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Está na hora de viajar pelos cinco continentes. Já sabe que é por aqui, na Rádio Observador, que analisamos todas as semanas a geopolítica internacional e sempre em boa companhia, com a ajuda do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, hoje não estás nos Estados Unidos, até estás mais perto de nós, em Roma. Bem-vindo, como é que estás? Sempre a viajar.
Obrigado. Sim, exato.
É a percorrer os cinco continentes.
Sim, vim aqui para Roma. Exato, estou a tentar fazer o possível por isso, mas desta vez é mesmo só entre a América e a Europa. Vim aqui a uma sessão bastante interessante no Colégio de Defesa da NATO sobre este tipo de ataques híbridos, que agora está infelizmente muito na moda. Ações de sabotagem, todo tipo de ações que não são bem guerra, mas que muitas vezes têm efeitos parecidos.
Não sei se fica a faltar algum, Bruno. Já fizeste a partir de Moçambique, África, Estados Unidos, agora Europa.
Acho que temos de tentar a Ásia.
Sim, por aí.
Oceania, sim.
Ainda vamos a tempo.
As Fiji, algo assim. Temos falado bastante das ilhas do Pacífico, mas infelizmente não a partir das ilhas do Pacífico.
Temos de fazer uma visita de estudo até lá.
Exato.
Esta semana temos muitos assuntos para analisar e temos mesmo de começar pela Síria e pela queda do regime de Bashar al-Assad. Aliás, foi um assunto que também marcou o episódio da semana passada. Terminou esta semana um reinado de 24 anos com a tomada de Damasco pelos rebeldes. Parece que desta vez, Bruno, foi tudo muito depressa. Como é que se explica este colapso?
No fundo, confirmou-se a previsão que o regime estava realmente em risco e que Damasco podia rapidamente cair.
Certo.
Por que eu achei que isso podia acontecer, por exemplo, ao contrário de 2011? Em parte, por razões que já falámos na semana passada, fatores mais estruturais que têm a ver com um certo esgotamento do regime, sobretudo porque depois desta espécie de vitória parcial, de eles voltarem a controlar à volta de dois terços do país, as principais cidades, a partir de 2020, de um certo congelamento do conflito, a verdade é que não se iniciou qualquer processo de reconstrução, porque a China, por exemplo, que também apoiou o regime de Assad, sobretudo diplomaticamente, nunca se show à frente em termos de investimentos. Não há ali grande dinheiro a ganhar, não há grandes recursos minerais, o petróleo até está controlado pelos curdos e portanto a Rússia e a China são muito bons a apoiar este género de regimes autoritários, mas a Rússia tem pouco dinheiro para investir, portanto é sobretudo armas, apoio militar, mercenários, neste caso apoio aéreo, apoio diplomático e no caso da China, muitas vezes há realmente a dimensão económica de investimento, mas é se isso interessar também à China, se for economicamente interessante. E portanto foi muito claro, por exemplo, nas declarações que até fui ouvindo, que realmente havia aí um certo esgotamento até de grupos que tradicionalmente apoiavam o regime. Não houve também qualquer tipo de reforma nem de abertura do regime, em termos de ser menos repressivo, ser menos corrupto. Depois, esta questão dos apoios externos, ou seja, a Rússia muito ocupada com a Ucrânia, muito desgastada com a Ucrânia, portanto, desse ponto de vista limitado no apoio que podia dar, e o Irão e o Hezbollah muito desgastados pelos ataques israelitas. Mas além disso, também é importante esta ação de uma certa consolidação da oposição sunita em torno de Julani e em torno deste movimento da Organização de Libertação do Levante, a Hayat Tahrir al-Sham, que realmente mostrou essa sim alguma disponibilidade para mudar. Durante muito tempo com grandes desconfianças, até que ponto é que se tinha realmente afastado, cortado com a Al-Qaeda, mas aparentemente o suficiente para deixar de ser visto como um risco para a segurança de outros países da região, porque é preciso recordar que estes grupos jihadistas muitas vezes atacam outros muçulmanos noutros Estados que são vistos como excessivamente moderados ou comprometidos com o Ocidente, como a Turquia ou a Jordânia, por exemplo, ou evidentemente a Europa. E isso também, sobretudo, disponível para uma postura mais conciliatória, vista como menos ameaçadora em relação aos grupos minoritários que são muito numerosos na Síria, como já aqui referimos. Hoje não sabemos muito bem como é que estão essas estatísticas demográficas, mas talvez à volta de 40% da população sejam outros grupos que não árabes sunitas, curdos, drusos, cristãos de vários tipos e os próprios alauítas. E depois há a dimensão mais contingente e se quisermos mais militar, ou seja, este movimento claramente estava bem armado, estava bem comandado, bem coordenado, moralizado e mobilizado, conseguiu levar a cabo operações de alguma complexidade, ou seja, manobras envolventes, tipicamente ao tomar estas cidades sucessivamente e com grande rapidez, eles faziam movimentos entenares, ou seja, no fundo ameaçavam cercar essas cidades e isso muitas vezes levou os soldados do regime já pouco mobilizados para resistir, a temerem precisamente serem capturados, eventualmente serem eliminados e portanto fugirem antes de serem cercados, no fundo entrarem de bandada.
