em desequilíbrio do tal frente a frente). Como os jornalistas sabiam, nomeadamente pelas sondagens, quais os temas que mais interessavam ao pessoal, lá organizaram as respectivas moderações de modo a interrogarem os debatentes sobre a Spinumviva e a responsabilidade por estas eleições, a inquiri-los sobre a imigração, a indagar sobre a habitação, a perguntar-lhes pela saúde e a questioná-los sobre economia.
Sendo 7 os debates, mesmo que conduzidos por diferentes Tv’s e jornalistas, cada debatente lá foi interrogado 7 vezes sobre a Spinumviva, inquirido 7 vezes sobre imigração, indagado 7 vezes sobre habitação, perguntado 7 vezes pela saúde e questionado 7 vezes sobre economia. Do mesmo modo, cada debatente respondeu por 7 vezes à interrogação sobre a Spinumviva, à inquirição sobre imigração, à indagação sobre habitação, às perguntas pela saúde e às questões sobre economia, sempre com os limites de tempo decorrentes da natureza de tais debates. Todos os demais temas se quedaram fora dos debates ou só marginal ou casuisticamente foram aflorados. Excepção outra vez feita para o tal debate PS/AD que, beneficiando de mais tempo e de nova espuma do dia, foi ainda iluminado pelo apagão.
Qual cereja no topo do bolo lá chegou o debate final a oito. Desta feita na RTP e conduzido por um só jornalista, o qual, dentro do tempo disponível, lá se esforçou por interrogar cada um dos 8 debatentes sobre a Spinumviva, a inquiri-los sobre imigração, a indagar sobre habitação, a perguntar-lhes pela saúde e questioná-los sobre economia.
Os poucos debates a que ainda assisti deixaram-me bastante cansado com esta inútil repetição e limitação temática, pelo que cedo desisti de os ver. Mas, aqui chegados, caberá então questionar este já desgastado modelo de debate, seja para melhoria do seu formato, seja mesmo para sua substituição.
Tenho para mim que numa campanha eleitoral o principal interesse do eleitor é não só conhecer as principais propostas partidárias como ainda conhecer os que se propõem implementá-las, ou seja, conhecer as políticas e os políticos dos diversos partidos proponentes. As políticas partidárias são a essência de uma democracia como a nossa, mas os políticos, seu carácter e capacidade, são essenciais à confiança do voto na sua boa implementação.
Fácil é pois de perceber que o dito modelo não cumpre este desiderato no tocante a políticas. É que, por mais vezes que se repita a mesma pergunta, se não se der o tempo de resposta minimamente necessário ao seu esclarecimento, as respostas quedar-se-ão sempre pela rama, como em geral sucedeu.
É certo que este modelo de debates resulta de consenso entre as Tv’s e os partidos. Mas isto só significa que tal consenso se traduziu no acordo possível, não no acordo ideal. Ouvi mesmo que as Tv’s, conscientes dos defeitos deste modelo, já o tentaram alterar, o que sempre esbarrou em dificuldades partidárias.
Claro que para dar a conhecer as propostas dos diversos partidos poderiam os debates ser substituídos por meras entrevistas com os líderes partidários. Mas, por muito bom que fosse o entrevistador, o conhecimento destes ficaria sempre bastante limitado sem os debates.
Creio que o modo mais simples de se poder melhorar a qualidade de tais debates e lhes devolver algum interesse seria o de as Tv’s incentivarem os diversos jornalistas participantes a, entre eles, ajustarem previamente uma maior diversidade temática a abordar com os vários debatentes, e respectivos tempos de esclarecimento, assim evitando a repetição das mesmas respostas sempre pela rama, e obrigando ainda os debatentes a explicarem mais e melhor as suas propostas sectoriais, tudo em benefício do esclarecimento do eleitor e da qualidade da nossa democracia.