Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta é a história do dia da Rádio Observador: a Europa está a entrar numa guerra de drones?
"And just today we have seen a reckless and unprecedented violation of Poland and Europe's airspace by more than 10 Russian Shahed drones. Europe stands in full solidarity with Poland."
Ursula von der Leyen discursa no Parlamento Europeu num dia marcado pela invasão de drones russos no espaço aéreo da Polónia. A presidente da Comissão Europeia promete união e resposta. O Parlamento aplaude de pé durante vários segundos.
"Putin's message is clear, and our response must be clear, too."
A resposta da União Europeia tem de ser tão clara como as intenções da Rússia. É necessário emergir uma nova União Europeia. É o que diz Ursula von der Leyen. É um discurso que inclui a promessa de responder a todas as tentativas de invasão do espaço aéreo. Acontece que desde este discurso, a meio deste mês de setembro, já se registaram mais incidentes com drones. Na Dinamarca e também na Noruega, o espaço aéreo teve de ser encerrado depois de se terem aproximado drones não identificados. Os países europeus apontam para uma tendência de comportamento por parte da Rússia. E esta segunda-feira, a Comissão Europeia pediu aos países da União para identificarem as carências militares que têm para se poderem reforçar essas capacidades através de coligações de Estados-membros, a começar pela criação de um muro de drones. Esse muro de drones seria colocado no flanco leste do bloco comunitário. Será que a Europa está a entrar numa guerra de drones? Vou conversar com Francisco Proença Garcia. É militar, professor universitário e investigador. Eu sou o Miguel Cordeiro e esta é a história do dia de terça-feira, 30 de setembro. Bem-vindo, Francisco.
Como está? Prazer em ouvi-lo.
Antes de falar do cenário estratégico e de possível conflito no espaço aéreo europeu, vamos começar pelo básico. Que drones são estes que estão a invadir o espaço aéreo de países da NATO e de países da União Europeia? Nós aqui não estamos a falar dos simples drones que se vendem nas lojas de eletrónica.
Há muitos tipos de drones. Por exemplo, os drones que entraram na Polónia são substancialmente diferentes daqueles que fizeram estas perturbações nos aeroportos na Dinamarca. Eram drones que tinham uma missão bem definida, atingir uma área militar na Polónia, mas não levavam carga e voavam a uma altitude superior. Estes tinham um objetivo específico e um maior raio de ação. E a intenção aí, a meu ver, é testar as capacidades de reação da Polónia ou de outros países da NATO, saber além de como é que reagem, quanto tempo demoram a reagir, com que meios reagem, se reagem com aviões, se reagem com defesa aérea, se reagem com antidrones. E depois os antidrones têm a ver com a altitude a que eles voam e com o tipo de drone. De maneira que foi essencialmente testar as nossas capacidades de reação, a nossa vontade de reagir e como é que nós reagimos. E nós reagimos a gastar muito dinheiro para uma desproporção tremenda para, imagine, um drone de 50 ou 60 mil dólares, que não serão tão caros estes que eles enviaram Shahed, e nós atingimos com mísseis Sidewinder que podem custar 1 milhão, 2 milhões, depende. Há dados que até dizem que foram com mísseis 3,4 milhões. Está a ver a diferença? E uma resposta multinacional com vários países envolvidos. Mas isso é para testar a nossa capacidade de reação face a uma incursão significativa à volta de 20 drones no espaço aéreo e na profundidade. Essa é uma tipologia mais militar, de reação militar, e para testar as nossas capacidades. A outra faz parte daquilo que hoje se diz guerra híbrida. A guerra sempre foi híbrida, nós é que a vemos só sempre no campo cinético e militar, mas sempre teve uma componente psicológica, uma componente económica e uma componente política. Nós é que nos esquecemos disso, de maneira que a guerra sempre foi híbrida. Isso é um jargão que agora os comentadores usam, mas a guerra sempre foi híbrida, assim como sempre foi assimétrica. A guerra procura criar assim trégua.
O meu ponto é: temos a Polónia a ser invadida no espaço aéreo por drones Shahed, isso foi noticiado, assim foi, houve resposta. Estes drones não representam diretamente um risco para as populações, é apenas essa questão estratégica de perceber que resposta tem a União Europeia?