O que é isso dos movimentos entenares? É cercar das povoações?
Exatamente, no fundo é coordenar suficientemente as forças para, em vez de fazer um ataque frontal, vamos dizer, chocar de frente com uma linha defensiva, isso muitas vezes até propicia a defesa, fazer um movimento de contornar essas defesas pelos flancos, pelo lado esquerdo, pelo lado direito, se quisermos, fazer um pouco o movimento em curva para ameaçar cercar, cortar a retirada dessas tropas. E depois também, este movimento de debandada muitas vezes é contagioso, foi o que vimos também um pouco no Afeganistão. Quando se começa a ver este espetáculo de forças bem armadas, que era suposto serem forças de elite que estavam nas linhas da frente mais ativas a debandarem, a entrar em colapso, isso tem o efeito muitas vezes realmente de desmoralizar também, desmobilizar as outras forças que ainda vão arrastando. E depois, obviamente, começa a haver também suspeitas de que os líderes já não estão no país, começaram a circular esses rumores. Não sabemos exatamente quando é que Bashar al-Assad saiu da Síria. Portanto, é sempre esta ideia: quem vai ser o último a morrer por um regime que já caiu. Quando se entra nesse tipo de lógica, o colapso muitas vezes acaba por ser inevitável.
Bruno, sai Bashar al-Assad, ainda não percebemos bem o que é que entra. Há promessas do líder vitorioso, já aqui falámos, já aqui falaste de Muhammad al-Julani, principalmente promessas de respeito pelas minorias, mas também já sabemos que o novo governo da Síria vai congelar a Constituição e o Parlamento por três meses. O que é que afinal se vai seguir internamente? Já é claro?
Não é claro completamente e há muitos aspetos cruciais que não são claros. O que é claro é a queda do regime, isso é bastante evidente. Ainda houve alguns analistas em Portugal que parecia que estavam à espera de uma espécie de ressuscitar do regime, não percebi muito bem em que termos ou com que base, ou uma espécie de recuperação do apoio russo que não tinha ainda vindo, mas viria, porque não tinha sido pedido na altura devida. Mas realmente essa queda é bastante evidente e como também muitas vezes acontece com estas ditaduras, de repente ninguém apoiou a ditadura. Mesmo os que apoiaram deixam de apoiar, passaram sempre a ser opositores secretos. Portanto, essa queda de um regime de 24 anos com Bashar al-Assad, que se estende, que tem mais de 50 anos, recua a 1970, 71 com o pai, com Hafez al-Assad, temos mais de cinco décadas deste regime dinástico que realmente caiu. Também sabemos, apesar de tudo, que há uma questão importante: não houve até agora notícias de massacres, não houve até agora notícias de repressão generalizada, de hostilidade contra os grupos minoritários. Pelo contrário, as palavras, a postura da liderança vitoriosa parece ir no sentido certo. Isso parece estar a ter algum efeito. Agora, a grande dúvida é: isto é uma tática de curto prazo? Ou seja, aquilo exatamente que os talibãs fizeram no Afeganistão, para conquistar o poder, para desmobilizar a resistência, aparecerem com uma face mais moderada, mais tolerante, declararem que querem ter um governo inclusivo, etc. E depois à medida que consolidam o poder, muito rapidamente começam a ter uma postura cada vez mais autoritária, repressiva dos direitos das mulheres, dos direitos das minorias, etc. Esse aspeto ainda ficará por esclarecer. No fundo, nós temos aqui esta questão fundamental que é sempre importante recordar que é: derrubar uma ditadura não é a mesma coisa que instalar uma democracia.
Claro.
Uma mudança de regime não é a mesma coisa que democratização. Podemos ter a queda de uma ditadura e depois ou uma guerra civil ou uma consolidação autoritária de outra ditadura, de uma ditadura de tipo diferente. Por exemplo, o caso do Irão. No caso do Irão em 1979, tivemos uma revolução muito violenta, que derrubou uma ditadura também bastante repressiva do Xá do Irão, do Xá Pahlavi, mas o que se seguiu não foi a democracia, como muitos iranianos esperavam, foi um regime teocrático dos aiatolás que se mantém até hoje. Não é inevitável que haja aqui um processo de democratização, também não é inevitável que haja uma repressão generalizada e não é completamente impossível que a guerra civil ainda regresse à Síria. Sobretudo há a questão dos curdos, há a questão da Turquia e da sua enorme hostilidade e desconfiança em relação aos curdos, controlam a zona do leste. Essa é desde logo uma grande interrogação, o que vai acontecer com os curdos, qual vai ser o papel da Turquia. Mas sobretudo, não temos também ainda a certeza qual será realmente o perfil do novo regime e até que ponto é que ele será realmente inclusivo. É pouco provável que seja um regime democrático, digamos, pluralista no sentido ocidental, no sentido europeu do termo. Já não seria mau se não fosse um regime altamente repressivo, teocrático, que obviamente poderia inclusive levar novamente a crises de refugiados, ou seja, à fuga destas minorias, e eventualmente também dificultar o regresso dos milhões de sírios que estão a viver no exterior, a começar pelos três milhões que estão na Turquia ou um milhão que está na Alemanha.
