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Este podcast tem o apoio da gama Audi e-tron.

Esta é a história do dia da Rádio Observador: a importância do megawatt-hora no preço da torrada. Vladimir Putin discursa no Fórum Russo da Energia, no âmbito da Semana Energética. O presidente russo diz que não tem dúvidas. A sabotagem nos pipeline Nord Stream 1 e 2 são, segundo Putin, um ato de terrorismo internacional. Acrescenta o presidente russo, uma estratégia dos Estados Unidos e dos seus aliados para privar a Europa de energia mais barata e assim conseguir vender o gás liquefeito norte-americano. A guerra acrescentou mais incerteza ao preço da energia. O governo português avança com um pacote de 3 bilhões de euros, o maior de sempre na energia, para tentar travar o aumento dos preços para as empresas e diz que com isso vai também conseguir ajudar as famílias. Vou conversar com a jornalista do Observador, Ana Suspiro, especialista em energia. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Ana.

Olá, Ricardo.

Eu estou a imaginar os ouvintes da história do dia a pensar: outra vez economia, outra vez o preço do gás.

Estamos a falar de 3 bilhões de euros que comparam com 658 milhões de euros do ano passado. Portanto, não, não é uma intervenção banal, é uma intervenção extraordinária e muitíssimo significativa. É a maior intervenção de sempre no mercado de energia.

Ana Suspiro, pela voz do ministro do Ambiente, Duarte Cordeiro, o governo vem agora anunciar a maior intervenção de sempre. É, pelo menos, a mais cara.

No setor da energia, sim. Desde que há memória, nos últimos 20, 30 anos, houve várias intervenções no setor da eletricidade e do gás natural e esta, de facto, é aquela que tem o número mais gordo, que são 3 bilhões de euros.

Mas este dinheiro, Ana, é só pra empresas?

Sim, no primeiro impacto direto, sim, porque este dinheiro vai ser todo dirigido para baixar as tarifas de acesso das empresas ao sistema de eletricidade e ao sistema do gás natural. Por quê? Porque para as empresas, a componente da energia tem um peso muito grande na fatura, muito maior do que o que tem nos consumidores finais. A única forma que o governo tem de poder, através deste tipo de medidas, baixar os custos das empresas, é reduzir os custos de acesso ao sistema elétrico e do gás.

Nós ao interferirmos no gás e ao interferirmos na eletricidade, estamos a interferir, naturalmente, no pão, estamos a interferir no leite, estamos a interferir em todos os domínios que digam respeito à produção de serviços e de produtos da nossa sociedade.

Ok, já percebemos a ideia. É só para as empresas, mas, Ana Suspiro, as famílias não ficam prejudicadas no meio disso tudo?

O que o ministro Duarte Cordeiro disse é que beneficiar as empresas, no limite, também, no segundo plano, também ajuda as famílias, no sentido em que as empresas, ao não pagarem tanto pela eletricidade e pelo gás natural, não vão aumentar muito os preços dos produtos e dos serviços que as famílias compram. Essa é uma primeira linha de raciocínio. Depois, há outra coisa que o ministro também disse, é que os preços de eletricidade para as famílias, pelo menos para aquelas que estão no chamado mercado regulado, vão ter aumentos muito inferiores àqueles que as empresas sentiriam, por causa de medidas que já foram adotadas ao longo deste ano e que, ele acredita, vão permitir que as tarifas elétricas do próximo ano subam abaixo da inflação.

Mas já sabemos quanto é que vai aumentar, por exemplo, o gás e a eletricidade, ou não?

O gás, sabemos. O gás aumentou em outubro 3,9%.

E a eletricidade?

A eletricidade, as tarifas vão ser fixadas pelo regulador no dia 15 de outubro, que vai ter em conta todas estas medidas que foram sendo adotadas agora, no caso das empresas, e no passado, por exemplo, em julho, para as famílias. E o governo, obviamente, tem mais informação do que nós. Aliás, o ministro disse que falou com o regulador e que está confiante ou que tem a expectativa de que os aumentos que vão ser anunciados pra 2023 vão ser bastante inferiores à inflação. E a inflação média que está prevista pro final do ano é de 7,8%.

E dia 15 de outubro é já no sábado, portanto, a princípio, segunda-feira.

