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A força da técnica e a técnica da força na Rádio Observador. Nos próximos minutos, vamos falar deste jogo: o empate a um golo entre Gil Vicente e Sporting, na 17ª jornada do campeonato. Um jogo que começou com vantagem leonina, com Luiz Suárez a marcar. O colombiano continua de pé quente. Depois do hat-trick, voltou a faturar. A situação piorou para o Sporting na segunda parte. Tudo começou quando Gonçalo Inácio foi expulso com cartão vermelho direto e depois o Gil Vicente acabou por conseguir, com mais um jogador em campo, empatar através de Carlos Eduardo. Ele estreou-se a marcar nesta edição do campeonato. Um final de emoções. O Sporting não se conseguiu aproximar, ficou a quatro pontos do Futebol Clube do Porto. Ganhou um, mas a verdade é que o Futebol Clube do Porto ainda não jogou e a distância pode ser, no final desta jornada, de sete pontos de diferença. Gabriel Alves, este é um resumo ligeiro do que aconteceu no Estádio Cidade de Barcelos. Que notas a retirar deste jogo?

Na primeira parte, muita tática, quer de um lado, quer do outro. Uma equipa como a do Gil Vicente, que não é por acaso que ocupa a quarta posição da tabela. Portanto, nestes jogos de grande dimensão, com uma equipa candidata a ser campeã nacional e que joga nas Champions, e candidata também a conquistar os outros títulos das provas que são organizadas dentro daquilo que é o contexto do futebol português. Este Gil Vicente mostrou face ao bicampeão nacional, que é uma equipa que não é por acaso que está no quarto lugar. Portanto, friso isso, destaco isso e considero esta equipa um coletivo muito forte, de grande caráter, de grande dimensão, com bom desenho de jogo, sabendo tirar partido daquilo que são os seus futebolistas, os futebolistas que tem, as características específicas desses jogadores. E se o Sporting tinha jogadores em falta por lesão, por can, a verdade é que a formação do Barcelos também tinha jogadores fora e na defesa, acima de tudo, um central e um lateral de extrema importância e perdia o seu ponta de lança por uma questão de mercado. E a verdade é que, sendo um clube de dimensão menor, não tem o guarda-fato que o Sporting tem. E a verdade é que bateu-se de forma inapelável face ao Sporting, não se atemorizando e antes pelo contrário, no seu terreno, dando tudo por tudo para que o jogo não fosse perdido. Quanto ao Sporting, na tal batalha tática, tem um destaque que é o grande passe do Quaresma para desmarcar e todo o movimento que foi dos dois pontas de lança, mas depois com Quaresma, com Luiz Suárez muitíssimo bem na cara do guarda-redes, naquilo que se chama um mano a mano, a fazer um voleio fantástico, perfeito.

Um toquezinho às vezes é suficiente.

Sim, é saber ter a presença de matador. Portanto, é isso que é preciso ser. Não é atirar de qualquer maneira. Não, é um jogador que sabe definir aquilo que é um lance para golo face à presença de um guarda-redes, que é um vulto enorme, inclusivamente, fazendo aquilo que se pode dizer um túnel à saída do futebolista brasileiro. Portanto, é um momento e estes pormenores, numa partida que é muito tática, muito altamente densa em taticismo, ter um jogador que faça a diferença é momento privilegiado e portanto, o Sporting aí tirou muito bem partido e mais exatamente na altura em que partia para o intervalo e deixa moça no adversário e deixa ânimo em si.

Até porque tivemos uma primeira parte com o Francis Trincão muito apagado. Melhorou no segundo tempo.

Sim, Francis Trincão não foi muito apagado, esteve muito mal na primeira parte. Foi um futebolista completamente desenquadrado, direi, praticamente do jogo. E o Sporting tinha dificuldade. Portanto, naquilo que era a penetração, romper pela boa organização defensiva da equipa do Gil Vicente, a entrada na área. Tanto que este remate enquadrado do Suárez é o único remate enquadrado da primeira parte, por banda do bicampeão nacional. Nota que não utilizou o remate de fora da área, a meia distância, onde Trincão normalmente é um jogador de grande esclarecimento tático e técnico e obviamente inteligência de jogo.