São dúvidas que vão continuar a pairar no ar, pelo menos nesta primeira fase. E Bruno, ainda sobre a Síria, muito se falou da importância da Rússia e do Irão no apoio ao regime de Assad e o fato de parecerem ausentes desta vez, acho que é aquilo que salta mais à vista. Para além destas alianças, qual é o impacto regional e global desta queda do regime sírio?
Realmente é de assinalar essa ausência. Do meu ponto de vista, não faz nenhum sentido dizer que a Rússia esteve ausente porque não lhe foi pedida ajuda. É evidente que o regime desesperadamente precisava de ajuda e terá pedido também desesperadamente. Houve até alguns ataques aéreos por parte da Rússia. A questão é, quer em termos mesmo de meios aéreos, mas sobretudo em termos de meios terrestres, realmente a Rússia não tem uns milhares de forças especiais que pudesse enviar rapidamente pra Síria, não tem meios aéreos disponíveis, munições, etc, disponíveis para rapidamente enviar pra Síria em quantidade, como teve, por exemplo, a partir de 2015, porque tudo isso está altamente comprometido por causa do conflito na Ucrânia, em que sabemos que houve centenas de milhares de baixas, em que sabemos que muitas dessas baixas são destas forças de elite, em que há um enorme empenho de meios aéreos, de mísseis, de todo tipo de meios aéreos para fazer aqueles ataques constantes sobre a Ucrânia. Muitas vezes temos a indicação de que há limitações até no arsenal disponível, por exemplo, porque a Rússia está a recorrer a mísseis, a drones, a mísseis da Coreia do Norte, a mísseis e a drones do Irão. Tudo isso obviamente explica esta relativa ausência. No caso do Irão Quem é que é o grande derrotado? As próprias declarações do guia supremo, queixando-se da intervenção americana e israelita, de uma forma um pouco delirante. Israel teve aqui um papel muito importante, mas indireto. Os Estados Unidos não parecem ter tido grande papel. O grande papel foi, sobretudo, da Turquia, que significativamente o guia supremo do Irão, que também não quer ter demasiadas tensões com a Turquia, referiu indiretamente. Referiu que ainda havia uma terceira potência que também tinha tido aqui um papel muito negativo, mas não a nomeou. Mas realmente a Turquia teve aqui uma vitória importante, conseguiu finalmente alguns resultados, depois de muitos anos de investimento em recuperar a influência no Médio Oriente, com vários falhanços, vários fracassos importantes, desde a Líbia ao Egito, sobretudo, tensões muito grandes a certo momento também com a Arábia Saudita, basicamente agora consegue aqui uma vitória numa vizinhança próxima, e portanto isso é o que parece aqui mais evidente. Os Estados Unidos parecem estar a tentar perceber o que se está a passar. Portanto, longe de terem tido aqui um papel dominante. Eu diria que, aliás, este conflito reflete muito o que está a acontecer e o que vai acontecer com a retirada dos Estados Unidos, este retraimento dos Estados Unidos de várias regiões do mundo, ou seja, no fundo, criar um certo vazio de poder que depois outras potências regionais, locais tentam preencher e muitas vezes isso leva a conflitos entre elas, porque não se entendem sobre quem é que deve substituir o papel dominante dos Estados Unidos e entram em choques violentos. E portanto, significativamente, o secretário de Estado, o chefe da diplomacia norte-americana, Antony Blinken, foi à região, já esteve na Jordânia e na Turquia, que são países vizinhos da Síria, para tentar perceber exatamente o que se está a passar e para passar esta mensagem que para os Estados Unidos é possível até reconsiderar a classificação do grupo que agora tomou o poder como um grupo terrorista, desde que eles mostrem o seu compromisso com, de facto, não levar a cabo ataques terroristas, não apoiarem o jihadismo transnacional e hostil ao Ocidente, e também se mostrarem um compromisso com um governo relativamente inclusivo na Síria, ou seja, que não ameace estas várias minorias, nomeadamente os curdos. Portanto, essa parece ser aqui a principal postura e interesse dos Estados Unidos. Mas eu diria, ainda é muito cedo para dizer exatamente quem é que vai ganhar com isto. Para já, é bastante claro quem é que perdeu, sobretudo o Irão e o Hezbollah. O Irão tinha na Síria o grande aliado regional, o grande ponto de apoio para ajudar a armar e municiar o Hezbollah. Tudo isso fica em questão, porque este grupo nesse aspeto foi bastante claro, a sua hostilidade ao Irão, ao Hezbollah. Israel, para terminar, confirmou também aquilo que temos dito, que é basicamente tem uma estratégia sempre militar ou se quisermos não tem uma verdadeira estratégia, que implica uma dimensão política, é sempre uma dimensão mais militar. E portanto, o que fez foi aproveitar este vazio de poder para bombardear paióis onde estão mísseis, material, armas químicas, etc, mais sofisticado do regime iraniano, e para ocupar posições, criar uma zona tampão para além dos próprios montes Golã, que já são território sírio ocupado há muitas décadas, uma zona adjacente, criar aqui uma barreira adicional a qualquer ameaça que venha da Síria em relação a Israel.
