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"Guerra Traduzida" na Rádio Observador. Olhamos agora para a imprensa ucraniana neste dia 28 de dezembro de 2023. É um trabalho do jornalista João Filipe Cruz, com a colaboração da Tânia Olinec. João, começamos com a polêmica sobre a nova lei da mobilização.

Aqui vou citar o título do jornal TSN, que destaca esta notícia. Lá podemos ler: "A mobilização é apenas o começo. Há outro ponto escandaloso na lei que apareceu no Conselho". Os castigos a quem não cumpra esta lei da mobilização estão a criar uma crescente vaga de descontentamento entre os ucranianos. Aqueles que ainda estão no país passam a não poder viajar pro estrangeiro. Os que não cumprirem a lei podem deixar de conseguir gerir a própria propriedade e as contas que têm nos bancos, por exemplo, e até podem perder ou não conseguir a carta de condução. As multas são também muito pesadas, passam de um máximo de €120 até aqui, para um mínimo de €200 e podem chegar até €400. Se, por exemplo, não comparecerem à chamada pra mobilização, aos treinos, no exército e tudo mais, os ucranianos arriscam uma multa que pode chegar aos €800 e há outra nuance que pode começar já a partir do próximo ano. Quem não cumprir pode mesmo arriscar pena de prisão.

Em destaque, João, pra além desta questão da mobilização, está também o valor da dívida pública ucraniana.

É, a dívida pública que atingiu um novo marco histórico. Este ano cresceu mais de €4.000 milhões, fixou-se em mais de 140 mil milhões. O valor é do Ministério das Finanças, aqui citado pelo TSN. Só no mês passado, no mês de novembro, a dívida pública ucraniana aumentou em quase €9.000 milhões. E o jornal lembra também as previsões do Fundo Monetário Internacional, o FMI, prevê que a dívida cresça quase 90% até o final deste ano, ainda restam alguns dias. No próximo, os especialistas preveem uma subida de quase 100%.

João, passamos agora aos dados atualizados sobre o número de crianças que foram mortas pela Rússia na Ucrânia.

Mais de 500. 513 crianças morreram. O número é do gabinete da Procuradoria-Geral da Ucrânia, citada pelo jornal TSN, e há ainda o registro de quase 1.200 menores feridos nesta guerra entre a Rússia e a Ucrânia em solo ucraniano. A Procuradoria-Geral reforça ainda que estes números não serão finais, porque a guerra não acabou, mas não são finais à data de hoje, porque não consegue ser precisa, nomeadamente nas zonas ocupadas pelas tropas russas. Entre os locais mais afetados estão Donetsk e Kharkiv.

João, vamos terminar com a prisão de dois poetas russos. Escreveram poemas contra a guerra na Ucrânia, por isso têm pena de prisão.

E fizeram mais do que isso. Leram-nos na Rússia. A Tom Kamardin foi condenado a sete anos de prisão e Yegor Shtovba a cinco anos e seis meses por terem lido poemas em que a invasão da Ucrânia era criticada. A notícia está em destaque no jornal Pravda. A sentença diz que incitaram ao ódio e apelaram a atividades que ameaçam a segurança do Estado. Um dia antes de ser detido, em setembro do ano passado, Kamardin declamou o poema "Mata-me Miliciano", numa praça de Moscovo, onde habitualmente os dissidentes do regime de Kremlin se reúnem desde a era soviética. O homem de 32 anos também gritou palavras de ordem contra o projeto imperial da Nova Rússia, que quer anexar o sul da Ucrânia, e na altura da detenção foi noticiado que Kamardin tinha sido agredido e violado com uma barra pelos agentes de segurança, que o obrigaram a filmar depois um vídeo em que ele pede desculpas. Agora, pede clemência ao tribunal, argumenta que não sabia que estava a infringir a lei, algo que também referiu Yegor Shtovba, de 23 anos, declarou isso mesmo, não sabia que não estava a cumprir a lei. Aliás, nas alegações em tribunal, deixou mesmo uma pergunta: "O que eu fiz que é ilegal? Ler poesia?"

Uma situação muito diferente do universo que estamos habituados a ter. Fecho deste episódio. Voltamos amanhã para mais um episódio da "Guerra Traduzida", em que analisamos a imprensa russa e ucraniana.