E Ulman também costuma ser forte nesse capítulo, mas esteve completamente-

Foi completamente dominado pela zona que lhe foi marcada, que lhe foi determinada pela equipa do Gil Vicente. Fez-lhe uma zona e a bola não lhe chegou. Ponto, parágrafo. Portanto, para César Peixoto, um estudo do adversário muito bem definido, mas melhor definido o desenho depois que pôs na equipa, matando aquilo que são os pontos-auges do adversário que tinha esta noite. A capacidade do Nórdica, a meio-campo, onde é dono e senhor e hoje não foi. A capacidade do Sporting que tinha mostrado nos últimos jogos dois pontas de lança e hoje não surgiu. Surgiu, sim Aquilo que é a arte de bem jogar, a tal diferença de Quaresma a aparecer e a faturar. De resto, foi um Sporting que teve em Rui Silva a sua peça fundamental e mais importante para ter, então, a baliza a zero. A segunda parte é muito auspiciosa na forma como entra. O Sporting entra bem, o Gil Vicente entra bem. É um jogo que agrada, que diverte, que entretém, cria emoção, começa a perceber-se, não se sabe quem é que vai marcar ou quem não vai. É aquilo que é bonito no futebol. Eu não sou adepto deste, nem adepto daquele, sou apreciador de jogo. Obviamente que quem é adepto sente as dificuldades da sua equipa e sente os defeitos da sua equipa e as limitações da sua equipa. Mas a verdade é que para o espectador que vai ao futebol e gosta do futebol, tem um jogo bastante interessante e bastante dinâmico, e que mostra, uma vez mais, que receber em casa o Gil Vicente, o campeão, para ele, tratou-o por tu. Esta é que é a verdade.

Gabriel Alves, onde é que esteve a força da técnica?

Eu diria que a força da tática esteve, na minha opinião, na equipa do Gil Vicente. Foi uma formação sempre ativa, sempre dinâmica, soube substituir, soube fazer engrenar os jogadores, mesmo quando a partida tem uma marca especial que é a expulsão de Gonçalo Inácio. Obviamente que aí retira pontos ao Sporting, pontos de força, de interioridade e de capacidade.

E acontece logo depois de Rui Borges mexer pela primeira vez na equipa.

Exatamente, que mexeu tarde para já. Na minha opinião, são dois jogadores que já poderiam ter saído 10 minutos antes, quando eles entram. Porque o Sporting perdeu o seu meio-campo face à equipa do Gil Vicente ali a determinada zona de jogo. Obviamente que esse cartão vermelho faz a amputação daquilo que é o jogo leonino, que tem como consequência imediata o golo da equipa do Gil Vicente. De resto, estou de acordo com o Rui Borges, que diz que a parte final é tudo muito mais com o coração do que com a cabeça. E o próprio César Peixoto também sabe isso e obviamente, fala do caráter, da intensidade. Foi tudo muito depois. Mas quem é espectador e não é deste nem daquele, gosta, obviamente. É evidente que nós não podemos separar os gostos pelos emblemas do futebol, porque mesmo aqueles que não estiveram hoje em Barcelos, viram o jogo cada um à sua maneira, quer por banda do futebol do Porto, quer por banda do Sport Lisboa e Benfica. Os adeptos estavam com as suas pipocas, cada um com as pipocas da sua cor, a olhar para esta partida de forma particular e segundo os seus interesses imediatos. Força da técnica, eu vou dar a Luís Soares pelo gol que marca, que é realmente um belo gol. Vou dar a força da tática àquilo que é uma equipa, a equipa do Gil Vicente. Vou dar a capacidade de um guarda-redes para momentos difíceis e que ele tem sido tanto e tão castigado por erros seus, obviamente, que é o Rui Silva. Hoje não teve erros. Vou dar a força da desconcentração ao Hurlmann, naquilo que é o gol da formação do Gil Vicente. E vou dar a força do último passe, que é importante, quer ao Quaresma, quer ao Estevão. Porque o Quaresma faz um passe fabuloso em profundidade, o Estevão faz um passe fabuloso pra cabeça. Hurlmann, quando é o momento da impulsão, tem que ir tal qual como vai o adversário.

Gabriel, pelas minhas contas, ficou só a faltar a técnica da força.

Eu deixo a técnica da força hoje no vazio.

Fica no vazio, então, a técnica da força. Muito obrigado, Gabriel Alves. É sempre um gosto enorme contar com a sua análise. Até uma próxima oportunidade.

E bom ano.

Foi. Bom ano, Gabriel, também.

E bom futebol. Menos paleio, menos palavras, mais jogo. Escrevam o jogo na alma, como escreveu Drummond de Andrade.

E é desta forma que terminamos o podcast. Gabriel Alves, foi um gosto. O Gil Vicente empatou a um gol com o Sporting.