Bruno, temos apenas três minutos nesta primeira parte. Não sei se preferes deixar os Estados Unidos para a segunda parte, senão vamos aqui no minuto e meio a cada um dos dois temas que faltam. Vamos primeiro à Ucrânia, porque esta semana tivemos uma espécie de cimeira de paz em Paris, antes da reabertura da Catedral de Notre-Dame. Volodymyr Zelensky, Emmanuel Macron, também Donald Trump juntaram-se. Pergunto se pode ter realmente dado frutos este encontro e se Emmanuel Macron pode sair daqui também como o principal dinamizador da paz neste conflito, mais até do que na própria política francesa.
Sim, a política francesa está realmente muito complicada, vamos certamente falar disso na próxima semana. Mas apesar de tudo, a França e a Europa, com todos os problemas que têm, continuam a ter um certo soft power, um certo poder de atração que, por exemplo, pode ser importante para Donald Trump, que é muito sensível a essa política da imagem, do prestígio. E portanto, Macron, do meu ponto de vista, foi muito hábil e acertado em convidar o novo presidente americano, presidente eleito, para vir a Notre-Dame. Ele claro que aceitou e também fez muito bem em aproveitar isso para propiciar um encontro a três com o presidente da Ucrânia, Zelensky, no fundo fazer alguma pressão sobre os Estados Unidos, sobre a nova administração, a futura administração, para continuar a apoiar a Ucrânia. Desse ponto de vista, não me parece que os resultados sejam espetaculares e também não me parece que se possa dizer que Macron será aqui o grande ator na paz ou na guerra na Ucrânia. Certamente os países europeus têm aqui algum protagonismo importante, quer pela dimensão diplomática, quer pela dimensão inclusive militar, apesar de tudo a par da Grã-Bretanha e da Alemanha, a França ainda é uma das grandes potências militares, é a única com a Grã-Bretanha a ter armas nucleares, o que é muito importante, por exemplo, para a dissuasão da Rússia, tem uma indústria militar também importante, tem um papel importante, mas não será decisivo e este encontro também não foi decisivo. Em todo caso, parece-me que foi positivo e que é uma forma de passar esta mensagem: a Europa não vai deixar cair a Ucrânia, não vai deixar de pressionar os Estados Unidos para não deixar cair a Ucrânia, não vai querer uma paz a qualquer preço com a Rússia.
Bruno, estamos aqui mesmo no limite da nossa primeira parte, por isso vamos mesmo deixar os Estados Unidos para a segunda parte, numa segunda parte que ainda vamos até à América Latina, vamos falar também de Lula da Silva. Fazemos também escala em África, por isso voltamos já a seguir até às notícias. Por isso até já, Bruno.
Até já, Bruno. Até já
Segunda parte do Cinco Continentes na Rádio Observador, sempre com o historiador Bruno Cardoso Reis. Todas as semanas viajamos com ele pela geopolítica internacional. Bruno, bem-vindo mais uma vez. Vamos voltar aos Estados Unidos, aliás, vamos pousar nos Estados Unidos. Vamos falar dos nomes anunciados por Trump para o Departamento da Defesa e também no FBI, que tem continuado a dar polêmica, mas no FBI, por exemplo, o diretor Christopher Wray anunciou que vai sair antes de Trump tomar posse. Pergunto, Bruno, se isso é normal com um novo presidente e o que tem gerado controvérsia nos novos nomes para estes dois cargos, que são muito importantes nos Estados Unidos.
