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Está na hora de traduzir a guerra. Vamos analisar a imprensa ucraniana de hoje e para isso contamos com o jornalista Miguel Cordeiro. Boa tarde, Miguel. Bem-vindo.

Boa tarde.

Um programa que é feito com a colaboração da Tania Holynyk, natural da Ucrânia. Miguel, para começar, hoje temos Boris Johnson, que diz que o Ocidente devia ter integrado a Ucrânia na NATO.

Sim, que devia ter integrado a Ucrânia na NATO ainda antes do início da guerra. O ex-primeiro-ministro britânico Boris Johnson acredita que a invasão russa em grande escala da Ucrânia poderia ter sido evitada se o Ocidente tivesse tido a coragem e a consistência para colocar a Ucrânia na NATO. Isto surge num artigo de Boris Johnson no Wall Street Journal. Boris Johnson diz: "Durante décadas usámos ambiguidade diplomática sobre o tema da NATO e da Ucrânia e terminou num desastre completo. Há anos que dizemos aos ucranianos que temos uma política de portas abertas na NATO e que eles têm o direito de escolher o seu próprio destino e que a Rússia não deve ter poder de veto. Em todo esse tempo, deixámos claro para Moscovo que a Ucrânia nunca se juntaria à aliança, porque muitos membros da NATO usam o seu direito de veto por conta própria. O resultado é a pior guerra na Europa em 80 anos. O presidente russo Vladimir Putin destruiu inúmeras vidas, lares, esperanças e sonhos. Putin não invadiu porque pensou que a Ucrânia se juntaria à NATO. Ele sempre soube que isso seria improvável. Ele atacou a Ucrânia porque acreditava, e tinha amplas evidências disso, que não levávamos muito a sério a defesa da Ucrânia". Estes são os resumos deste artigo de Boris Johnson no Wall Street Journal. Colocar tudo aqui num cenário paralelo em que se a NATO tivesse integrado a Ucrânia ainda antes do conflito. A verdade é que Boris Johnson também estava no poder nessa altura. Está a falar agora passado quase um ano, falar depois é sempre mais fácil. Ele diz que se o Ocidente tivesse sido corajoso e consistente o suficiente para colocar a Ucrânia na NATO, se o Ocidente quisesse aquilo que dizia que queria, então este desastre completo, é a maneira como ele descreve, poderia ter sido evitado. Boris Johnson diz ainda que os ucranianos devem agora ter tudo aquilo que precisam para acabar com esta guerra o mais rápido possível.

Miguel, vamos agora a outro tema e atravessamos o Atlântico. Os Estados Unidos da América vão enviar o primeiro lote, ou já enviaram o primeiro lote de veículos de combate Bradley para a Ucrânia.

O Comando de Transporte das Forças Armadas dos Estados Unidos da América anunciou o envio do primeiro lote de veículos de combate de infantaria Bradley, o envio para a Ucrânia. Isto surge numa mensagem do Comando de Transporte norte-americano. O relatório afirma que uma remessa de mais de 60 veículos Bradley partiu da costa de North Charleston, na Carolina do Sul, para a Ucrânia. Os Bradley enviados vão fornecer às forças ucranianas capacidades ofensivas e defensivas, capacidades adicionais para proteger as fronteiras desta invasão russa. Isto foi dito hoje, mas anteriormente já tinha sido dito que os primeiros veículos de combate de infantaria Bradley deveriam chegar à Ucrânia num futuro relativamente próximo. Agora já estão a caminho.

E a discussão sobre o apoio à Ucrânia tem-se virado também para as aeronaves. A Ucrânia diz que precisa agora de 200 aviões para garantir a sua própria segurança aérea.

O porta-voz da Força Aérea da Ucrânia, Yuriy Ignat, escreve na prensa ucraniana sobre este tema. Escreve para dizer que para proteger os céus, a Ucrânia precisa de substituir as aeronaves que tem, aeronaves soviéticas que estão desatualizadas, de acordo com Ignat, e precisa de substituir por várias aeronaves de um único tipo de caça de multiuso. E ele diz que esse caça pode ser o F-16. Diz também que precisa de cerca de 200 aeronaves. Ele refere que atualmente o grupo de aviação dos russos é cinco a seis vezes superior à aviação ucraniana, em termos de número de veículos de combate. A frase de Ignat é a seguinte: "É necessário criar até cinco brigadas de aviação tática com um tipo de aeronave multifuncional de modelo ocidental. Estamos ainda a determinar que tipo será. É claro que não conseguiremos obter tudo de uma só vez, mas a transição gradual para uma nova aeronave multifuncional é uma exigência de tempo. Atualmente, o F-16 é o candidato mais provável para substituir a antiga aeronave soviética que temos, porque existem certas razões objetivas para isso. E isto não é uma decisão individual, são realizadas consultas constantes com todos os parceiros". Ignat depois acrescenta que primeiro é necessário preparar a tripulação de voo, engenheiros de aviação, infraestruturas do aeródromo, para depois fazer este rearmamento com novos tipos de equipamentos. Em seguida, é preciso também a formação de brigadas de aviação, até cinco, neste caso, cada uma das quais até três esquadrões. Um país como a Ucrânia, diz ele, um dos maiores da Europa, precisa exatamente deste número de aeronaves, 200, é o número que está a apontar. Isto será um rearmamento completo e substituição dos antigos equipamentos soviéticos. É o que diz aqui Yuriy Ignat, o porta-voz da Força Aérea da Ucrânia. Ele explica que A Ucrânia já começou a preparar a infraestrutura dos aeródromos para estes caças F-16. A Polónia, entretanto, como já falamos aqui ontem, já disse que pode transferir os caças F-16 para a Ucrânia, desde que esta seja uma decisão apoiada pela NATO. O presidente francês, Emmanuel Macron, também apoia a transferência de caças modernos para a Ucrânia. No entanto, ele aponta algumas condições. Neste caso, Macron diz que isso serve apenas para impedir a escalada do conflito e que só pode acontecer se não enfraquecer o exército francês.