É sempre um risco para as populações, porque ao abater um drone, há sempre os restos do drone que ficam e caem em cima de infraestruturas e pode matar pessoas. Podem ir infraestruturas, automóveis, num jardim, numa creche. Nós não sabemos onde é que eles vão cair, porque quando abate um objeto no ar, ele vai ser destruído. Mas essas intenções são completamente diferentes, a meu ver, das intenções de testar a nossa capacidade, até os nossos nervos. A resiliência das nossas populações, o acreditar nas autoridades. Nós acreditamos na capacidade de defesa da NATO, na capacidade de defesa do nosso país. As instituições estão a funcionar? Como é que reagiram quando caiu o drone, aqueles que foram abatidos e acertou numa casa? Como é que as entidades locais reagem? Ou seja, isso tudo põe à prova a nossa capacidade de resistência, a nossa resiliência, a nossa coesão com países membros de várias alianças, da NATO, da União Europeia, membros dessas várias organizações internacionais, e a coesão dentro da própria aliança E da própria União Europeia, isso é muito importante. Por isso é que tem que ser sempre uma resposta coletiva. Temos que reagir sempre como organização internacional, não pode ser só o país. Por isso é que eles invocam o artigo 4º, que é para se conversar. Surgiu este problema de invasão do nosso território, porque o espaço também é território, é soberania. Agora temos que discutir isto entre nós, como é que nós vamos reagir coletivamente. Porque se cada um responde por si, então não precisamos da aliança. É mais para testar a nossa resiliência como sociedades e nós acreditarmos nas instituições.
Está a dizer que a Rússia, de certa forma, está também a testar aquilo que é a união da União Europeia e a união da NATO.
Exatamente. A ver até onde é que nós vamos. Agora, aqui na Dinamarca, foi um navio militar que passou, já há fotografias disso, está tudo mapeado. E depois lançou uns quantos drones desses mais simples, mas se isso for junto do aeroporto, os aviões não podem entrar, a gente não sabe que tipo de drone é que está ali até o identificar e depois tem que deitar abaixo e ver a sua origem. De maneira que isso causa instabilidade, cancela-se o aeroporto, de repente fecha o aeroporto de uma grande capital por causa de um drone. O caos que se instala é sobretudo atacar a componente psicológica das populações e a nossa coesão, porque nós depois costumamos a questionar: "Mas por que eu não posso ir ao aeroporto aberto? Mas que defesa é esta do meu país que um simples drone para? E eles vão-nos atacar, se eles chegam aqui com o drone, podem destruir as infraestruturas, podem atacar as populações, pode-se tornar uma nova Ucrânia". Essa instabilidade emocional que se cria. O efeito russo pretendido é gigantesco e alcançou os seus objetivos. De maneira que a nossa resposta tem que ser sempre dentro da organização e coletivamente. Tanto que já houve reuniões para defesa do espaço aéreo, agora vamos criar aquela barreira dos drones. Ou seja, tem que ser uma resposta coletiva e isso testa a nossa coesão, porque se nós não formos coesos, então eles brincam conosco e fazem o que querem.
Muito bem. Portanto, a estratégia da Rússia parece estar a ter sucesso, destabilizar, criar problemas, criar perguntas também, não só na população, mas em todos estes países sobre como lidar com estes casos. Já vamos continuar a nossa conversa, fazemos apenas uma curta pausa. Estamos de regresso à conversa com Francisco Proença Garcia, militar, professor universitário e investigador. Como é que se deve lidar? A Europa deve seguir uma estratégia específica? Tem alguma ideia daquilo que deve fazer a União Europeia, por exemplo, perante uma situação destas?
A União Europeia já fez a primeira coisa, que foi reunir e consagrar os seus parceiros. Houve declarações políticas muito firmes, quer da Ursula von der Leyen, quer do primeiro-ministro polaco, o primeiro-ministro sueco veio dizer e oferecer o seu apoio nos antidrones em relação à Dinamarca.
Mas agora a ação.
Agora tem que haver ação. Para já, houve reuniões e vai haver reuniões já para a semana sobre a defesa do espaço aéreo, porque tem que ser uma coisa coordenada e coletiva. Que tipo de drones é que nós estamos a falar? São aqueles que voam, que nós compramos aqui no hipermercado e custam $500 ou $1.000, ou estamos a falar de uns drones de média altitude ou de uns de altíssima altitude que tiram fotografias e filmam constantemente e nós não nos apercebemos que existem.