Sim, há aqui um primeiro dado interessante que é: já se fez as contas, já há muitas nomeações, dezenas e dezenas. Nesse aspecto, há que elogiar o profissionalismo da transição, ou seja, esta equipa, nomeadamente com a chefe de gabinete de Donald Trump, que foi também a responsável pela sua campanha, realmente conseguiu com grande rapidez, até mais rapidez do que Obama ou Biden, de facto, ter uma equipa preparada, que é um contraste absoluto com aquilo que aconteceu em 2016, em que ele esteve a improvisar já depois de tomar posse, ainda havia nomes por preencher durante imensos meses, etc. Há aqui um contraste importante. Também é de assinalar que são nomes claramente alinhados com as suas ideias, com a sua ideologia, com os seus princípios. Não há aqui a necessidade de ir buscar figuras do Partido Republicano mais tradicional, mais moderado, que em muitos casos, durante o primeiro mandato de Trump, só opunham àquilo que Donald Trump defendia. Mas não é normal. Tudo isto é um exemplo de uma boa transição, mas depois o que não é assim tão normal é, por exemplo, esta questão da demissão do diretor do FBI. O diretor do FBI tem um mandato de 10 anos. A razão porque tem um mandato de 10 anos é para o isolar precisamente da política partidária e não é suposto, ao contrário da maior parte dos cargos, mas por exemplo, quer os comandantes militares, quer o diretor do FBI, não é suposto demitirem-se quando o novo presidente toma posse. Porque a ideia é que não são cargos políticos, não são cargos de dependência política. Nos Estados Unidos, há muito mais cargos de nomeação política até do que é habitual na Europa. Estima-se que há volta de 5 mil cargos de topo, vai muito para além dos ministros, diretores-gerais, etc. Tudo isso é habitual realmente de serem substituídos, embaixadores, etc. Mas no caso, por exemplo, do diretor do FBI, realmente não é essa a tradição. Aliás, este diretor, o Christopher Wray, foi nomeado por Donald Trump. Ainda lhe faltavam dois anos para terminar o mandato, foi mantido por Joe Biden, que respeitou essa tradição, mas realmente Trump tinha deixado muito claro que não o queria, que achou que ele não foi leal a ele, que ele cumprindo, aliás, porque o FBI funciona um pouco como a Polícia Judiciária, cumprindo aquilo que vinha do Departamento de Justiça, da Procuradoria-Geral, vamos dizer assim, conduziu várias investigações, por exemplo, em relação ao assalto ao Capitólio do 6 de janeiro, etc. Às violações também das regras de segurança com aqueles documentos altamente classificados, inclusive sobre questões nucleares que Donald Trump levou para a sua residência privada, etc. Ele encarou isso como uma deslealdade e deixou claro que o iria demitir, porque isso o presidente pode realmente fazer. Não é suposto fazê-lo por este tipo de razões, mas pode fazê-lo. E Christopher Wray optou por se demitir antes de ser demitido, antes de ser forçado a sair. Em relação aos nomes e por que estão a dar tanta controvérsia. Fazem parte os dois no grupo 14 que, sobretudo o Pete Hegseth, é o mais exemplar disso, o da defesa, de colaboradores habituais, regulares ou ocasionais da Fox News, o canal mais conservador na televisão americana e de que Donald Trump é um grande fã. Confirma-se também ao que nós referimos aqui, que é uma das prioridades na seleção para Donald Trump, além da lealdade pessoal, da lealdade a ele e às suas ideias, mas inclusive pessoal a ele, é esta questão de ter uma boa imagem. Passar bem na televisão.
E uma imagem pública, não é? Também.
Exatamente, uma imagem pública boa, ser um bom comunicador, projetar uma imagem até em termos físicos que seja positiva. E o problema com o Pete Hegseth, que realmente cumpre esses critérios, é que, do meu ponto de vista, o grande problema, na verdade, é que ele tem uma visão completamente passadista, reacionária do que é a defesa. Quer dizer, ele vai dirigir o maior orçamento de defesa do mundo, são 900 mil milhões, é mais do que o orçamento de muitos países, uma organização que tem dois milhões de militares e um milhão de civis, com prioridades como acabar com as mulheres em posições de combate Isto quando há à volta de 250 mil mulheres nas Forças Armadas americanas e há uma enorme dificuldade neste momento nos Estados Unidos e em geral em recrutar pessoas qualificadas, ou seja, para aquilo que se quer, por exemplo, para coisas como ciber, o espaço, etc. Muitas vezes as mulheres neste momento têm mais qualificações em média do que os homens. Enfim, ele diz que é só para postos de combate, mas obviamente, o que é que são posições de combate, o que é que são postos de combate e será que essa mensagem será percebida ou será que a mensagem não será que não vale a pena as mulheres apostarem muito numa carreira militar porque vão estar muito limitadas enquanto este novo secretário estiver em funções ou se este novo secretário vier a estar em funções. Enfim, é muito esta opção também com os chamados generais woke, portanto aparentemente há uma epidemia de esquerdismo entre os oficiais superiores americanos, o que é uma coisa bastante bizarra para quem conhece minimamente os militares americanos. Mas portanto ele quer aparentemente fazer uma espécie de purga desses militares mais woke. Ora, o que ele não fala todo é que estamos a assistir a uma revolução tecnológica enorme, há enormes desperdícios e ineficiências no investimento em defesa da parte dos Estados Unidos, uma grande dificuldade em adaptar-se rapidamente aos novos desafios, às novas tecnologias. Sobre isso ele não tem nenhum tipo de visão. Mas enfim, em termos práticos aquilo que tem suscitado polémica é sobretudo o fato de ele próprio confessar que teve um problema muito sério de alcoolismo, ou seja, não estamos aqui a falar de alguém de vez em quando apanhar uma bebedeira com os amigos, estamos a falar de ser sistematicamente apanhado bêbado aparentemente no local de trabalho, e também ter sido afastado de funções de direção, as poucas que teve, por precisamente incompetência, má gestão de fundos, portanto questões muito sérias, mas vamos ver se isso é suficiente para afastar alguém que claramente é muito leal a Trump e a quem Trump parece ser bastante leal. Depois no caso de Kash Patel, o indicado para diretor do FBI, a grande questão é que ele muitas vezes e repetidamente disse que deveria se usar o FBI para funções de perseguição política aos adversários de Donald Trump, que ele iria também fazer uma espécie de purga política do FBI, ou seja, iria punir os investigadores que foram postos a investigar por mandado judicial vários destes casos que referimos, o assalto ao Capitólio, etc. E portanto há este temor de que haja aqui um abuso de poder, de um poder bastante importante, que é o de uma polícia judiciária, para funções que não são as que deveria ter.