Quem já garantiu que não vai enviar caças F-16 foram os Estados Unidos da América.

Joe Biden anunciou ontem que a América não vai transferir aeronaves F-16 para a Ucrânia. Isto foi de uma forma muito rápida, à saída de um helicóptero, numa rápida declaração a jornalistas. Eles questionaram o presidente norte-americano se os Estados Unidos planeiam transferir caças para a Ucrânia, ao que Biden respondeu de forma negativa. A jornalista do Voice of America, Ostap Yarishin, na rede social Twitter, conta detalhes dessa declaração de Biden. Ela explica que a colega, a jornalista Yulia Yarmolenko, perguntou se os Estados Unidos da América iriam fornecer caças F-16 à Ucrânia a Joe Biden, e ele respondeu apenas: "Não". Ela depois explica que é preciso dar contexto, que Joe Biden estava de saída de um helicóptero, que foi abordado pela imprensa e que não especificou a resposta, apenas disse "não". Anteriormente, a Casa Branca tinha dito que não exclui nenhum fornecimento de armas para a Ucrânia, incluindo os caças F-16. Agora são precisas mais explicações, mais detalhes sobre tudo isto. Mas ontem Joe Biden, à saída do helicóptero, disse apenas "não", quando questionado sobre esta questão dos caças F-16.

Já aqui falámos da França e também de Emmanuel Macron. Agora a França e a Austrália vão criar uma parceria para produzirem cartuchos para a Ucrânia.

A França e a Austrália vão cooperar no âmbito de um projeto multimilionário para produzir vários milhares de cartuchos para a Ucrânia. O anúncio foi feito durante uma reunião dos ministros das Relações Exteriores da Defesa dos dois países, uma reunião que aconteceu em Paris, ministros da Defesa de França e Austrália. Foi dito pelo ministro da Defesa francês, Sébastien Lecornu: vários milhares de cartuchos de 155 mm vão ser produzidos em conjunto como parte de uma parceria sem precedentes entre a Austrália e a França. Ele esclarece que a empresa de armas francesa Nexter vai cooperar com empresas australianas que vão fornecer, neste caso, pólvora. Já o ministro da Defesa australiano, Richard Marles, diz que isto faz parte do nível contínuo de apoio que a França e a Austrália estão a fornecer à Ucrânia para garantir que a Ucrânia possa sustentar este conflito e encerrá-lo com os próprios meios.

Miguel, vamos ao desporto. O Comitê Olímpico Internacional rejeita as críticas da Ucrânia sobre propaganda de guerra.

Temos aqui uma tensão entre o Comitê Olímpico e Kiev. Como sabemos, o Comitê Olímpico está a preparar-se para avançar com uma medida que permita aos atletas russos participarem nos Jogos Olímpicos 2024, jogos em Paris.

Mas sem bandeira, não é?

É, a ideia é participar sem bandeira, sem hino, sem nada que represente a Rússia. Kiev criticou de forma dura, mas o Comitê Olímpico Internacional rejeita as críticas das autoridades ucranianas, que até os acusaram de propaganda de guerra. Essas acusações foram feitas, de facto, depois de o comitê ter dito que os russos poderiam ter a possibilidade de participar nos Jogos Olímpicos de Paris. Mykhailo Podolyak, assessor do presidente da Ucrânia, disse neste fim de semana que o comitê promove violência, assassinato em massa, também a destruição, e na segunda-feira disse que a presença da Rússia nos Jogos Olímpicos significaria dar ao país uma plataforma para promover o genocídio. O Comitê Olímpico Internacional responde, diz o comitê rejeita veementes esta e outras declarações difamatórias. Elas não podem servir de base para qualquer discussão construtiva.

E termina assim esta guerra traduzida com análise à imprensa da Ucrânia.