Uma das mais belas e enigmáticas definições de salubridade psicológica devo-a a Henry James, que quando picado em relação a um possível casamento, afirmava airosamente «tal como estou sou bastante feliz e bastante infeliz, e não desejo acrescentar nada a nenhum dos pratos da balança». O quantificador existencial é dúbio: como o devemos interpretar? Podemos começar por um par de premissas: ninguém é suposto ser perpetuamente infeliz; ninguém é devedor eterno a um estado de felicidade. A flutuação contida de humor, entretida numa dobra positivo-negativo, é o estado, ou melhor, o conjunto de estados, que de forma mais satisfatória conduzem o indivíduo pela vida fora. A boa psicologia enquadra-se nos mínimos e adestra-se nos baixios da alma – não nos cumes dos picos das mais altas montanhas onde o ar é rarefeito nem nas profundas depressões das fossas oceânicas onde a pressão atmosférica é descomunal. O equilíbrio mental nada deve a acrobacias no arame; pelo contrário, o funambulista é dado a desperdícios e a estapafúrdios que cedo o colocam em perigo, tudo a troco de uma ovação. Se um político faz tudo por um voto, um funambulista tudo arrisca por um aplauso. Um ser consumido pelo ego ou pela fama, um ser egoísta, egotista e vaidoso, está condenado a um descalabro existencial – Emanuelle Carrère foi, durante muitos anos, a crer nas suas próprias palavras, esse homem na corda-bamba que vivia obcecado com a sua persona. 

Churchill, sabiamente, dizia que um escritor escreve para ser lido, para obter lucro, para que as suas obras sejam vendidas, e o homem de letras que o negasse ou era um mentiroso ou era um tolo. Carrère situa-se um passo mais à frente – em direção ao abismo: o desejo obsessivo de se tornar uma estrela literária, essa cegueira levada ao ponto de não conseguir amar, ao ponto de perseverar num casamento infeliz – pois transporta a infelicidade para aonde quer que vá – conduzem-no necessariamente a um tempo de vésperas. Se a pessoa em questão sobre de perturbação bipolar, o panorama adensa-se. O sucesso alcançado nunca é suficiente – e o autor, quer na literatura, quer no cinema, foi por ele agraciado.

Chega uma altura em que a estrutura tem de ceder. Na sua tentativa de escrever um “livrinho” sobre o yoga, ensaio com enredo de espionagem, vai acabar por relatar um encerramento numa espessura mínima e claustrofóbica, que a par de não se dar conta de ter sido nela emparedado, não conhece nem vislumbra saída – a não ser, várias vezes equacionada, a morte por suicídio. O diagnóstico é cruel: depressão melancólica. Investigo – apesar de Carrère o descrever de forma crua e suficientemente detalhada – e percebo, ao nível e no limite que um gentio pode abarcar, que se trata de um episódio severo de depressão. Desculpem a longa citação (retirada do site do Brain Center): A depressão melancólica é um tipo comum de transtorno depressivo maior que se caracteriza pelo estado de humor melancólico como predominante. Na maioria dos casos é uma doença que se instala de maneira silenciosa, com a pessoa não sabendo diferenciar quando o estado de humor se tornou um transtorno depressivo.  Na mouche. E logo de seguida: Perda de prazer por atividades em geral; falta de reação a estímulos considerados agradáveis; Humor deprimido mais intenso de manhã, com despertar durante a noite (o que pode levar à insónia ou sonolência excessiva); Perda de apetite que leva à perda de peso; Culpa excessiva; Retardo ou agitação psicomotora; Diminuição da capacidade de tomar decisões; Ideação e comportamentos suicidas. Um cenário dramático. O gaulês, com uma temperança grega, descreve ao pormenor passagens quotidianas em que o realismo cede lugar à candura, como no gesto anódino de levar uma colher à boca, compostura atravessada por uma paisagem catatónica aparentemente sem fim. Uma das formas de tratar do padecimento, ou melhor, de atenuar o sofrimento (não se trata de uma cura) é recorrendo à eletroconvulsoterapia. O nosso escritor não lhe escapou.

“Ou então, pode viver”. Um murro no estômago! Acariciando na sua mente a ideia de términus, o ouvinte dá-lhe corda, soltando o seu devaneio – até que lhe atira: “Ou então, pode viver”. Esta frase cáustica do seu psicanalista (já depois das sessões de eletrochoques) produz um efeito, que embora ao retardador, vai fazendo o seu caminho, e Carrère vai recuperando a vontade e o humor, até aí sepultados num torpor e sofrimento angustiante. A transformação é alimentada pelo auxílio a um grupo de jovens refugiados numa ilha grega, como se a salvação residisse em sair de si, em invaginar-se, em romper com o ensimesmamento como rotina e forma de vida – como vimos, uma forma de vida decrépita. O seu espírito, que se arrastava pelo chão, chão áspero e cortante, inicia um percurso: primeiro de gatas, soçobrando aqui e ali; a forma bípede chega mais tarde, com abanões e safanões – porém, assume finalmente e decididamente a verticalidade, e a besta devém humana. A mente recupera.

O livrinho sobre yoga nunca tomou a forma pretendida. Malgrado a lista de definições sobre a prática oriental que lhe consegue resgatar, em que todas se complementam, Yoga acaba por descrever uma experiência limite. Se no fim há esperança, o autor não desconhece a efemeridade desse bem-estar. Como numa zona sísmica, o terramoto voltará e a terra irá tremer. Essa lição foi aprendida. É um livro corajoso: o francês não se inibe de pôr a alma a nu perante um holofote carregado e sem filtros que a faz transparecer e resplandecer, na sua negrura e na sua beleza, respetivamente. “Sou um homem mau”, esclarece neste livro aberto e franco, honesto (mas não livre). E talvez o fosse no início, no recinto de yoga. Qual de nós tem essa honestidade? Qual de nós tem essa pretensão?

Defendo que a analogia vence entre a economia e a literatura: entre a entrega de um autor e a nossa demanda e exigência enquanto leitores, aprovamos ou reprovamos certos livros. O mais certo é ficarmos em dívida perante as oferendas, e temos de viver com isso. Os nossos escritores prediletos perdoam-nos os favores que nos fazem. Acredito nisso. Aposto a minha sanidade mental.