Um rápido Conclave ofereceu à Igreja e ao mundo um Papa. Sublinho o «um» porque só a Igreja Católica é capaz de inspirar aquela confiança que se expressou na alegria esfuziante de milhares de pessoas diante de fumo branco que saía de uma chaminé. Não importava qual era o nome… para um católico só é importante ter consciência que «Temos Papa».
Mas o mundo e a Igreja esperavam um nome. Faziam-se perspetivas em torno dos nomes mais falados e cada nação falava dos «seus» candidatos. Quando fomos surpreendidos com o nome de um Cardeal norte-americano. Contra todas as expectativas e apostas. Prevost: um missionário agostinho. Vale a pena sublinhar o aspeto de missionário, uma vez que o foi, de facto, e durante muito tempo, deixando o conforto de tudo aquilo que se tem num país como os Estados Unidos e partiu para o Perú. As muitas fotografias que têm sido publicadas mostram-nos um homem que não tem medo de arregaçar as mangas e calçar as galochas para estar próximo do seu povo. Efetivamente, pelo menos na época moderna, é o primeiro Papa que fez esta experiência como missionário, sendo um facto em tudo promissor do que virá a ser a sua missão papal.
Mais que contar a sua história, que já muitos e bem fizeram, quero sublinhar alguns aspetos que surgem destes primeiros dias de pontificado. Há diversos aspetos que chamam a atenção, em muito por causa da sua pertença ao ambiente eclesial norte-americano, cujo substrato teológico tive oportunidade de estudar para a tese de doutoramento, que versou sobre o pensamento do teólogo Avery Dulles.
Apelo e compromisso pela Paz
Na primeira vez que apareceu em público como Papa, na loggia central da Basílica de São Pedro, deixou um forte apelo à paz. Não uma paz fundada em acordos irenistas, mas aquela paz essencial para os cristãos, que é a paz que se funda em Deus.
Se «leão» é símbolo de força e coragem, Leão XIV deu provas disso no apelo à paz deixado no discurso do dia 14 de maio, perante os peregrinos do Jubileu provenientes de comunidades das Igrejas Orientais. O compromisso pela paz foi marcante no Pontificado do Papa Francisco e foi doloroso que no final da sua vida se tivessem multiplicado os conflitos. Aliás, entravam já os cardeais em Conclave e escalava a violência entre o Paquistão e a Índia.
A força da Igreja católica – aquele «poder» que muitos tendem a afirmar, mas que não é outra coisa que a sua capacidade moral de transformar vidas e mudar atitudes – reside na sua autoridade moral e na capacidade da sua rede diplomática. No referido discurso, afirmou o até à semana passada Cardeal Prevost e agora Papa Leão: «A Santa Sé está disponível para que os inimigos se possam encontrar e olhar nos olhos, para que as pessoas possam recuperar a esperança e a dignidade que merecem, a dignidade da paz. O povo quer a paz e eu, com o coração na mão, digo aos dirigentes do povo: vamos encontrar-nos, vamos conversar, vamos negociar!».
Centralidade em Jesus Cristo
Quando comparamos as mensagens papais aquando da sua eleição dos pontífices mais recentes, notamos um aspeto curioso de Leão XIV. Com efeito, João Paulo II referia-se a si como o bispo que vinha «dum país distante». Bento XVI referia que os Cardeais escolheram um «simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor». Francisco indicava que os Cardeais foram buscar um Bispo de Roma «quase ao fim do mundo». Leão XIV pouco falou de si próprio. Falou à Igreja no seu todo, à diocese de Roma e à sua diocese de Chiclayo…, mas toda a sua mensagem se centrou em Cristo. Neste sentido, apresenta-se de forma cristocêntrica, traduzindo em discurso direto aquela intuição fundamental da Constituição do II Concílio do Vaticano sobre a Igreja: a luz dos povos é Cristo e a Igreja é seu sacramento, ou seja, sinal e instrumento da presença de Deus (cf. Lumen gentium, n.º 1).
A homilia da Missa com os Cardeais é sintomática desta atitude. O que o Papa referia a respeito da situação dos cristãos no mundo é tradução da sua experiência norte-americana.
Em primeiro lugar, o alerta lançado pela investigação dirigida por Christian Smith e Melina Lundquist que concluíram que a experiência religiosa dos jovens norte-americanos, no início dos anos 2000, era um Fideísmo Moralista Terapêutico (para maior aprofundamento veja-se o livro que condensa a investigação: Soul Searching: The Religious and Spiritual Lives of American Teenagers, Oxford University Press). É necessário um anúncio explícito e uma adesão plena e esclarecida. Era para isto que o Papa alertava quando afirmou: «Ainda hoje, não faltam contextos nos quais Jesus, embora apreciado como homem, é simplesmente reduzido a uma espécie de líder carismático ou super-homem, e isto não apenas entre os não crentes, mas também entre muitos batizados, que acabam por viver, a este nível, num ateísmo prático».
Em segundo lugar, no ambiente pós-Conciliar dos Estados Unidos da América, a experiência do que ficou conhecido como o «cristianismo bege», como designa o Bispo Robert Barron (para saber mais, ver o livro Lançar fogo sobre a terra, Lucerna, p. 97-98). Tratou-se de uma leitura reducionista da fé cristã, combatida por vários teólogos norte-americanos, especialmente Avery Dulles, nomeado cardeal depois de completar 80 anos e muito reconhecido pelos seus esforços numa leitura e aplicação integral do Concílio. A Dulles, os seus esforços motivaram muitas vezes o epíteto de conservador pelos progressistas e de progressista pelos conservadores, certamente sinal de que estava a seguir o caminho autenticamente católico.