Claro. Bruno, vamos até à América Latina, mais precisamente até Nicarágua, numa proposta que está a gerar muitas reações. Daniel Ortega quer consolidar o regime cada vez mais autoritário e quer passar Rosário Murillo, que é a sua esposa, é preciso sublinhar isso, de vice-presidente a co-presidente. Qual é que é o significado desta revisão da Constituição, Bruno? Isso também tem precedentes na história.
É só mesmo se recuarmos até à antiguidade ou até às monarquias. De facto, por exemplo, na República Romana havia dois co-presidentes, não se chamavam assim, chamavam-se cônsules. Havia dois cônsules. Mas claro que a ideia na República Romana, que era uma constituição híbrida que tinha muito este princípio dos pesos e contrapesos, é um pouco uma inspiração até das constituições atuais nesse sentido, a ideia era precisamente eles evitarem um abuso de poder ou uma excessiva concentração de poder no outro. Portanto, não eram duas figuras do mesmo partido, vamos dizer assim, tipicamente. Quando passou a ser assim, com o famoso Triwirato, que incluiu a distribuição dos lugares de cônsul entre Pompeu, Crasso e César, portanto os cônsules foram o Pompeu e o Crasso, isso foi o fim da República. Também temos exemplos nas monarquias, inclusive em Portugal, por exemplo, tivemos no caso da Dona Maria I, Dom Pedro III, eram os dois à partida co-soberanos, portanto juntamente soberanos. Na verdade, não só a rainha é que tinha mais direito ao trono, portanto era rainha reinante, mas na prática até foi mesmo ela que assumiu mais esse papel no final do século XVIII, até depois ficar doente. Mas isso aconteceu também noutras monarquias, no caso britânica, por exemplo, o Guilherme III e a Rainha Ana, portanto a Rainha Ana é que tinha mais direito ao trono, o Guilherme III era um príncipe de origem holandesa, mas é ele que vai assumir mais as funções de governação, mas são à partida os dois co-governantes, co-reinantes. Portanto, isso aconteceu algumas vezes no passado, mas obviamente não tem aqui precedentes em repúblicas democráticas contemporâneas. E sobretudo, o que é que isto quer dizer? Quer dizer que, por um lado, não basta a Rosário Murillo ser vice-presidente. Tem que ser co-presidente, por quê? Porque Daniel Ortega provavelmente pode morrer, e aí há algum receio, parece-me que esta mudança tem a ver com isso ou reflete isso. Por que dar-se a esse trabalho? Porque à partida formalmente ela assumiria. É o receio que apesar de tudo seria necessário haver passos de formalização dessa transferência de poder envolvendo a assembleia, etc. Assim, não é necessário isso, ela automaticamente continua como presidente, vamos dizer assim, se Daniel Ortega morrer. Portanto, ninguém pode interferir com o processo, ninguém pode pôr isso em questão, mesmo aqueles dissidentes que têm emergido dentro do próprio movimento sandinista, Daniel Ortega, que historicamente surgiu precisamente para combater uma dinastia política, a dinastia dos Somoza, mais uma vez uma destas dinastias republicanas, um pouco também como os Assad, neste caso na América Central, que tinham dominado a política de forma ditatorial na Nicarágua desde os anos 30 até 1979. Mas portanto ironicamente o sandinismo acaba por regressar ao ponto de origem, se quisermos, ou ao defeito de origem E depois é realmente uma formalização desta completa deriva autoritária ditatorial do regime na Nicarágua, ou seja, para quem tivesse dúvidas, isto é acompanhado de outras mudanças constitucionais que formalizam o poder absoluto destes copresidentes. Eles passam a coordenar o poder legislativo, a coordenar o poder judicial, a coordenar o poder municipal, portanto, podem nomear e demitir presidentes da Câmara, juízes, podem interferir no próprio Parlamento. Para quem tivesse dúvidas que a Nicarágua neste momento é uma ditadura personalizada e familiar do casal Ortega, isto fica bastante claro com esta mudança.