Pode ser na segunda-feira, porque não sei se eles ou antecipam pra sexta ou passam pra segunda.

Pra ser um dia útil. Vamos voltar aqui aos 3 bilhões deste pacote. Afinal, quem é que paga isto? Como é que isto vai funcionar?

Ainda não sabemos todo o detalhe da coisa. Sabemos que há uma parte substancial deste valor. Se calhar, começando por dizer que destes 3 bilhões, 2 bilhões de euros são pro setor elétrico e 1 bilhão são pro gás. No gás natural, os 1 bilhão de euros vêm todos do Orçamento de Estado. Todos. Desde o Orçamento de Estado deste ano Que tem sido um ano de grande coleta de impostos. Estamos com execuções orçamentais muito positivas do ponto de vista das contas públicas.

Incríveis do ponto de vista de quem arriscada, não é?

Exatamente, porque a inflação faz subir os preços e faz acelerar a receita fiscal e, portanto, há 1000 milhões de euros que saem do orçamento para o gás natural. Na eletricidade, o valor que vem do Orçamento de Estado, ou seja, dos contribuintes, de alguma forma, é menor, são cerca de 500 milhões de euros. E depois há uma parte desta intervenção que é financiada por ganhos do próprio sistema elétrico, e aqui o ministro não se esticou muito. Ou seja, remeteu as explicações para o regulador e para o dia da fixação das tarifas. Não temos muita informação sobre que ganhos são estes.

Já vamos voltar à conversa com a jornalista Ana Suspiro sobre este pacote de ajuda às empresas. Vamos perceber quais são as empresas que podem beneficiar com isto e como ter, na prática, acesso a esta ajuda.

Sim, a gama Audi e-tron é 100% elétrica, mas é mais do que isso. Leva-nos mais longe do que imaginamos. Encontra no silêncio o ritmo perfeito. Faz-nos olhar duas vezes, se formos suficientemente rápidos. Por isso, sim, a gama Audi e-tron é 100% elétrica e, entre outras coisas fantásticas, apoia esta história do dia. Audi, o futuro é uma atitude.

Estamos de regresso à conversa com a jornalista do Observador, Ana Suspiro, é especialista no mercado energético. Três mil milhões, como diria Durão Barroso, é uma pipa de massa. Ana Suspiro, a energia poderá aumentar assim tanto que justifique esta pipa de massa? O governo apresentou essas contas?

Estamos a falar de aumentos brutais de 2021 para 2023.

O governo apresentou contas muito impressionantes. Nós, por exemplo, na eletricidade e para as empresas, temos aumentos que chegam quase ao dobro, 94%. Este ano, no caso-

94%?

94%, no caso dos grandes clientes de eletricidade. Ou seja, isto são empresas onde o peso da energia é muito grande na fatura e o peso da parte da infraestrutura é muito reduzido. E quanto maior é o consumidor, mais fica exposto ao preço da energia. Quando a energia sobe, mais sobe a fatura. No caso dos domésticos, isso é mais fácil de atenuar, porque o peso da energia na nossa fatura é muito mais reduzido. Ainda mais impressionante são os aumentos do preço do gás. Não é por acaso que nós estamos sempre a ouvir falar de recordes atrás de recordes.

E há exemplos?

Há exemplos. Temos aumentos de 145% para os grandes clientes.

145%?

Exatamente. Isto comparando o segundo trimestre deste ano com o segundo trimestre do ano passado. E no caso das empresas de menor dimensão, curiosamente, os aumentos são maiores, são de 212%, ou seja, mais de 200%.

Isso, tal como dizia a ministra, são mesmo aumentos brutais, não é?

São aumentos brutais. E as ajudas que existiam, sobretudo para as empresas do gás, por limitação da Comissão Europeia, só permitiam cobrir uma parte relativamente pequena destes aumentos. Salvo erro, seria um terço, não dava para cobrir tudo. Ainda mais impressionantes são os aumentos que o governo prevê para o próximo ano.

Vamos lá a esses números.