Tudo indica que Leão XIV reconhece a fraqueza e fragilidade das leituras parciais do Concílio. Aliás, colocou-o no coração da sua ação enquanto Papa no discurso aos Cardeais, no sábado após a eleição, apelando à convergência no sentido de redescobrir o Concílio: «gostaria que hoje renovássemos juntos a nossa plena adesão a este caminho, que a Igreja universal percorre há décadas na esteira do Concílio Vaticano II». Num tempo em que se procura ser Igreja sinodal, é essencial regressar a um texto como o decreto Apostolicam Actuositatem, sobre o papel dos leigos e a sua responsabilidade na vida e missão da Igreja. Espera-se que este desafio a sermos Igreja sinodal seja expressão de uma tomada de consciência cada vez mais efetiva da filiação divina e da corresponsabilidade de todos na vida da Igreja.
Entre a matemática e o direito
Não passou ao lado de muita gente o facto de termos um Papa formado em matemática. Ao mesmo tempo, o seu doutoramento em direito canónico, sabendo que o direito é a «matemática das letras», também é significativo. Com efeito, o direito canónico foi um tema referido nas Congregações Gerais que antecederam o Conclave (pelo menos referido no dia 5 de maio), mostrando como a legislação eclesiástica é um tema importante. A Igreja é a família dos filhos de Deus e em todas as casas e em todas as famílias há regras para a sã convivência dos seus membros.
Outro aspeto, é a escolha do próprio nome, que o Papa justificou colocando-se na senda do Papa Leão XIII: se este foi o Papa que fez com que a Igreja acompanhasse a Revolução industrial, Leão XIV quer ser o Papa que acompanha a Igreja na transição da «Revolução» que hoje se vive, na indústria, na tecnologia, na Inteligência Artificial. A sua formação de origem não é despicienda neste âmbito. Sobretudo, é necessário desenvolver reflexão ética em relação às questões que se abrem. Neste sentido, é fundamental recordar os princípios fundamentais da Doutrina Social da Igreja e aplicá-los às novas questões. Certamente, teremos muitas novidades em relação ao diálogo com todos os agentes a respeito deste grande desafio nos nossos dias. Importa, contudo, ter consciência que a Igreja não se vai debruçar sobre métodos de computação, otimizações matemáticas ou outros aspetos tecnológicos. A preocupação da Igreja é sempre com o ser humano e como este pode ser sempre mais defendido na sua dignidade. Neste sentido, podemos citar um outro Leão, o Magno, que no século V dizia: «Reconhece, ó cristão, a tua dignidade, pois participas da natureza divina» (Homilia 21, 3).
Que esperar a partir daqui?
Leão XIV começa o seu pontificado em pleno Jubileu e, portanto, com uma agenda preenchidíssima logo à partida. Pode-se recordar o último Papa eleito em ano jubilar, em 1700, pelo menos o único a quem isso aconteceu numa vivência de Jubileu como tem sido experimentada a partir de 1300: eleito no final do mês de novembro daquele ano, conduziu a Igreja até ao encerramento do ano santo, ao mesmo tempo que teve logo de agir como player das grandes tensões que se viviam na Europa, que viriam a fazer eclodir a Guerra da Sucessão Espanhola, em 1703. Leão XIV torna-se Papa ainda com mais de metade do ano jubilar a ser vivido, mas isso oferece-lhe, desde logo, oportunidades para se dirigir à Igreja no seu todo e a grupos particulares. Basta pensar que terá no final de julho o Jubileu dos jovens e na mesma altura o Jubileu dos evangelizadores digitais, além de muitos outros grupos até ao final do ano.
Habitualmente, os pontificados são marcados por um primeiro documento programático. João Paulo II publicou a Encíclica Redemptor Hominis. Bento XVI a Encíclica Deus caritas est. Francisco a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. A mudança de tipo de documento não é indiferente. Com efeito, Francisco mudou o tipo de documento também para corresponder à Assembleia do Sínodo dos Bispos sobre a Evangelização, cujas conclusões ainda não tinham sido lançadas pelo Papa Bento, e que Francisco recolheu no seu documento, ainda que tenha optado por não ser uma Exortação Pós-Sinodal, oferecendo-lhe um âmbito mais amplo. Será que, dado que a Assembleia do Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade não resultou numa Exortação e Francisco assinou como magistério ordinário o Documento final, Leão XIV oferecerá agora uma Exortação em que recolhe e amplia elementos daquele documento? Aliás, o Documento final não é daqueles documentos do magistério a que estamos habituados, uma vez que é o resultado de uma Assembleia sinodal, que na busca de consensos nem sempre oferece textos de leitura mais escorreita. É uma dúvida que só o tempo poderá esclarecer. Mas não deixa de ser uma oportunidade para colocar no centro do seu magistério pontifício a sinodalidade e de a operacionalizar na vida e na missão da Igreja.
Concluo, regressando à mensagem por ocasião da bênção Urbi et Orbi, logo após a eleição. Por treze vezes Leão disse a palavra «todos», palavra que permanece como imagem de marca do pontificado de Francisco. Há uma continuidade entre Papas e a missão da Igreja é realmente ser sinal e instrumento do amor de Deus para todos, chamando à comunhão com Deus. Por isso, em cada novo pontificado, vemos como a Igreja é especialista em «ressuscitar», como escrevia G. K. Chesterton: «O cristianismo morreu e renasceu muitas vezes, porque tinha um Deus que sabia ressuscitar» (O homem eterno, Aletheia, p. 341). Leão XIV é sinal dessa vida que sempre se renova e de uma Igreja que sempre se sabe enviada por Deus a ser construtora da paz, da civilização do amor e de uma humanidade chamada à vida eterna.