E Bruno, continuamos na América, mas agora vamos até ao Brasil. Muita coisa a acontecer esta semana. Primeiro, a controvérsia com Rosângela da Silva, conhecida como Janja, mulher de Lula da Silva, e que em plena conferência de imprensa do G20 insultou Elon Musk e sobretudo depois também Lula da Silva, que foi operado pela segunda vez, ao que tudo indica, Bruno, correu tudo bem. Mas o que queremos saber é se vamos ter um afastamento formal do presidente Lula ou não vamos chegar a esse ponto, e que interpretação tens da atitude da mulher de Lula Silva em plena conferência do G20, que não deixa de ser um bocadinho curioso e para insultar alguém muito poderoso.
Sim, no Brasil não há obviamente uma copresidente. A mulher do presidente Lula não é vice-presidente, não tem funções formais. E até por isso, se calhar, até porque realmente o Brasil é uma democracia muito mais institucionalizada e mais resiliente, como aliás ficou demonstrado agora com a resistência a esta tentativa de golpe, etc. Realmente houve algumas críticas, ou tem havido cada vez mais críticas a este protagonismo da segunda mulher Lula da Silva, que é uma socióloga, que vem desta ala mais à esquerda do Partido dos Trabalhadores, é muitas vezes até culpada, vamos dizer assim entre aspas, de Lula ter uma postura mais ideológica, se calhar menos pragmática, quer na política interna, quer na política externa, mais à esquerda, se quisermos. Eu acho que essas críticas não fazem muito sentido, desde logo porque isso é uma responsabilidade do Lula, ele é que tem que saber por onde é que quer ir em termos mais políticos, etc. Também não parece que seja assim tão verdade ou que seja assim uma diferença tão grande. Agora, é verdade que até do interior do próprio governo e da coligação, e até do partido, há algumas queixas, umas anônimas outras-
Tem criado mal-estar a isso?
No sentido de dizer que, sobretudo em termos diplomáticos e em termos destas cimeiras, realmente parece haver aqui um protagonismo excessivo da mulher do presidente, se quisermos da primeira-dama, que de fato não tem outra legitimidade que não seja essa, o que obviamente limita a sua legitimidade política de forma bastante significativa. Uma coisa é ela informalmente, na privacidade da sua casa, aconselhar como entender o marido. Mas em termos públicos, assumir este protagonismo realmente parece algo um pouco questionável. No caso dessa cimeira do G20, por exemplo, desviou atenções daquilo que eram as prioridades do presidente Lula, de criar aqui um amplo consenso em torno da questão da fome, do combate à pobreza, etc, para outros temas que não têm nada a ver. E portanto, desse ponto de vista parece-me que as críticas são talvez mais justificadas, mas geralmente a situação não tem nada a ver. No caso do Brasil, no entanto, temos esta questão curiosa em relação ao vice-presidente, que é: no Brasil temos um sistema presidencial um pouco no modelo americano, aparentemente, mas a realidade política é muito diferente e a verdade é que o presidente precisa de coligações amplas no Congresso. O Congresso brasileiro é altamente fragmentado, ao contrário do norte-americano, e portanto isso também se reflete muitas vezes na escolha de vice-presidente. Ou seja, o vice-presidente muitas vezes não é do mesmo partido que o partido do presidente, por regra não tem sido assim. Não é como nos Estados Unidos, o presidente e a vice-presidente ou o vice-presidente são do mesmo partido. Portanto, se o presidente tiver que ser substituído, é evidente que o vice-presidente o fará e o fará enfim, dentro da mesma linha política, aqui não seria o caso com Geraldo Alckmin, que realmente não é do PT, não é do partido do presidente. E portanto, talvez também por isso e porque a operação correu bem e terá sido relativamente rápida, houve a opção por formalmente o vice-presidente não assumiu a presidência, embora na prática tenha substituído o presidente Lula nalgumas funções, inclusive de representação diplomática, mas a partir daí o presidente continua em funções e esperemos que recupere bem e rapidamente.
Bruno, temos de acelerar, só temos até ao final quatro minutos. Vamos até à África, vamos falar das eleições no Gana, mas também na Namíbia. E se no Gana temos um regresso à presidência, na Namíbia fez-se história, o país vai ter a primeira mulher presidente. O que é que nos dizem os resultados, Bruno? O que é que podemos esperar do que aí vem? Isto numa altura em que também em Moçambique a contestação continua, precisamente por causa dos resultados eleitorais que foram conhecidos em outubro.
