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A Força da Técnica com Gabriel Alves para olhar para a primeira meia-final da Taça da Liga, edição 2021/2022. Um jogo que prometia Benfica, mas deu Boavista, Gabriel.
Eu acho que os adeptos do Sport Lisboa Benfica têm razões para terem saído embora ganhadores do jogo, nos pontapés de 11 metros, nas marcas de grande penalidade, têm mais razões para serem preocupados do que propriamente para festejar. Este Benfica, não está de saúde. Eu ouvi as palavras do seu treinador. Não sei se ele poderia dizer algo de diferente ou até se, neste momento, e com todo o respeito que tenho pelo seu trabalho e pela pessoa, naturalmente, não conheço pessoalmente, mas merece-me todo o respeito, não sei se até teria estatuto para dizer outras coisas que se calhar outro treinador era capaz de dizer, noutra dimensão, com outra envergadura e com outro currículo. Mas este Benfica, naturalmente, é um Benfica que deixa completamente a desejar. Do Benfica ali hoje no campo, só estiveram mesmo as camisolas.
E vamos começar por olhar, Gabriel, para a primeira parte. Apesar de tudo, o Boavista esteve mais desaparecido. Começou com um bloco baixo, uma linha de cinco defesas, mas depois de ter sofrido o gol, começou a dar algumas ideias de como é que iria jogar na segunda parte, que acabou por ter algum domínio do jogo. Onde é que falhou a estratégia do Benfica e onde é que acertou a estratégia do Boavista?
O Benfica acaba por marcar por um erro crasso, infantil, por banda do Boavista. Embora o Benfica tivesse, naquela altura, por vezes, criado algum volume de jogo, o Boavista taticamente estava bem, estava cortando as linhas de passe, estava a obrigar o Benfica a ter problemas na primeira fase de construção, a obrigar o Benfica a ter que fazer passes em profundidade, que nem sempre foram os melhores. O Benfica bem trocava a bola no sentido de criar a tal linha de passe, mas também sem bola, a equipa do Benfica não. E portanto, o Boavista sofre um gol de erro próprio. Embora muito bem executado depois o pontapé por banda de Everton, lá iremos, já falaremos. De resto, o Boavista não acusou o sofrer do gol, manteve-se bem sólido e foi sempre a equipa que acabou por ser aquela que deu mais estrutura dentro das quatro linhas. E foi ela que procurou, eu disse ao intervalo, que precisava de temporizar melhor as situações, ter mais esclarecimento na altura do remate, ter outro tipo de decisões. Foi aí, portanto, a ânsia, provavelmente de poder chegar a esta vontade enorme que tinha, e às vezes a vontade tem que ser controlada, não deixa de existir, para que se possa chegar. E é evidente que o intervalo fez bem ao Boavista, e é Vlachodimos que sobressai. O Benfica acabou por desaparecer, aquele meio-campo nunca mais se viu, nunca mais mexeu. No ataque, Aremu fez ali o trabalho de âncora, porque o Benfica jogou num 4-3-2-1, portanto 4-3-3, mas à frente o dois mais um. Foi o trabalho de âncora, mas que nunca foi bem articulado. Depois passou a 4-4-2, mas também pouco ou nada existiu. Portanto, foi sempre o Benfica sem nota, sem rota, e foi sempre o Boavista, muito mais coletivo, muito mais com ideia de jogo, sabia o que queria, muito mais procurando os flancos, procurando romper, chegar à área do Benfica. Agora, o Benfica tem dois centrais. Vertonghen tem uma carreira muito bonita, direi mesmo brilhante, mas neste momento é um central lento e o Morato é um central com muitas limitações nesta altura, em termos de estofo, digamos, para jogar nesta equipa do Benfica. Por isso ele nunca foi um central de primeira linha, sempre foi utilizado como um central a crescer. Os jogadores crescem competindo, é preciso isso. Eu acredito bem que Morato pode, muito em breve, dentro de alguns vários jogos que execute, vir a crescer e também depende do trabalho do treinador. Porque é assim, os jogadores para crescerem, depende primeiro deles, vontade de crescer. Segundo, do treinador que os instrui, que os orienta e que mexe, naturalmente, naquilo que eles têm de perfil para o melhorar. Daí que este Benfica deixa muito a desejar, aquele meio-campo não, o ataque não. O Benfica vence, mas não convence. O Petit falou em orgulho. Tem toda a razão para ter orgulho. É orgulho, porque a equipa bateu-se muito bem, com todas as limitações que naturalmente tem. Uma equipa da dimensão do Boavista em Portugal, com 10 jogadores fora, obviamente tem que sofrer muito mais que o