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"Guerra Traduzida", na Rádio Observador, é o programa em que trazemos os destaques da imprensa russa e da imprensa ucraniana com a ajuda da jornalista Diana Rosa. Diana, boa tarde.

Boa tarde, João.

Hoje vais começar pelo que dizem os jornais russos e com as declarações do antigo secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, que admite que a Ucrânia possa ceder temporariamente territórios pra alcançar a paz de forma mais rápida.

É preciso uma linha de cessar-fogo e, idealmente, que cubra todos os territórios que a Rússia controla hoje em dia. No entanto, Stoltenberg considera que esse é um cenário pouco realista num futuro próximo. Ao mesmo tempo, afirma que a Ucrânia pode renunciar temporariamente à parte dos territórios para esse mesmo fim. O importante é que Kiev receba garantias de segurança, explica o ex-líder da Aliança Atlântica. A adesão à NATO pode ser uma das opções, mas há outras formas de armar e apoiar os ucranianos. Estas declarações, João, surgem na sequência de, pela primeira vez, Volodymyr Zelensky ter admitido que os territórios ocupados pela Rússia fiquem sob domínio não da Ucrânia, não da Rússia, mas da NATO. Só que a par dessa autorização, a aliança deve admitir formalmente uma adesão à Ucrânia. É pelo menos isso que pede, naturalmente, o presidente ucraniano. Do outro lado, Vladimir Putin tem avisado que a Rússia não pode permitir que Kiev aproveite um cessar-fogo para melhorar a posição na linha da frente e restaurar a força de guerra. Uma notícia da Ria.

Passamos para um destaque da TASS, a mais recente conversa entre Olaf Scholz e Vladimir Putin. Isto depois de um silêncio de dois anos entre os dois. O chanceler alemão ligou ao presidente russo, o Kremlin, Diana, considera que a atitude foi positiva, mesmo que a Alemanha continue a apoiar a Ucrânia.

Uma posição manifestada por Dmitry Peskov aos jornalistas russos, o porta-voz de Putin, o porta-voz do Kremlin, diz que o diálogo é sempre algo positivo e louva a iniciativa do Olaf Scholz. Lembro que há cerca de duas semanas os dois líderes trocaram opiniões sobre a situação na Ucrânia, a crise do Medio Oriente e as relações entre a Rússia e a Alemanha. O presidente russo e o chanceler alemão concordaram que os respectivos assessores continuariam a manter aberta a via de comunicação entre os dois. No entanto, hoje a TASS adianta que o Kremlin não fez chegar qualquer mensagem a Zelensky, através do chanceler alemão. Diz ainda Dmitry Peskov que não tem qualquer expectativa acerca da viagem de Scholz a Kiev. Já vamos falar sobre essa visita mais à frente neste programa. Ainda assim, Peskov assegura que o contacto entre Putin e Scholz teve sim um desenvolvimento positivo.

E seguimos, por isso, com as críticas na imprensa russa ao presidente ucraniano. Primeiro, um artigo que diz que Volodymyr Zelensky transformou-se num flop político.

Por falta de pensamento estratégico, nunca teve argumentos para negociações, acaba por ser um político falido. As palavras são do presidente do Conselho do Movimento Outra Ucrânia, Viktor Medvedchuk, num artigo publicado no site do movimento, que é citado pelas agências russas. O também ex-chefe de gabinete da presidência ucraniana deixa a pergunta: como pode a Ucrânia reforçar a sua posição em futuras negociações de paz? Para este ucraniano, a resposta é clara: de forma nenhuma. Não é possível que Zelensky consiga promover um melhor posicionamento do país na resolução desta guerra. De acordo com Medvedchuk, o regime de Kiev recebeu uma assistência ocidental sem precedentes, isso também sabemos, mas para o ex-chefe de gabinete, há um cenário retorcido da guerra. Não foi Zelensky quem usou a assistência ocidental, foram as forças do Ocidente, principalmente as norte-americanas, que usaram Zelensky. Medvedchuk acredita que a maior parte da ajuda permaneceu nos Estados Unidos e as antiguidades militares desmanteladas é que foram enviadas para a Ucrânia. Trata-se de armas obsoletas que provavelmente iam ser descartadas e desta forma pioraram a situação na linha da frente, em vez de melhorarem.

Vamos falar agora, Diana, do baralho de cartas lançado para saber quem será o próximo presidente da Ucrânia, quando o Ocidente pode estar a preparar-se para afastar Zelensky do cargo.

