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"Guerra Traduzida", edição especial Irão, o espaço em que falamos sobre o que conta a imprensa israelita, norte-americana e iraniana em plena guerra do Irão. Hoje com o jornalista João Gama. E João, começamos com uma pergunta: há ou não negociações entre o Irão e os Estados Unidos para acabar com a guerra no Médio Oriente?

Uns dizem que sim, outros dizem que não. Aliás, ontem foi conhecido o plano norte-americano com 15 exigências para ser apresentado a Teerão. Já vamos falar sobre isso, até porque a Associated Press escreve hoje que sim, o Irão recebeu o plano norte-americano, mas só através do Paquistão. E é aqui que começam as razões para erguermos uma sobrancelha, até porque a reação do Irão não deixa espaço para dúvidas. É isso que podemos ler em destaque na imprensa iraniana de hoje. A Agência Tasnim escreve que o exército ridicularizou as tentativas de Washington para apresentar a derrota militar dos Estados Unidos da América contra o Irão como um acordo. Aliás, assegura Teerão, jamais vai chegar a acordo com um agressor, como classifica Washington. A declaração é muito dura diretamente para com Donald Trump. Aconselha o exército iraniano, a Casa Branca, a negociar entre si um acordo e assegura que a guerra no Médio Oriente se está a transformar numa derrota estratégica para os Estados Unidos da América.

E foi a imprensa israelita a noticiar este plano de paz de Donald Trump para o Irão. Tem 15 diferentes pontos e são conhecidos 14. A maioria, João, são exigências.

Por exemplo, que o Irão entregue, Rui, todo o combustível nuclear que tem, que renuncie a armas atômicas e que várias instalações nucleares importantes sejam desmanteladas. O Irão terá também de abandonar o apoio a milícias regionais, deixa assim de financiar ou armar grupos como o Hezbollah ou a Hamas. Impõe-se também que mantenha aberto o estreito de Ormuz ao comércio internacional. Em contrapartida, de acordo com este plano da Casa Branca, o Irão veria o levantamento das sanções internacionais e o apoio dos Estados Unidos da América para o programa nuclear, desde que seja civil. Do plano, ainda assim, não consta qualquer menção a uma mudança de regime no país.

E é o único ponto em comum com a suposta resposta de Teerão, até porque enquanto os meios oficiais garantem que não há qualquer negociação com os Estados Unidos, há notícias que mostram um rol de exigências por parte da Guarda Revolucionária Islâmica.

Que encontramos em sites norte-americanos. É o caso do Wall Street Journal. Uma fonte norte-americana conta a este jornal que Teerão terá exigido o encerramento de todas as bases norte-americanas dos Estados Unidos no Golfo e reparações pelos ataques contra o país. Além disso, o Irão quer também a suspensão de todas as sanções de que está a ser alvo, enquanto lhe é permitido continuar com o seu programa de mísseis sem qualquer limitação. Isso vai precisamente contra as condições que já aqui vimos impostas pela Casa Branca. São exigências que encontramos nos jornais norte-americanos e também nos jornais israelitas. O mesmo não acontece quando espreitamos os meios de comunicação sociais do Irão.

E os jornais israelitas partilham algumas preocupações com a intenção de Donald Trump em negociar com o Irão. Escrevem que as autoridades de Tel Aviv temem quão longe o presidente norte-americano pode ir.

Temem que Donald Trump ceda em temas como o enriquecimento de urânio, que está a ser realizado no Irão, os programas nucleares do país e a criação de mísseis de longo alcance. Deixam, por isso, várias perguntas a Donald Trump. Por exemplo, se estas negociações fracassarem, se os Estados Unidos estarão ou não disponíveis para voltar a atacar com a mesma força o regime iraniano. É a manchete do Haaretz, que cita um alto funcionário israelita que acredita que as negociações com o Irão são substantivas. O que não está ainda claro é se a flexibilidade de Teerão vai ou não satisfazer a Casa Branca. São negociações que estão a deixar Israel nervoso.

João, atenções viradas hoje para o Iraque. Uma clínica militar foi atacada esta manhã. Falamos de um ataque que fez 20 vítimas.

