O Catecismo da Igreja Católica é claro: o ‘aborto direto’, querido como um meio ou como um fim, e também a cooperação nele, é crime que leva consigo a pena de excomunhão. A seguir, insiste: o direito inalienável à vida de cada ser humano, desde a sua conceção, é um elemento constitutivo da sociedade civil e da sua legislação. Tal fundamenta-se, claro está, na origem da Vida e em particular na criação do ser humano à imagem de Deus. Somente Deus tem o poder de dar a vida e de a retirar.

Obviamente que na contemporaneidade nacional, com a secularidade estonteante do Estado, apenas estão em causa as ações dos católicos; os praticantes de outras confissões e religiões, ou aqueles sem qualquer crença sobrenatural, não são obrigados a seguir o quinto mandamento. Para os de Roma, os mandamentos divinos são imperativos morais, nos antípodas do imperativo hipotético kantiano. Como a água se traduz quimicamente em H2O, também as normas da moralidade não apresentam qualquer dúvida ou dificuldade de interpretação. Eu Sou Aquele que É, afirma o ser divino. Cristalino. Se a hermenêutica permite a interpretação e a subjetividade, não estando a própria Bíblia imune, existem determinadas passagens, certas afirmações do Livro – alguns filósofos diriam, crenças fundacionais e básicas – que estão gravadas em pedra. Não admitem desculpas pragmáticas nem desorientação teológica.

Sendo professor e lidando de perto com jovens, já me apercebi há algum tempo que vigora a extrema confusão e a ignorância em relação ao tema proposto neste artigo. Os poucos – cada vez menos os há e cada vez ainda menos o assumem – que se dizem católicos apostólicos romanos (todos desconhecem a designação completa) afirmam no mesmo passo, qual necessidade lógica, que são a favor do aborto. Nos debates filosóficos que provoco nas aulas a contradição está patente e, quando faço gala de ditar o Catecismo, o paradoxal entra em ação: num sistema à la carte, permitem-se escolher o que lhes convém, não permanecendo com qualquer peso na consciência nem sequer chegando à sua mente o conceito psicológico da dissonância cognitiva. No seu entender, é natural – e talvez sobrenatural – agir, sentir e pensar desta forma, ficando o seu livre-arbítrio disponível para pick and choose o mais agradável ou o que está na moda dentro dos requisitos da religião.

Pela minha experiência, não adianta chamar a atenção para a clamorosa falha religiosa: vão à Missa, dizem as orações e fazem os preceitos sem ínfima pista de remorso. Trata-se de uma secularização da religião, de uma perspetiva new age que busca o mínimo desconforto possível. Como a ida ao ginásio, comparecem aos sacramentos, ignorando por completo que arriscam a excomunhão e que estão em pecado mortal – e nada referem na Confissão. De consciência tranquila.

Um evento curioso e elucidativo sucedeu num desses últimos debates que fizemos, no qual a temática veio à tona. A aluna angolana, recentemente chegada ao Colégio, na sua inocência declarou que era absolutamente contra a prática do aborto. Ambos os lados ficaram escandalizados: a recém-chegada, porque no seu ambiente familiar e social, mas acima de tudo, na sua consciência enquanto cristã, era da ordem H2O o mandamento divino; os colegas, porque havia alguém, no século XXI, e ainda mais grave, um exemplar do sexo feminino, que estava em clara oposição à sua opinião, opinião dentro dos cânones do progresso, da liberdade e da atualidade – e claro, dos direitos da mulher. Retrógrada regada de obscurantismo, foi em súmula a adjetivação até eu intervir rapidamente, acalmando as emoções. Os alunos nacionais invocaram-me, perdidos e atónitos, desnorteados, e lá tive de repetir as teses expostas neste artigo. Não os deteve – aquilo não entrava na sua mentalidade jovem e pós-moderna.

Uma estranha na terra, no país e na cidade, relevava o óbvio: sendo cristã, no caso, o que não deixa de ter importância e de ser revelador, protestante, era obrigada enquanto fiel a seguir a Bíblia. Confessar uma religião significa, deste ponto de vista, ser-se fundamentalista.

Em Portugal, a legislação sobre o aborto, se fôssemos um extraterrestre acabado de chegar ao planeta azul e ao retângulo, poderia parecer-nos equilibrada, civil e sociologicamente. Não vou afirmar o contrário. Somente pretendo chamar a atenção para a ignorância dos preceitos religiosos para os que se dizem do lado da mundividência cristã. A Hierarquia em Roma (e em Lisboa) deve questionar-se acerca do panorama. A mim, parece-me que o tempo papal e episcopal é passado a discutir política e diplomacia, à maneira da ONU, em vez de afirmar com ímpeto – com força diluviana – os preceitos que comandam há mais de dois mil anos a vida cristã. Não nos esqueçamos: – Vós pensais que eu vim trazer a paz sobre a terra? Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer divisão (Lc 12, 49-53). Pior do que discutir política, parece-me, é ser politicamente correto. Os verdadeiros fiéis seguirão a Verdade, custe o que custar. E se muitos jovens preferirão sofrer às mãos do seu personal trainer, outros não irão querer esquivar-se à Lei rigorosa do Senhor.