Sim. É a resposta à pergunta do título. Um duplo convite. Aos pais e aos filhos adolescentes. Todos podem ver. O dia, a hora, em quantas sessões, e o número de intervalos, isso cada família decide como será adequado usar o seu tempo de ecrã.

Este duplo convite tem uma questão essencial: precisamos de falar, com os nossos filhos adolescentes, sobre um tema que está a acontecer na sua vida, no consumo que fazem de redes sociais – o cyberbullying.

Este pode ser o início de uma conversa: “a propósito desta série… já contactaste com comunicação negativa ou de ódio nas redes? Como te sentiste? O que fizeste?”

A série pode ser o mote para uma discussão sobre o tema, e assim, aceder ao mundo interno do adolescente – o que pensa, o que sente e o que acha que se deve fazer. Uma conversa com escuta ativa e sem juízos de valor.

A investigação internacional e nacional sobre esta temática e a experiência direta com adolescentes, em consulta e em contexto escolar, reforça que existe comunicação negativa, abusiva e agressiva nas interações online. Uns são vítimas, outros agressores, e ainda outros são espectadores.

A serie Adolescência, de Jack Thorne e Stephen Graham, passa a bola para os pais. Se damos um ecrã a um adolescente, então estamos a permitir que ele tenha acesso a conteúdos durante um determinado tempo – só isto tem, desde logo, a seguinte questão: ao darmos acesso a uma “janela aberta para viajar” no mundo online não será importante acompanhar essa viagem, por exemplo, na compra dos “bilhetes” e nos “destinos” a visitar?

Sim. Assim como não deixamos uma criança de dois anos sozinha para atravessar uma estrada, precisamos de estar presentes e supervisionar o tempo de ecrã e os conteúdos visualizados. Não é de controlo que se trata. Trata-se de estabelecer regras e limites, decididos por cada família, onde se debate com juízo critico o que é adequado ou não online, de acordo com a idade, o nível de literacia digital e a capacidade de regulação do comportamento e das emoções.

Na adolescência há uma neuroplasticidade cerebral que permite abraçar as mudanças físicas, psicológicas e sociais, e pode ser mais exigente estabelecer limites face a tantos desafios. Todos os adultos se lembraram de algum risco que correram na adolescência que, aos dias de hoje, assim avaliam, e que consideram imprudente voltar a repetir. Quando se está à distância de um click pode ser mais fácil colocarmo-nos em risco.

Dito isto: se não convidamos os nossos filhos para ver uma série, um filme, um documentário, uma notícia, um post, um reel, uma story, sobre algo relevante online e que pode ter impacto para o seu desenvolvimento, provavelmente eles já a viram, mas sozinhos, sem um “adulto na sala”, sem partilha de ideias, sem uma conversa onde existe o tal juízo critico e não os juízos de valor, quanto ao que será mais adequado ou não fazer.

Nós aprendemos por imitação, por ver os nossos modelos, e pelo reforço que dão ao nosso comportamento. Não queremos, com certeza, que os nossos filhos aprendam a imitar o que vêm de negativo nos ecrãs, com um seguidismo de modelos pouco saudáveis, que reforçam condutas inapropriadas.

Queremos que sejam uns espectadores passivos ou ativos?

É importante que todos, em família, sejam espectadores ativos, isto é, que apliquem a “netetiqueta”, com um discurso ajustado a cada idade e promotor do bem-estar digital. O que acontece nos ecrãs não tem de ser só falado a partir dos 13 anos, o limite recomendado pela Netflix para ver a série Adolescência (idade adequada, na minha opinião, desde que o jovem tenha capacidade para tal, do ponto de vista da literacia digital e regulação do comportamento e emoções).

Na verdade, o que acontece nos ecrãs pode e deve ser falado desde que se introduz a tecnologia na vida de uma criança. Precisamos de abordar não só os riscos online, mas também de treinar a comunicação positiva.

Os adolescentes viciados nos ecrãs estão a ficar menos ligados à sua vida, às suas pessoas, estão menos empáticos, sem conseguirem perceber o impacto que a sua forma de comunicar online pode ter nos outros. Sendo a adolescência um estádio do desenvolvimento importante para a definição da identidade e para a estimulação de competências sociais fica, desde logo, reforçada a necessidade de “batermos à porta do quarto” dos nossos filhos e entrarmos. Não se trata de invadir a privacidade. Trata-se de não perder a ligação. Trata-se de manter um canal de comunicação aberto. Trata-se de conhecer os seus interesses e preferências.

Os pais de Jamie Miller, o jovem protagonista da série Adolescência, deram-lhe acesso aos ecrãs e nunca entraram no seu quarto, pouco conheciam do seu mundo interno. É importante nós, adultos, não colocarmos os riscos virtuais como elefantes no meio da sala. Se não falamos, se tapamos os olhos, se não escutamos, podemos contribuir para o aumento do seguidismo e validação, pelos nossos filhos, de modelos online negativos.

PS: Deixo mais um duplo convite. Este dirigido a pais e professores, para que desafiem os jovens entre os 16 e os 25 anos a responder ao estudo nacional Ciber Young Security, desenvolvido em parceria com o Centro Nacional de Cibersegurança, com o objectivo de analisar os factores que explicam a tomada de decisão para o ciberisco.

Ivone Patrão é psicóloga clínica, com prática privada. Docente no ISPA – Instituto Universitário, é coordenadora do estudo CyberYoungSecurity, em colaboração com o Centro Nacional de Cibersegurança. É autora de Geração Cordão (ed. Pactor) e Ainda Vamos a Tempo (ed Contraponto).  

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

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