E outros que podem ter armamento.
Exatamente. Estes para já não trazem armamento, até agora. Não há encargos que os outros trouxeram. De maneira que é preciso saber como é que é a defesa disso, tem que ser uma defesa integrada dentro do espaço da NATO, sobretudo da NATO, que a União Europeia não tem capacidade para isso, eventualmente poderá financiar agora seis bi já disponibilizados, seis mil milhões para se criar iniciativas antidrone. Espero que sejam conjuntas e com desenvolvimento de tecnologia nossa. E os ucranianos têm tecnologia fantástica e barata para isso. Temos que ir aprender com eles. Polónia já mandou homens seus para aprenderem com os ucranianos. Mas estas iniciativas têm que ser coletivas, porque não podemos imaginar agora uma proteção total. É por camadas de altitude para os diferentes tipos de drones, mas é preciso saber de onde é que eles vêm, como é que eles vêm. E os ucranianos têm uma tecnologia muito barata, que são umas antenas que detetam, são sonares, no fundo, identificam de onde é que eles vêm a baixa altitude, porque senão parecem morcegos.
Sim. Há notícias que apontam para a necessidade e a possibilidade de se criar essa coluna de drones que já referi há pouco, junto à fronteira. Isto é algo real, isto é algo possível de acontecer?
No fundo, estamos a criar uma coisa que nós temos, se for a uma torre de controle do espaço aéreo dos países, nós acompanhamos. Até na internet temos o tracking. Eu vou daqui para a Dinamarca. Eu sei exatamente, levanto o meu voo e olho e tenho em real time onde é que vai o meu avião. De maneira que nós temos a capacidade de detetar aeronaves maiores. Agora temos que começar a ter capacidade de detetar aeronaves mais pequenas, daquilo que voa, muito mais pequenas e a altitudes completamente diferentes. Isso é realizável tecnologicamente. Os ucranianos têm essa tecnologia, nós temos essa tecnologia, temos é que a desenvolver e a divulgar por todos os países da União. Mas sobretudo junto à fronteira. No fundo, é um acompanhamento visual por satélite, por outros drones que nós tenhamos, por helicópteros. Depois tem que haver um sistema integrado de vigilância e de proteção e depois de defesa aérea, que integra meios aéreos, meios terrestres, antidrones. Chama-se a isso um sistema integrado. Mas é possível fazer isso. Agora, nós temos isso para os aviões, então agora temos que fazer para aeronaves mais pequeninas.
E tem que se definir que resposta é que se dá perante uma invasão do espaço aéreo, sendo drones ou sendo outro tipo de aeronaves, mas que resposta é que se dá efetivamente nessa resposta coordenada que tu definia. Eu queria perceber que papel é que Portugal pode ter no meio de tudo isto. Portugal tem uma cada vez mais reconhecida indústria e setor de investigação na área dos drones. Portugal pode ter um papel em tudo isto?
Nós temos empresas portuguesas, não vou entrar no marketing dessas empresas, mas nós temos empresas portuguesas a fornecer diretamente, algumas delas já com grande capacidade, vários tipos de drone, quer com payload, ou seja, para explosivos, mas sobretudo para reconhecimento, para fotografia, para identificação de alvos, com vários tipos de setores de movimento e vários tipos de câmaras térmicas, inúmera tecnologia aplicada, dependendo da missão a que se atribui. Chama-se a isso qual é o payload que a aeronave leva. Nós temos uma capacidade muito desenvolvida nessa área e temos várias empresas a desenvolver essa capacidade. E pode ser um nicho muito interessante para Portugal, para já porque estamos longe. E podemos ir buscar o desenvolvimento de tecnologia do outro lado do Atlântico, podemos ir buscar a tecnologia a Israel, que tem boa tecnologia, podemos ir buscar a tecnologia à França, podemos ir buscar tecnologia aos turcos ou, sobretudo, aos ucranianos, que eles é que têm essa capacidade antidrone que incrementam semanalmente. As dificuldades que eles enfrentam diariamente levam a que sejam muito inovadores, muito criativos e que com baixos custos tenham resultados muito interessantes. De maneira que nós podemos incorporar essa tecnologia. Já temos fábricas no local. Há uma grande empresa que já tem uma fábrica no local, uma empresa portuguesa, mas nós podemos desenvolver essa capacidade cá. Temos espaço para fazer treino, temos um longo oceano onde podemos fazer treino. Este mês, acabou há quatro ou cinco dias, a Marinha promove aqui em Troia um grande exercício, que é o REP. Vêm drones subaquáticos, drones com as mais diversas capacidades e tipos de intervenção, e que são promovidos aqui neste maior exercício que é feito em Portugal. Isso dá-nos prestígio e traz-nos tecnologia para incorporação na nossa indústria e depois traz-nos, sobretudo, infelizmente, face às ameaças que agora temos, traz-nos mercado para que as nossas empresas, uma delas até já é um unicórnio nesta área. Era uma empresa já com algum tempo de atuação e que de repente explodiu em crescimento. De maneira que nós temos uma grande oportunidade nesta área, pois não é só o drone em si, o drone incorpora muita tecnologia, desde a tecnologia da navegação, várias coisas ligadas aos aviônicos, da navegação, da ligação ao satélite. Há inúmera tecnologia que pode ser depois incorporada com outro uso.