É uma dúvida que anda no ar. Essa ameaça ao posto de Zelensky, que pode vir acompanhada de um golpe militar por parte das Forças Armadas Ucranianas. Já lá vamos às cartadas presidenciais. Antes, apesar de este cenário já ter sido refutado pela Ucrânia, a dúvida persiste e o jornal russo Komsomolskaya Pravda não perde uma oportunidade de publicar todas as alegações que ponham Volodymyr Zelensky em causa e desta vez cita um artigo do Economist que diz que esta possibilidade está a ser avaliada pelos Estados Unidos. Até à data foi anunciado dia 25 de maio do próximo ano.

Ora, e o KP pegou neste artigo e resolveu entrevistar um politólogo, que já foi, de resto, candidato também à presidência da Ucrânia, para fazer uma previsão sobre quem poderá vir a suceder Zelensky.

Agora sim, João, vamos aos ases, reis e valetes. Primeira cartada, ás de espadas.

Quem é este ás de espadas?

Valeri Zaluzhni, ex-comandante-chefe das Forças Armadas da Ucrânia, agora embaixador da Ucrânia em Londres, é considerado o candidato mais popular entre os ucranianos. Zaluzhni é o ás na manga dos Estados Unidos, é alguém que pode estar temporariamente sob a influência do Reino Unido. Há de formar o seu próprio partido antes das eleições, um partido pró-americano, aponta este artigo, que permite aos Estados Unidos controlar a Ucrânia de alguma maneira, política, por exemplo. Para além disso, pode atrair o apoio de Petro Poroshenko e do partido Solidariedade Europeia. A ideia é Zaluzhni assumir a presidência e Poroshenko o controle do Parlamento.

E passamos para o rei dos clubes, que é precisamente Poroshenko. É outra hipótese em cima da mesa.

Foi antecessor de Zelensky, perdeu as eleições de 2019 com o atual presidente. Poroshenko é um oligarca, costuma ser chamado de Rei do Chocolate. É dono da Roshen, que é uma fábrica que produz não só chocolates, como geleia, caramelo, biscoitos, marshmallows, marmeladas e bolos, isso só pra abrir aqui o apetite, e tem delegações nesta fábrica na Lituânia e na Hungria. Poroshenko pode ser considerado um mini-Trump ucraniano, mas em termos de popularidade, perde para os principais candidatos. E deste rei passamos para a rainha de ouros.

Yulia Tymoshenko, um nome um pouquinho menos conhecido do que os outros que já aqui falaste.

Uma velha amiga de Washington, mas que mesmo nos melhores momentos, perdeu a corrida presidencial três vezes. É alguém que, para este A especialista provavelmente vai avançar como figurante para recuperar a atenção. É provável que apoie Zaluzhnyi, vai estar certamente ao lado do vencedor, como ela gosta, diz este artigo.

Fica a faltar, Diana, a Rainha de Copas. Essa sim, bem conhecida.

Nada mais, nada menos do que Olena Zelenskaia, mulher do presidente da Ucrânia, pode tornar-se num símbolo de luta. No entanto, só poderá apresentar a candidatura se Zelensky morrer. É o que diz este artigo. Atenção, caso contrário, seria ridícula uma candidatura à presidência ucraniana.

E há ainda um seis de ouros, e neste caso é o próprio Volodymyr Zelensky.

Com a popularidade em que ele cai também aqui no baralho. Não é um ás, não é um rei, mas sim um seis de ouros. Este artigo refere que o atual chefe de Estado vai precisar provar a utilidade que pode ter ao serviço dos Estados Unidos. Antevê-se uma grande reformulação da marca Zelensky e do partido Servo do Povo, a fim de criar a ilusão de mudança aos olhos dos ucranianos.

E diz o KP: "Se não agradar ao Ocidente, Zelensky será morto por desobediência".

É uma catástrofe este artigo, diz que a principal arma de Zelensky é a repressão. Exemplos: na primavera de 2022, introduziu alterações ao Código Penal da Ucrânia e agora quem acusa o presidente acaba imediatamente nas celas dos serviços secretos. Há muita gente acusada de traição e cumplicidade com a Rússia. O exemplo mais recente é o deputado da Rada, Evgeny Shevchenko, que pediu negociações com Moscovo. Antes disso, Zelensky exilou Zaluzhnyi em Londres. Depois, há o posicionamento do Ocidente, que pode achar que a Ucrânia está a deixar de ser lucrativa por causa de Zelensky e acabará por ser substituído. E se ele tentar desobedecer a ordens, chantagear ou fugir, os Estados Unidos vão simplesmente eliminá-lo. Repito que estas informações, o que estamos aqui a falar, estamos apenas a citar o artigo que pode ler hoje no Komsomolskaya Pravda.

Voltamos já a seguir com o que dizem os jornais ucranianos.