Mais precisamente, Rui, sete mortos e 13 feridos. É claro, a notícia em destaque em vários jornais iraquianos. Recorremos aqui à Agência de Notícias Pública do Iraque. A clínica militar de Abaniyah, que está sob comando do Ministério da Defesa, foi alvo de um ataque aéreo traiçoeiro, seguido de um bombardeamento aéreo. Isto de acordo com um comunicado do próprio Ministério da Defesa, que fala de uma flagrante violação do direito internacional, que proíbe, por exemplo, um ataque a instalações médicas. O governo de Bagdá alerta para um ato criminoso capaz de escalar de forma perigosa as tensões na região, apesar dos melhores esforços para se manter afastado do conflito regional que sabemos que envolve o Irão, Israel e também os Estados Unidos da América. Por isso, o Iraque reserva o direito de responder a este ataque e diz que esta violação do direito internacional mina as relações com os Estados Unidos da América. Afinal, esta clínica militar pertence às Forças de Mobilização Popular, muito associadas, Rui, à Guarda Revolucionária Islâmica do Irão.

Regressamos à imprensa israelita. O jornal Haaretz tem um explicador sobre se Israel está ou não a censurar a informação sobre a guerra com o Irão.

E não deixa de ser interessante ser um próprio jornal israelita a fazer esta avaliação. Responde assim aos rumores que estão a surgir nas redes sociais sobre um suposto apagão mediático em Israel e sobre as alegações de que todas as reportagens e notícias são revistas pelo exército israelita. Por isso, o Haaretz explica como funciona a censura de imprensa em Israel. Não a nega. Explica que notícias sobre determinados temas, como planos militares, deslocamento de tropas, fragilidades nos sistemas de defesa, têm que ser revistas por uma unidade dos serviços de informação com o nome Censura Militar. Israel não está bem cotado nos rankings de liberdade de imprensa. A organização Repórteres Sem Fronteiras classificou o país no lugar 112 de um total de 185 que foram avaliados em 2025 e descreve este tipo de censura militar israelita antes desta guerra com o Irão como draconiana. O Comitê para a Proteção dos Jornalistas relatou um aumento da censura durante a guerra entre Israel e o Hamas e também a guerra que durou apenas 12 dias com o Irão no mês de junho do ano passado. Em 2024, destaca aqui o Haaretz, em plena guerra com o Hamas, a censura militar proibiu a publicação de um total de 1635 artigos e ocultou informações, de forma parcial, de outros 6265. É o maior número registrado numa década.

Falamos agora de espionagem, João. Em Israel, uma criança com 14 anos foi acusada de espiar o país a favor do Irão.

Incluindo, Rui, filmar o quartel-general militar de Kirya, em Tel Aviv. Na acusação da Justiça israelita, podemos ler que este adolescente, tem 14 anos, alegadamente entrou em contacto de forma online com um agente iraniano em abril do ano passado e passou depois a realizar algumas tarefas a troco de pouco mais de 1100 dólares. Este menor é acusado de fazer grafites em Tel Aviv com mensagens pro Irão, de espiar o ministro israelita dos Negócios Estrangeiros, de gravar vídeos perto de um bairro que foi depois alvo de um ataque com mísseis iranianos e de procurar alugar um apartamento bem perto do quartel-general das Forças de Defesa de Israel em Tel Aviv. Está, por isso, em destaque no "Times of Israel".

Antes de fechar, voltamos à Agência Tasnim, que tem outra notícia em manchete. João escreve que o exército israelita está furioso com os jornalistas. Por quê?

É uma guerra de informação e de números, como sabemos. Há uns dias, esta agência iraniana apresentou relatos que procuravam comprovar que até ao 21° dia da guerra já tinham morrido perto de 1300 soldados israelitas. É uma informação que foi desmentida pelo governo de Tel Aviv. E é isso mesmo que é tema na Tasnim, que escreve que é natural que o exército israelita fique irritado com o fracasso em atingir os seus objetivos, mas que as reações nervosas não alteram o resultado final. Continuamos assim sem saber exatamente quantos soldados israelitas é que morreram nas últimas semanas da guerra do Irão.

Fica por aqui mais um episódio da Guerra Traduzida da Rádio Observador, edição especial dedicada à guerra no Irão. Hoje com edição do jornalista João Gama. Eu sou o Rui Casa Nova. Estamos de regresso amanhã.