E muito trabalho por fazer também em Portugal.
E é muito desafiante.
Claro. Francisco, volto ao ponto de partida para fecharmos esta nossa conversa. O território europeu está, podemos dizer, já numa guerra de drones?
Não. Vinte drones. Isso que está a dizer, se nós propagarmos isso, os russos ganham. Estão a ter o efeito psicológico que eles querem. Vinte drones, por amor de Deus. Entraram no espaço, nós reagimos como deve ser. Agora foi na Dinamarca, um drone no aeroporto fechou-se o aeroporto. Eles vão continuar a fazer isto, mas se nós dermos grande significado a isso, então eles estão a ganhar a guerra psicológica. Isso é que não pode acontecer. Essa guerra das perceções não pode ser ganha por eles. Nós temos que reagir e mostrar às nossas populações que nós temos capacidade tecnológica e vontade coletiva de contrariar essas intenções russas. É fundamental essa resposta coletiva e depois divulgá-la. E nós somos capazes de impedir que isso aconteça. Agora, se nós dizemos que temos uma guerra de drones, então as populações ficam com medo e já começam a ver drones assim como há uns anos tinham os OVNIs em todo lado, agora começamos a ver drones em todo lado. Eu acho que é um exagero dizermos que estamos perante uma guerra de drones, mas é uma ameaça real, e que provoca, sobretudo, esta componente psicológica e das perceções. Se nós não a combatermos agora, isto depois vai tendo crescente e depois o significado paralisa-nos e damos a vitória a quem quer que esteja a fazer essas incursões no nosso espaço aéreo. De maneira que isso é que tem que ser discutado.
Obrigado, Francisco.
Sempre às ordens. Muito obrigado, eu.
Francisco Proença Garcia é militar, professor universitário e também investigador. Nesta história do dia, deixo agora algumas notas para esta terça-feira. Hoje, no Parlamento, os deputados discutem e votam a nova Lei de Estrangeiros, apresentada pelas bancadas do PSD e do CDS, em articulação com o Governo. É a segunda versão do texto de lei, já com alterações e esclarecimentos, depois do chumbo no Tribunal Constitucional. O Parlamento é o primeiro obstáculo que esta nova lei enfrenta. No desporto, arranca hoje mais uma semana de competições europeias. Joga-se a segunda jornada da Liga dos Campeões. Às 20h, em Londres, o Benfica defronta o Chelsea, campeão mundial em título e vencedor da Liga Conferência no ano passado. É um regresso de José Mourinho a Stamford Bridge, num jogo em que o Benfica procura os primeiros pontos nesta edição da Champions. 20h, Chelsea x Benfica, jogo com relato em direto na Rádio Observador. Nas ruas, em todo o território do país, prossegue a campanha eleitoral para as eleições autárquicas. Com isso, pode também acompanhar a cobertura do Observador, no site e na rádio. Todos os dias temos o direto à campanha depois do noticiário das 9h. E há também o "Caça ao Voto", depois das 17h30. Aqui, nestes dois programas, pode escutar reportagens junto das caravanas políticas e análise à campanha eleitoral. Pode também recuperar a escuta destes programas, sempre em podcast. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Miguel Cordeiro. Até amanhã.