Há uma previsão de uma subida de 276% no preço da eletricidade. Estamos a falar, já que te interessas tanto pelo megawatt, em 2020, 1 megawatt-hora custava 68,7 € e para o ano prevê-se que possa custar 258 €. Portanto, é uma subida brutal. Mas quando chegamos ao gás, então é que ficamos com os cabelos em pé, porque há dois cenários: um mau e um ainda pior. O mau é aumentos de 354% face aos preços de 2021 e o ainda pior são aumentos de mais de 700%.

E Ana, isto é tudo consequência da guerra?

É, sobretudo, consequência da guerra. Não é apenas consequência da guerra. Nós, no início deste ano, ainda antes da invasão da Ucrânia, já estávamos a sentir. Aliás, já desde o ano passado, há um ano que andamos a sentir aumentos do preço da energia, sobretudo da eletricidade e também do gás natural, porque o fim da pandemia trouxe uma retoma econômica e um grande regresso à atividade industrial e houve procura de energia. E estes setores tiveram quebras de investimento durante a pandemia, portanto, houve, de fato, aqui já estávamos numa situação de algum ajustamento. Com a guerra e com a crise, a rutura no abastecimento, primeiro com as sanções que foram impostas pelos países europeus à energia russa e depois com as próprias quebras de abastecimento por parte dos russos, isto fez com que os preços do petróleo, e sobretudo do gás natural, disparassem ainda mais.

Mas nós não estávamos aqui um bocadinho à margem de tudo isso?

Portugal não é diretamente afetado no sentido em que não compra gás russo, ou seja, não é afetado por ter dificuldades em comprar gás, não tem. Tem outros fornecedores. Mas isto faz com que o preço suba e o preço quando sobe, sobe para todos.

Então e o famoso mecanismo ibérico?

Pois, o famoso mecanismo ibérico.

E temos um episódio aqui da História do Dia com a Ana Suspiro sobre o famoso mecanismo ibérico.

Digamos que o famoso mecanismo ibérico está a cumprir o seu papel, mas com impacto mais modesto que aquele que o governo previa, o governo português e o governo espanhol Tem havido poupanças na ordem, salvo erro, dos 18% no preço da eletricidade em relação àquilo que existiria se esse mecanismo não estivesse a funcionar. O problema é que o gás natural subiu muito mais do que se estava à espera, sobretudo desde que houve os eventos no Nord Stream.

Voltando ao pacote de ajuda, isto é para todas as empresas, é igual para todos?

É. É todas as empresas que têm eletricidade e gás. Não têm que fazer nada.

Não têm que fazer nada? Como é que vai funcionar?

Não têm que fazer nada. É através das tarifas de acesso. Todos os comercializadores que têm oferta de gás e eletricidade para as empresas, têm que ajustar a descida das tarifas de acesso à descida que for decidida pelo regulador, e isso vai automaticamente refletir-se no preço final aos seus clientes.

O empresário não tem que preencher nenhum papel, não tem que se candidatar a nada, tudo isto vai ser tratado a montante.

Não, simplesmente a eletricidade e o gás natural baixam de preço. Portanto, sem que as empresas, à partida, tenham que fazer nada por isso.

Estamos a falar de, face aos preços que estimamos para o próximo ano, de uma redução no mercado de eletricidade de 30% a 31%. Face aos preços que estimamos para o próximo ano no gás natural, estamos a falar de uma redução da fatura de energia do gás para as empresas entre 23% e 42%, consoante as nossas previsões de preço.

Ana, quando estamos no café a comer uma torrada ou beber uma meia de leite, a tomar o pequeno-almoço, no fundo, também estamos a pagar este tal megawatt-hora, que já custa uma fortuna. E por este andar, e por tudo isto que estiveste a explicar, poderá ficar ainda mais caro.

Esse é o problema da subida do preço da energia. A energia é um bem que está em todo lado. Atinge tudo, desde a indústria, passando pelos serviços, no transporte, e não é por acaso que é o principal fator e o principal culpado pela subida da inflação este ano.

Obrigado, Ana.

Obrigada, Ricardo, embora acho que em breve estarei de volta, porque de facto, ao ritmo que os preços sobem, vamos ter que ter mais programas sobre esse assunto.

Vamos voltar a falar de economia, seguramente, aqui na História do Dia. Ana Suspiro é jornalista do Observador e há muito que acompanha o setor da energia. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia e a música do genérico são do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã. Este podcast tem o apoio da gama Audi e-tron