Benfica, que possa ter mesmo seis. O Benfica tem que ter um plantel capaz de poder responder a todas as suas ansiedades. O Benfica quando parte para uma época, parte para ganhar títulos e em termos da Europa, que é o sítio onde se faz dinheiro e se impõe a marca, tem que estar ao nível. Eu não digo, porque nós não temos essa possibilidade, dados os valores, o que anda e se levar-nos-ia a uma conversa diferente. Mas o problema é que tem que pelo menos chegar o mais longe possível e tem que ter essa capacidade. Até porque hoje os mercados, em termos mesmo de venda de jogadores e compra de jogadores, nem sempre funcionam como funcionaram antes do Covid. Hoje as coisas estão bastante diferentes. E a verdade é esta, é que aqui do Benfica, tirando dois Ou três jogadores que têm noivas, mas as noivas não estão a se apresentar, porque é evidente, vão tentar sempre baixar o mais possível o preço a pagar. É evidente que os clubes portugueses têm que vender. Mas para vender, tem que mostrar, os jogadores têm que se mostrar na grande montra. E onde é a grande montra? A montra é nas competições europeias, a montra é nas suas seleções, nos campeonatos da Europa, Copa América. E esse Benfica, de facto, está a mostrar muito pouco e eu acho e digo que os adeptos do Benfica têm que estar preocupados para a final, se lhes sai o Sporting, porque o Sporting joga muito mais que o Benfica. É verdade, uma equipa com outro tipo de ideias, o que não quer dizer que o Sporting já ganhe o jogo.
E o Sporting vai enfrentar um Santa Clara que impôs uma derrota recente ao Porto.
Atenção, espera aí. Mas naquilo que é a transversalidade, independentemente do Sporting ultimamente ter tido um afrouxar de solidez e de competitividade, mas a verdade é que na transversal tem jogado, tem se mostrado mais equipa. Esta é que é a verdade, que aquilo que é neste momento o Benfica. Mas para além disso, da parte interna, temos a Europa, que está aí à porta, são três semanas, e o Benfica arrisca-se a ter um resultado muito desagradável a jogar dentro desta pauta. Fez falta jogadores? Sim. Para mim, o internacional argentino defesa fez falta pela sua capacidade de liderança.
Otamendi.
Otamendi. E os jogadores ouvem, porque é um jogador com dimensão, não é um jogador qualquer, é um jogador com estatuto, com currículo e muitos treinadores de grande qualidade por mãos que passou. E naturalmente que é um jogador, quando dentro do terreno diz qualquer coisa, os seus companheiros obviamente que ouvem. Eu não estou a dizer que cumprem, mas ele será sempre uma peça importante como o prolongamento do treinador dentro das quatro linhas. E o Benfica hoje não teve quem impautasse o jogo, quem pensasse o jogo, quem dissesse alguma coisa dentro do campo. Houve ali momentos que foram perfeita anarquia.
E Gabriel Alves, olhando para esta primeira meia final da Taça de Liga, da Linus Cup, o Benfica acabou por ter algumas dificuldades. Ainda assim, houve jogadores que se destacaram, quem se destacou pela força da técnica?
O Everton, aquele gol que marca, que é o gol que o Benfica marca em futebol corrido. Independentemente do erro do defesa central do Leixões, que acaba por abrir o caminho, a forma como o Bracalli sai na sua tentativa. Everton tem, de facto, um pontapé de grande eloquência, de grande técnica. É um excelente momento para o jogador e para o espetáculo. Independentemente da facilidade com que a jogada ocorre, mas a definição, o momento decisivo, que é onde está a força da técnica de Everton. Muito bom.
E onde está a técnica da força de Everton? Onde está, não esteve, Gabriel?
Foi no lance em que ele podia ter morto o jogo, porque é talvez a oportunidade maior que o Benfica tem ainda na primeira parte, em que ele faz um pontapé perfeitamente inacreditável. Diz: "Quem está lá dentro, quem está cá fora, é fácil. Quem está lá dentro, é verdade, mas quem lá está dentro...
Está lá dentro por alguma razão.
Exatamente. E não pode, nem deve, deixar que uma situação daquele calibre seja desperdiçada da forma como ele o fez.
E algum momento técnico da força, Gabriel?
Acho que ali os pênaltis falhados foram mais em força do que em jeito. E essas coisas que têm que se conjugar às situações. Houve ali momentos ridículos hoje na marcação dos pênaltis. Têm que ser mais trabalhadinhos, porque esta história da lotaria, sim, mas isso já foi tempo. Isso hoje é quase trabalhado ao computador.
"A Força da Técnica", com Gabriel Alves.