Preludium
Consumada a primeira volta das Eleições Presidenciais de 2026, a exegese política tem-se multiplicado em torno das causas – e, de algum modo, das consequências – dos resultados obtidos por cada um dos seus principais protagonistas.

Nesse contexto, parece-nos pertinente procurar desvendar a anatomia profunda do mais recente sufrágio, antes que a espuma dos dias e o ruído conjuntural obscureçam a realidade dos factos.

Desde logo, haverá que salientá-lo sem hesitações: os dois candidatos mais votados na primeira volta, António José Seguro e André Ventura, emergem deste escrutínio com uma legitimidade democrática particularmente assinalável.

Para o efeito, basta constatar que a soma das suas votações alcança o expressivo valor de 54,63% do eleitorado. Mais, ao contrário do que sugeriram certas vozes mais desatentas, em momento algum da noite eleitoral se vislumbrou um desfecho distinto.

É, pois, chegado o momento de dissecar a trilogia de participantes – diretos e indiretos – nestas eleições, recorrendo a uma classificação que nos parece ajustada ao critério da validação, ou rejeição, do respetivo projeto político: os vencidos, os derrotados e, não menos importante, os arrependidos.

Os Vencidos

No grupo dos vencidos situam-se, com particular nitidez, João Cotrim de Figueiredo e Henrique Gouveia e Melo.

No caso de Cotrim de Figueiredo, e não obstante alguma disrupção oferecida pela respetiva campanha, a sua candidatura permaneceu confinada a uma base essencialmente jovem e urbana, que oscila entre a social-democracia e o liberalismo económico e social, que se revelou insuficiente para disputar o amplo eleitorado de centro, dividido com António José Seguro, Henrique Gouveia e Melo e Luís Marques Mendes.

Quanto a Henrique Gouveia e Melo, a respetiva candidatura – desprovida de conotação partidária e capaz de, no limite, pôr termo ao mito antimilitarista que, de alguma forma, perdura desde a Revisão Constitucional de 1982 – poder-se-á referir que sucumbiu ao pragmatismo do voto útil e, bem assim, à (ainda assim, assinalável) resiliência do sistema de partidos, que já integra o Chega como ator consolidado.

Ainda assim, o principal efeito tático para parte dos apoiantes de Gouveia e Melo parece ter sido atingido: a erosão da candidatura de Marques Mendes, que encontrou o seu zénite negativo precisamente no confronto dialético com o Almirante – com destaque para o debate televisivo do passado dia 22 de dezembro.

Os Derrotados

No plano dos derrotados, figura inequivocamente o Partido Social Democrata (PSD), personificado, desde logo, no seu líder e Primeiro-Ministro, Luís Montenegro.

Sendo a escolha de Luís Marques Mendes uma opção totalmente legítima, facto é que o apoio formal do PSD não só não logrou salvar a respetiva candidatura, como, de igual forma, acabou por contribuir para a fragilização da autoridade política do Governo, doravante confrontando com um Presidente da República cuja matriz de pensamento poderá ser, a vários e importantes níveis, relativamente dissonante.

Ao apostar num perfil institucional e mais clássico, num momento de profunda convulsão antissistema na generalidade dos sistemas políticos, o PSD de Luís Montenegro não só ficou conotado com o falhanço no acesso à segunda volta por parte da candidatura de Marques Mendes, como, de igual forma, permitiu que o eleitorado da direita política fosse (agora, em larga medida, conforme entendemos) capturado por André Ventura.

A estrondosa derrota de Marques Mendes é, nessa exata medida, a derrota de uma estratégia de contenção que se revelou totalmente anacrónica perante a nova geografia do descontentamento em Portugal.

Ver-se-á até que ponto André Ventura conseguirá capitalizar esta circunstância e conseguir albergar alguma parte dos votos anteriormente atribuídos a Cotrim de Figueiredo, Gouveia e Melo e ao próprio Marques Mendes.

Os Arrependidos

Depois das referências anteriores, isolar um grupo de arrependidos pode parecer paradoxal num sufrágio de cunho tão marcadamente pessoal.

Todavia, esta primeira volta expôs a existência de um contingente específico: os eleitores da Aliança Democrática (AD) que, ora movidos por uma necessidade de mudança de estilo na Presidência da República, ora face à consolidada rejeição da candidatura de Marques Mendes, fragmentaram os votos ao nível de todo o centro-direita.

Desta forma, neste grupo de Arrependidos incluímos todos aqueles que, divididos entre a lealdade institucional a Marques Mendes e o fascínio pelo arquétipo da “ordem” de Gouveia e Melo – ou, no limite, pelo discurso disruptivo de Cotrim de Figueiredo –, acabaram por entregar o lugar na segunda volta, bem como reforço no monopólio da oposição, a André Ventura.

Porventura de forma mais problemática no momento atual, estes Arrependidos são, agora em definitivo, órfãos involuntários de uma segunda volta onde o seu pensamento político está, em larga medida, ausente – com consequências que, a todos os níveis, não nos parecem poder excluir todos os cenários em equação.

Posfácio de uma segunda volta

Contrariamente ao que um cenário de vitória de António José Seguro possa sugerir, nem mesmo o próprio PS poderá reclamar a parte significativa dos respetivos louros – ora porque o candidato continua a não ser consensual internamente ora, não menos relevante, porque tal é dificilmente compaginável com a posição de um Secretário-Geral ainda à procura de consolidar o seu lugar e respetivo capital político.

Ao mesmo tempo, a expressiva votação em André Ventura e a notória fragmentação das direitas demonstram que Portugal está sociologicamente mais à direita do que as suas instituições de poder deixam transparecer.

Assim sendo, a segunda volta, de 8 de fevereiro de 2026, configura-se como a verdadeira antecâmara das futuras eleições legislativas – não tanto pelos candidatos, alguns dos quais poderão coincidir – mas sobretudo pelo confronto entre os espetros político-partidários com efetiva capacidade eletiva: de um lado, a AD (procurando a sobrevivência do atual figurino governativo), e, de um outro, em termos cada vez mais proeminentes, o Chega.

Em face do exposto, e por paradoxal que pareça, não será de excluir que, pelo menos na próxima década, as Eleições Presidenciais continuem a ter a função que a atual Primeira Volta já evidenciou: uma antecâmara das eleições legislativas subsequentes. Ou, no limite, o ingrediente que faltava para a sua precipitação.