Bem, começando por Moçambique, infelizmente a contestação continua, os protestos e a violência também continua, já temos mais de 100 mortos. O Conselho de Estado, que é um órgão consultivo do presidente, pareceu formular uma espécie de posição negocial, ou seja, veio falar de uma velha reclamação da oposição, que é a despartidarização da comissão eleitoral. Mas isso não parece ser suficiente. O Conselho Constitucional, que é quem tem a última palavra aqui, veio dizer que vai analisar tudo isto minuciosamente, mas que não recebeu nenhuma queixa formal. Ora, Venâncio Mondlane, o principal candidato à oposição e que reclama ter sido o vencedor e o seu partido Podemos, o partido que o apoia, vieram contestar isso e dizer que isso é mais um exemplo de que o Conselho Constitucional não está a ser rigoroso. Vimos também alguns apelos de líderes religiosos em linha com o que tínhamos referido, nomeadamente da comunidade muçulmana, no sentido de apelar a um maior diálogo e fazendo algumas críticas, inclusive à FRELIMO, por falta de disponibilidade para esse diálogo. Portanto, vamos ver se essa via avança, porque realmente as outras parecem relativamente bloqueadas dos partidos e do presidente, ou mesmo a regional desta organização da África Austral que já falámos. Mas África realmente É um continente muito diverso e, portanto, temos situações muito diversas. No caso da Namíbia, tivemos a primeira mulher presidente, uma líder da SWAPO, do movimento que tem dominado a Namíbia desde a independência e que é o antigo movimento de libertação, mas é vista como uma figura que não é suspeita de corrupção e com algumas ambições de reforma. Isso aparentemente terá sido suficiente para travar a queda no voto à SWAPO. Ela teve, aliás, ligeiramente mais votos que o seu antecessor, 57%, e mais votos do que o partido. A SWAPO conseguiu estar ligeiramente acima dos 50%. Apesar de tudo, os resultados foram contestados pela oposição, mas provavelmente a fragmentação da oposição não ajudou a oposição a conquistar o poder. Foi o que aconteceu no Gana. No Gana, realmente, mais uma vez tivemos eleições em que a oposição venceu e em que o partido no poder reconheceu a sua derrota e aceitou essa derrota. Portanto, isto mostra-nos que temos que ter cuidado em generalizar sobre a democracia em África.
Bruno, terminamos a nossa viagem na Coreia do Sul, no caos que se instalou depois do presidente ter decidido declarar a lei marcial no país. Pergunto-te, e temos mesmo muito pouco tempo, como estão os ânimos por agora e se achas que de alguma forma a Coreia do Norte vai tentar capitalizar e aproveitar este impasse que se verifica no país.
De facto, é uma situação excecional. A expectativa é que provavelmente o presidente acabará por ser afastado, por haver um processo chamado de impeachment ou afastamento. Isso implicará que alguns deputados da direita acabem por votar o seu afastamento. Isso torna-se mais provável porque realmente ele, neste momento, está numa posição extraordinariamente frágil, de uma enorme desconfiança e num contexto internacional muito adverso. Como é possível um presidente que não se sabe muito bem se comanda ou não as Forças Armadas, porque as pode eventualmente usar para fazer um golpe, quando precisa de ter um comando claro para lidar, por exemplo, com uma eventual crise com a Coreia do Norte. Agora, realmente, de forma interessante, a Coreia do Norte demorou muito a reagir. Reagiu de uma forma completamente delirante, acusando o presidente Yoon de ser um ditador. Ora, isto da parte de um regime que é o mais ditatorial do mundo, provavelmente, é um regime de tal forma totalitário que os norte-coreanos fogem para a China e para a Rússia para viverem mais livres do que vivem na Coreia do Norte. Mas apesar de tudo, realmente não houve sinais de algum tipo de escalada militar, de algum aproveitamento mais a esse nível, mas esse risco existe sempre e portanto, esse é mais um argumento para procurar resolver aqui a crise. Agora, a saída realmente não é fácil porque a Coreia, como muitos outros países democráticos, está extremamente polarizada, extremamente dividida.
Bruno, vamos mesmo em 30 segundos a uma recomendação muito rápida. Tens uma recomendação, vamos dizer natalícia, podemos já dizer, para os nossos ouvintes?
Sim, pode ser. Como disse, estive aqui no Colégio de Defesa da NATO e a atual diretora da investigação do Colégio de Defesa, a Florence Gaub, publicou um livro muito interessante. Existe uma versão em alemão chamado "Zukunft", mas há uma versão também em espanhol, que será talvez mais acessível aos leitores portugueses, que se chama "Futuro", e que é realmente um exercício muito interessante para explicar como é que se faz prospetiva, como é que se faz análise prospetiva, como é que se faz previsões de uma forma relativamente séria, o que obviamente implica, desde logo, um ótimo conhecimento do passado. Pode parecer um pouco paradoxal, mas realmente a base indispensável para qualquer análise do futuro é perceber o que é que aconteceu até agora. Só a partir daí é que podemos fazer previsões, imaginar cenários com alguma base sólida, mas é realmente uma leitura bastante interessante. O livro está bastante bem escrito e obviamente foca-se muito no futuro também nestes temas que nos interessam mais da geopolítica internacional.
Fica aqui uma prenda de Natal antecipada do nosso Bruno Cardoso Reis. Muito obrigado por estares conosco mais uma vez. Mais uma semana a viajar pelos cinco continentes. Temos encontro marcado no próximo sábado. Por isso, Bruno, até lá. Um abraço.
Um abraço, Bruno.
Bom fim de semana. Obrigado. Até para a semana.